A construção de um novo modelo de desenvolvimento para o Brasil, baseado na ciência, na inovação e na promoção do bem-estar, foi o tema central da conferência “Ciência, Soberania Nacional e Direito à Vida”, apresentada por Carlos Gadelha durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Coordenador da Rede de Pesquisa em Desenvolvimento, Complexo Econômico-Industrial da Saúde e Inovação (Rede CEIS) e líder do Grupo de Pesquisa Complexo Econômico-Industrial da Saúde (GPCEIS/CEE-Ensp/Fiocruz), Gadelha defendeu a necessidade de reorganizar as prioridades econômicas, colocando as necessidades humanas e a preservação ambiental no centro das decisões públicas e produtivas.
Segundo o pesquisador, a ciência, a tecnologia e a inovação devem ser pilares de um projeto nacional comprometido com a soberania, a defesa da vida e a sustentabilidade. “Queremos construir um novo projeto nacional, no qual a ciência, a tecnologia e a inovação sejam parte essencial do compromisso com a vida, a soberania e o planeta”, afirmou.
Gadelha destacou que a proposta ganha ainda mais importância diante do agravamento das desigualdades globais. Atualmente, as 12 pessoas mais ricas do mundo concentram mais riqueza do que a metade mais pobre da população mundial, composta por cerca de quatro bilhões de pessoas. Ao mesmo tempo, aproximadamente 3,7 bilhões vivem em situação de pobreza e mais de 700 milhões enfrentam a fome.
Para enfrentar esse cenário, o pesquisador defendeu que o Brasil integre em uma mesma estratégia temas como reindustrialização, transformação digital, transição ecológica e fortalecimento da capacidade nacional de ciência, tecnologia e inovação. Nesse contexto, a saúde deve ocupar posição estratégica por sua capacidade de articular crescimento econômico, soberania produtiva e garantia de direitos sociais e ambientais.
Na avaliação de Gadelha, a experiência do Sistema Único de Saúde (SUS) demonstra que políticas públicas podem reduzir desigualdades, ampliar a inclusão social e incorporar a sustentabilidade como elemento estruturante da produção e da inovação. Essa visão contrasta com abordagens que tratam os investimentos sociais apenas como despesas que comprometem o Produto Interno Bruto (PIB).
O pesquisador argumentou que áreas como saúde, educação, cultura e meio ambiente podem atuar como motores de um novo ciclo de desenvolvimento. A saúde, por exemplo, emprega diretamente mais de 10 milhões de trabalhadores qualificados no país e, ao ampliar o acesso da população aos serviços, também fortalece a base científica, tecnológica e industrial necessária para inserir o Brasil de forma soberana na chamada quarta revolução tecnológica.
Como parte dessa estratégia, Gadelha propôs ampliar o conceito de Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS) para o de Complexo do Bem-Estar, incorporando setores como educação e cultura. Juntas, essas áreas, associadas à ciência, tecnologia e inovação, representam mais de 20% do PIB brasileiro.
Segundo ele, essa economia do bem-estar oferece condições para transformar desafios históricos do desenvolvimento nacional em oportunidades de crescimento com inclusão social, sustentabilidade ambiental e fortalecimento da soberania. A proposta é direcionar as políticas de ciência, tecnologia e inovação para atender às necessidades da sociedade e contribuir para a defesa da vida, tanto das pessoas quanto do planeta.
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