5 de junho de 2026

Ilha do Mel, Paraná, Vice-Reino do Brasil, por Rui Daher

Ilha do Mel

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Brasil, Paraná, Ilha do Mel, primeira metade da década de 1970.

Eu, minha mulher, um casal de amigos curitibanos e outro de primos gaúchos deixamos Curitiba, de trem, pela Serra da Graciosa, até Morretes. De lá, um ônibus velho nos deixou no porto de Paranaguá e pequeno barco matraqueou 15 milhas até a Praia Encantadas. Estávamos na Ilha do Mel.

As primeiras referências de povoamento são do século 17. Há várias interpretações para a origem de seu nome, desde a apicultura levada por um europeu até a coloração de suas águas.

Paraíso pouco habitado, para ser admitido na ilha era necessária autorização da Marinha. Ney, o amigo curitibano, conseguira não só a ordem, mas também alojamento numa casa de madeira, frente ao mar, protegida por densas vegetação e população de mosquitos.

Na primeira noite, confirmaram-se dois clássicos insulares: tempestade brava para os nativos e um piriri desesperador para visitantes afoitos. Sim, num pequeno bar-restaurante-palhoça eu havia comido tudo o que me serviu o mar, inclusive pedaços de isopor vindo de navios.

Todos conhecemos início, meio e fim de um piriri, em etapas clássicas. Das primeiras pontadas até o final no banheiro.

Esclareço logo: o purgatório fecal ficava na parte de fora da casa. Com aqueles raios aterrorizadores, relâmpagos, trovões, aguaceiro, não tive coragem para sair de casa e aliviar as insuportáveis contrações. Ainda em lua-de-mel, na ilha de sugestivo nome, deixar escapar a escatologia na cama, poderia interromper de pronto um casamento que se mostrava promissor.  

Algo que me acompanha pela vida é a capacidade de pensar fora do quadrado, que também pode ser traduzido por: “sempre tem um jeito; não tem tu, vai tu mesmo; comigo ou sem-migo, vamos nós”.

Abri a janela do quarto, sentei na soleira, defini a logística da ação, pontos de origem e destino, e despejei meu sofrimento.

Bom diretor de cinema, filmaria em plano médio um travelling desde minha mulher na cama, intrigada e confusa, até aquela silhueta gorda e nua se contorcendo entre clarões e trevas intermitentes. Cortaria para ela, em primeiro plano, olhos de pânico, se perguntando: “Meu Deus, foi com isso que eu casei”?

Brasil, Paraná, Ilha do Mel, primeira metade da década de 2020.

Cinquenta anos depois, na mesma Ilha do Mel, vemos uma movimentação incessante de homens e mulheres carregando caixas e mais caixas de documentos, computadores, cartazes com fotos de “PROCURADOS – Prêmios e Sorteios por Grau de Delação”.

Todos vestem-se de preto e portam coletes à prova de bala. Entre mísseis, facas, granadas, transmissores, pistolas adequadas ao tamanho do portador. A do japonês, sabemos, é menor.

Aliás, comenta-se que ele não mais comanda a equipe. Foi promovido a figurinista-chefe, suposta pretensão de organizarem uma escola de samba que representaria a Ilha do Mel no carnaval de Brasília. Enredo: “Nossos juristas através dos séculos”.

Foram muitas as obras feitas na ilha desde os longínquos anos 1970. A Praia da Fortaleza, por exemplo, virou um grande complexo do Judiciário. Vasto estacionamento mantém milhares de veículos das marcas Ferrari, Mercedes, Lamborghini, Jaguar, BMW. Alguns apenas carcaças corroídas pelo ar marítimo.

Na entrada do edifício principal, construído em aço, granito e vidros fumê, pode-se ler: “Operação George Orwell”. Ao lado, um placar eletrônico marca o número de delatores já premiados. Evolui como os tais impostômetros, que fazem da progressão geométrica a parte mais imbecil da matemática. O da Ilha do Mel mostra o número 721.453. Nada mal.

– E aí Serginho, quem você quer hoje?

– Alguma sugestão, Mendes?

– Na reunião de pauta, hoje à tarde, o pessoal estava meio dispersivo, só queria falar do trabalho que o Aécio dá, em Brasília, com aviões, helicópteros e pistas de pouso de um certo Cláudio.

– Ué, “coercitivem” esse tal Cláudio!

– Ainda não foi identificado.

– Mas eu já não autorizei a queimarem todos que deixamos lá? Aécio, Cunha, Renan, o Vampiro, a Botox. Não foi para reinarmos livremente que melamos tudo e instituímos o parlamentarismo sem oposição? Fala lá, Mendes, sou ou não um gênio, jovem, arrumado e bonitinho?

– Porra, Mourinho, lembra que foi tudo feito sobre a corrupção da esquerda. Como falar que o cara é de esquerda se ele não sai das baladas no Rio de Janeiro? Dizem até que ele pensa reconstruir a histórica casa da Eni, em Bauru, e a da Albertina, em Ribeirão Preto.

– Por Jacarezinho, Gilmar! A região não é de cana? Então. Prenda essas mulheres.

– Acho que não estão mais em atividade, talvez até já tenham morrido.

– Então prendam esse Aécio.

– Mas ele é o presidente, lá em Brasília.

– Não entendo, Gilmar, como fui fazer-lhe de conselheiro e principal executivo da Operação. Por seus lábios grossos que não foi e nem pelos da Miriam Leitão. Pensei que você era mais esperto.

– Mourinho, o Primeiro, essas vestes pretas, essa cabana selvagem e de luxo, o trono, o tacape, em meio aos demais edifícios da tribo, me fazem lembrar do Idi Amim Dada. Acho melhor você ir mais devagar.

– Mendes, como você é inocente.

– Bem, alguém tem que ser nessa sua eterna Lava-Jato.

– Destruímos o maior mito da política brasileira, líder qual Getúlio Vargas, considerado no planeta excepcional estadista, fez 40 milhões de brasileiros saírem da faixa de pobreza extrema, fez os ricos ainda mais ricos, eleitor de postes por todo o País, e você com medo de um títere – conhece a figura – que pusemos lá para enfeitar Brasília?

– Para tudo tem limite.

– Tem. E o limite é aqui na Ilha do Mel, no Vice-Reinado Arbitral, o verdadeiro poder, de mãos limpas, barba feita e pernas raspadas, como se gosta em Curitiba, Coritiba e Coxas. Nós vencemos, Castilho, desculpe-me, Gilmar. Vai bem sua escola jurídica, em Brasília?

– Recolho-me aos autos do processo.

Nota: esclarecidos o vice-rei e seu conselheiro, deixo a cargo dos leitores descobrirem quem é o rei. 

Rui Daher

Rui Daher – administrador, consultor em desenvolvimento agrícola e escritor

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4 Comentários
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  1. paulo vi

    6 de março de 2016 3:22 pm

    Pois bem, saiba você que há

    Pois bem, saiba você que há 40 anos passados minha prima e o marido foram passar a lua-de-mel na Bahia. Após ele sair do banho lá foi-se ela e, ao sair encontrou o querido sentado na cama, mexendo entre os dedos de um pé com um coonete, tirando um sebo branco. Ela, de família pudica, ali, pela primeira desde que se conheceram (os noivos) falou: – Nossa fulano, mas que cheiro de cú. Eles contam sempre às gargalhadas e o casamento até esse momento, continua!

    1. Rui Daher

      7 de março de 2016 10:56 am

      Paulo,

      o meu acabou de completar 44 anos. Talvez, eu não precisasse ter feito tanto malabarismo. Abraço. Rui

  2. era republicana

    6 de março de 2016 4:12 pm

    mais um memoráve lexto, agora

    mais um memoráve lexto, agora sutil denuncia…

    pois é, parece que a afiliada da globo et caterva (seu velho proprietário já falecido)

    dominam a depredação da ilha do mel. ao invés de impedirem-na –

    a depredação ambiental, ilegal e infame….

    1. Rui Daher

      7 de março de 2016 10:55 am

      Apesar da segunda parte do texto

      ser uma paródia política, tenho informações de amigos paranaenses que caiu muito a preservação da Ilha do Mel. Tudo no Brasil que “vira negócio” é feito sem o menor cuidados com nossas riquezas e o maior para fazer crescer a riqueza dos donos et caterva. Abraço

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