
Os Panteras Negras no Sesc – II
por Walnice Nogueira Galvão
Ganham destaque na atual exposição do Sesc Pinheiros alguns nomes que ocuparam a liderança do partido dos Panteras Negras (1967-1981).
Entre eles, Stokely Carmichael, que foi seu Primeiro Ministro, vindo do SNCC estudantil, da linha não-violenta, decisivo na campanha para registro eleitoral dos negros no Sul. Foi ele quem se casou com a cantora e militante sul-africana Miriam Makeba, muito popular à época. Sua canção “Patapata”, haurindo em fontes folclóricas de seu país de origem, percorreu o mundo, sendo tocada e dançada por toda parte. Carmichael encaminhou-se para o pan-africanismo, buscando alianças internacionais, e viveu longo tempo no exílio.
Eldridge Cleaver escrevia para a revista de esquerda Ramparts, muito influente apesar da curta duração. Era ministro da Informação e encarregado das relações internacionais. E vinha do crime, já tendo sido preso mais de uma vez. A isso alude o título de seu livro Soul on ice (Alma no gelo, como foi traduzido aqui), o mais relevante dentre os gerados pelos Panteras Negras: “ice” em gíria carcerária significa prisão. Brilhante escritor, forneceria muito do ideário do grupo. Cleaver afeiçoou-se mais a um pan-socialismo, tendo passado parte da vida em Cuba e na Argélia.
Um dos fundadores do partido foi Bobby Seale, que escreveu em 1970 Seize the time, sobre o movimento. Seria um d´ “Os Sete de Chicago”, líderes de vários movimentos estudantis que se manifestaram em Chicago durante a convenção do Partido Democrata em 1968, dissolvidos pela brutalidade policial mais deslavada. Esses sete, todos brancos exceto Seale, foram presos, processados e condenados. Recentemente ele escreveu um novo estudo para o livro de fotografias de Stephen Shames, Power to the people: The world of the Black Panthers (2016), de que alguns instantâneos enriquecem a presente exposição no Sesc.
Co-fundador e cabeça teórica foi Huey P. Newton, cujos poucos textos estão sendo hoje divulgados e reavaliados, entre eles o livro To die for the people. Assassinado aos 47 anos em Oakland, sede do partido, é dele a foto icônica e desafiadora, sentado numa cadeira de imenso espaldar, de boina, vestido de preto, segurando na mão direita um fuzil e na esquerda um arpão, encarando o observador com má catadura. O grande Spike Lee, aquele que fez do cinema uma arma na luta contra o racismo, dedicou-lhe um documentário, A Huey P. Newton story (2001). Que só vimos década e meia depois, na Mostra São Paulo de 2016. A obra filma uma peça de sucesso de vários anos em off-Broadway.
As quatro lideranças supracitadas são personagens do filme de ficção Panteras negras (1995), do diretor e ativista Mario van Peebles, baseado em livro de seu pai Melvin. Um filme nada imparcial, expressando a fúria contra a perseguição que se desencadeou. Foi em 1967 que o Partido se uniu ao movimento estudantil branco contra a guerra do Vietnã, sob o slogan comum de “Power to the people”, ampliando sua ameaça e assinando sua destruição.
No filme, a polícia recruta, mediante chantagem, um delator interno ao partido, dando uma boa amostra dos “métodos” da repressão que o arrasou. O FBI, com Edgar J. Hoover à frente, tomou o controle da repressão, e o aparelho do Estado passou a mobilizar canais ilegais: assassinato dos líderes, falsas acusações com provas plantadas, atentados e bombas colocadas nos escritórios do partido pelo país todo.
Não podemos esquecer que em 1968, ou seja, no ano em que o fenômeno estava no auge, Jules Dassin, branco e famoso à época, diretor do sucesso internacional Nunca aos domingos, filmou Poder negro.
Quando Shaft (1971) surgiu, criando moda, vemos o detetive particular John Shaft ganhar escritório com nome na porta: ele é o primeiro de sua cor a receber a honra de tal profissão de heroi. Pode-se considerar a criação de Shaft como compensatória da liquidação do poder negro, instituindo um heroi despolitizado e aceito pelos brancos, em tarefas não mais sociais, mas estritamente da ordem do privado.
É bem recente o de Stanley Nelson, Os Panteras Negras: Vanguarda da Revolução (2014).
Há outros filmes sobre o Black Power, mas não costumam ser exibidos por aqui.
Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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