4 de junho de 2026

Estou de luto

Acaba de ser sepultada a democracia brasileira. Nem questiono se Lula e Dilma são “culpados” ou não. Com a promiscuidade implantada nas relações entre empresas e campanhas eleitorais no Brasil há muitos e muitos anos e com o chamado “presidencialismo de coalização” brasileiro, TODOS os presidentes da República e TODOS os políticos que forem investigados dificilmente deixarão de ser pegos em algum ato que se possa classificar como ilegal.

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A grande questão é que só se investiga um lado e que os que deveriam zelar pelo cumprimento das leis são os primeiros a afrontá-las. Hoje, o Poder Judiciário e seus braços menores, o Ministério Público e a Polícia Federal (que deveriam se reportar ao Poder Executivos, pois são órgãos desse poder) se sobrepõem aos demais poderes, agindo seletivamente e em conluio com as grandes corporações de mídia. Temos uma República Jurídico-Midiática, com procedimentos jurídico-midiáticos, que afrontam a democracia.

Se o Judiciário, o MP e a PF são tão competentes, com estão demonstrando ser nas investigações envolvendo Lula, Dilma e seus aliados, por que ele não investiga, descobre e reprime os vazamentos que ocorrem em suas próprias fileiras? A única resposta que se pode aventar é a que os vazamentos estão ocorrendo sob o beneplácito daqueles que deveriam zelar pelo sigilo e pelas garantias constitucionais aos investigados.

O aparto policial utilizado na detenção e “condução coercitiva” de um ex-presidente da República brasileira (que vinha colaborando com as investigações em curso) com vazamento prévio para as grandes corporações de mídia, tem a nítida intenção de desmoralizar o investigado e de minar seu prestígio junto à opinião pública. Nicolas Sarkozy, ex-presidente francês, também foi investigado, mas não houve “vazamentos”, aparatos policiais circenses e nem espetáculo de mídia. A operação em curso no Brasil hoje é um operação eminentemente política, com objetivos políticos de inviabilizar o governo Dilma e de impossibilitar a candidatura de Lula em 2018.

Quando se rompe a legalidade, para satisfazer paixões político-partidárias, se está instalando o caos jurídico e, no caso atual, um Estado Policial.

O país está dividido. Mesmo que não ocorram confrontos violentos de expressão e não seja desencadeada uma reação de monta por parte dos adeptos de Lula, Dilma e pelos que têm a democracia como valor superior a ser preservado, As consequências futuras da quebra da institucionalidade em curso hoje produzirão efeitos nefastos para o país por muitos dos próximos anos, quiçá décadas.

A destruição da Máfia, na Itália, pela Operação Mãos Limpas, que serve de referência ao juiz Moro e às ações jurídico-midiáticas em curso hoje no país, desestruturou também o sistema político e partidário italiano. O vácuo de poder e de liderança instalado levou à ascensão ao poder de Sílvio Berlusconi e de seu império midiático. Instalou-se um grande circo de desmandos.

Diante do vácuo de liderança existente no Brasil hoje, as chances de algo muito parecido com o que ocorreu na Itália ocorrer aqui são muito grandes. Ou alguém imagina que as oposições têm líderes com estatura e respaldo popular suficiente para reordenar política e juridicamente o país?

O recuo, em todas as áreas será imenso. Nas conquistas econômicas, sociais e, inclusive, nos direitos e garantias individuais e de minorias. Será a hora dos Bolsonaros da vida e de seus símiles.

É hora de os democratas de todas as vertentes, liberais autênticos, socialdemocratas e socialistas, começarem a organizar a resistência. Ela será longa. Provavelmente tão longa quanto a que tivemos que exercer durante os anos de chumbo de 1964/1985.

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Benedito Tadeu César é cientista político.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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