O retumbante fracasso da repristinaçao do AI-5 em 13/12/2015 se tornou, sem dúvida alguma, o fato mais curioso deste ano. Dilma Rousseff saiu fortalecida do episódio. Mas precisa fazer uma releitura das ruas a fim de modificar o curso de sua política econômica. Se o capitalismo sem democracia perdeu a força no domingo passado, a democracia sem capitalismo neoliberal deve ser considerada uma opção bem mais palatável do que a recessão forçada que o Ministro Joaquim Levy desencadeou.
De todas as passeatas, a da Av. Paulista foi a mais engraçada. Kin Kataguiri reapareceu ao lado de um ator pornô fracassado e dos tradicionais defensores da ditadura, aí incluídos os maníacos da TFP. O cortejo fúnebre do golpe foi seguido por um imenso Pato Amarelo da FIESP (provavelmente superfaturado, pago sem nota e fabricado numa empresinha chulé que não registra os empregados).
A maior federação de empresários do Brasil conseguiu reunir o menor número de manifestantes desde 2013. Paulo Skaf, que foi candidato a governador de São Paulo, embarcou na canoa furada de Michel Temer e afundou nas ruas de maneira precoce suas possibilidades eleitorais futuras.
Os jornalistas se esforçaram, mas não conseguiram explicar porque o mormaço reuniu tão poucas pessoas embaixo de uma árvore. Suponho que os idealizadores do golpe de estado tenham ficado tentados a adiar o mesmo para o início do próximo inverno ou talvez para a próxima Era do Gelo.
As tradicionais camisetas da CBF foram uma vez mais vistas. O fato do ex-presidente da mesma estar preso nos EUA por corrupção não parece incomodar os inimigos da corrupção do PT. A corrupção do PSDB paulista – Metrô, CPTM e Sabesp – também foi esquecida na Av. Paulista, palco das tradicionais selfies com os PMs que há poucos dias espancavam estudantes nas periferias.
O evento se tornou alvo de risos largos e silenciosos. No domingo fui almoçar num Shopping em Osasco. Na mesa ao lado, enquanto esperava minha refeição, um típico “patrão branco” conversava alto com sua esposa ou amante:
– Se não der certo o Impedimento vou embora do Brasil.
Olhei para o tal e dei um sorriso irônico pensando com meus botões: “Melhor ele comprar logo a passagem, não perderemos nada quando ele deixar o Brasil.”
A oposição, dramática e shakespeariana, vê algo de podre num país que combate ferozmente a corrupção que corria leve e solta quando FHC assinou o decreto permitindo à Petrobras contratar sem licitação e nomeou o menos atuante de todos os Procuradores Gerais da República de nossa história. O que vemos, porém, é algo de cômico num movimento quixotesco e natimorto porque detesta o povo que gostaria de reunir nas ruas.
Em homenagem à verdadeira natureza das jornadas de domingo, republico aqui um dos poemas que encerram a primeira parte da obra de Miguel de Cervantes:
DEL CACHIDIABLO,
ACADÉMICO DE LA ARGAMASILLA,
EN LA SEPULTURA DE DON QUIJOTE
Epitafio
Aquí yace el caballero
bien molido y malandante
a quien llevó Rocinante
por uno y otro sendero.
Sancho Panza el majadero
yace también junto a él,
escudero el más fïel
que vio el trato de escudero.
(Don Quijote de La Mancha, Miguel de Cervantes, edicion IV Centenario, Real Academia Española / Asociación de Academias de la Lengua Española, 2004, Impresso no Brasil)
El poema dedicado a Don Quijote al final de la primera parte del libro ahora se puede dedicar a Aécio Neves, Michel Temer y Paulo Skaf. Sólo queda por definir tres cosas: ¿Cuál es el caballo de del golpe de Estado? ¿Cuál es el nuevo Sancho Panza?¿Que desempeña el papel de lo adorable caballero loco?
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