
Por Mestre Yoda
O mundo de valores decadentes que Dostoievsky descreveu era o de meados do século XIX, cerca de 300 anos depois de Dom Quixote de La Mancha e quase dois mil anos depois de Jesus Cristo, os dois principais inspiradores do autor russo, na construção do personagem central da trama, o Príncipe Michkin, bondoso como um Mujica, dócil como Madre Tereza ou Gandhi.
Esse é o principal sentido de idiota no texto de Dostoievsky, bem distante de sua raiz etimológica grega, que dirige-se ao “sujeito privado”, cujo sentido é melhor representado, no presente pelos 367 (à época 300) “picaretas com anel de doutor” da letra da música “Luis Inácio”, de Herbert Vianna.
A atualidade do livro é evidente no Brasil da atual crise política. Num contexto em que a máxima bondade é facilmente confundível com estupidez, com falta de inteligência, o deputado federal e compositor Sérgio Reis (PRB-SP), revela a concepção hegemônica do brasileiro sobre honestidade, na letra de uma de suas mais famosas canções (Filho adotivo), que diz: “esse meu filho, coitadinho muito honesto, vive apenas do trabalho que arranjou para viver”.
Percebe-se assim que não foi na votação de domingo a primeira vez que o cantor mostrou seu menosprezo pela honestidade. Na obra de Dostoievsky, Michkin, o idiota (também revelado, em bela adaptação, pela lentes do nipodiretor Akira Kurosawa) é um incompreendido pela aristocracia, que não preza seu desapego por bens materiais, mas também pelos mais pobres, que o consideram aristocrata demais.
Sendo homem raro numa sociedade machista é disputado por duas mulheres fortes às quais o julgamento patriarcal classificaria como “caprichosas”, “vaidosas”. Sendo mulheres fortes em pleno século XIX, encontram brechas de opressão, espaço de poder em lares cujos “chefes de família” ou estão ausentes ou são incapazes de exercer o comando. Presume-se, na trama, que o pai de Nastácia, uma de suas pretendentes, é ausente, enquanto o pai de Aglaia, a outra, é alcólatra.
Solidário ao drama de ambas, torna-se alvo de um tiroteio emocional entre Aglaia e Nastácia. Mais do que isso, é instado pela família aristocrata e pela sociedade local a tomar partido em favor de Aglaia (que já não era assim tão bela, recatada e do lar) e desprezar Nastácia, uma espécie de Geni dostoievskyana, posição que ele recusa terminantemente, mesmo quando aceita se casar com Aglaia.
Isolado numa posição em que todo os lados do conflito desprezam seus valores e seu comportamento, Michkin, de tão bom, não consegue nem “cuspir no Bolsonaro”, autoexilando-se depois de todo o tipo de violência, como o assassinato de Nastácia e o confinamento familiar de Aglaia, impedida de vê-lo.
Séculos depois de Dom Quixote e milênios depois de Cristo, os inimigos de Michkin são ainda mais fortes do que moinhos e vias crucis. Ainda assim, aquele que, em nossos tempos, se atrever a atualizar Cristos, Quixotes, Michkins, Wyllys terá perversidades muito mais fortes a incluir em sua trama.
Assis Ribeiro
23 de abril de 2016 11:28 amClap, clap, clap.
Clap, clap, clap.
CaFeAndrade
23 de abril de 2016 9:06 pmmais claps….
Uauuuuu, grato pelo conteúdo Mestre Yoda.
Welton Oda
26 de abril de 2016 12:02 amMuito obrigado, Fernando! Na
Muito obrigado, Fernando! Na verdade, o livro é incrível, o Dostoievsky inspirador, mas nada tão surreal quanto a atual conjuntura brasileira.
Abraços,