Como o futuro dos herdeiros de três símbolos da ruptura americana do século XXI pode representar um novo patamar civilizatório nas Américas, ou o retrocesso

Por Sérgio Saraiva
A primeira década e meia deste século XXI foi um tempo anti-horário nas Américas, caminhou da direita para a esquerda. Tempo que levou Lula, Evo Morales e Barack Obama ao poder, cada um, ao seu modo, simbólico de uma ruptura.
Um preto, um índio e um pau-de-arara presidentes. Do outro lado, os brancos. Quanto preconceito está contido nessa caracterização?
A dimensão desse quanto está no grau das resistências que tiveram de ser vencidas ou contornadas para que cada um dos presidentes ruptores tivesse reconhecido o direito ao mando que o poder democrático lhes conferiu.
Do mesmo modo, o quanto esse momento de ruptura foi só um momento, ou o quanto representou um novo patamar civilizatório, é possível ser avaliado, se não na herança que cada um lega, na existência e no grau de aceitação dos seus herdeiros.
Obama, em um país com suficiente vivência democrática, deixará o poder para quem o povo americano assim o decidir. Não seria impensável que fizesse seu sucessor, ou sucessora, no Partido Democrata. Não seria seu demérito se os republicanos voltassem ao poder.
Obama é icônico para o povo preto americano. Ainda que pese tecnicamente não o ser, até no Brasil é assim considerado – o primeiro presidente preto dos EEUU. Deixa o poder, a meu ver, sem melhorias significativas a esse extrato do povo americano. Disso da mostra o número de pretos mortos por policiais brancos. Duas décadas antes, não era diferente.
Tampouco, outras esperanças depositadas na sua figura tornaram-se realidade. Deram-lhe um Prêmio Nobel por elas, mas Guantánamo, Iraque, Afeganistão e a crise econômica, assuntos de Bush, estão onde estavam, desde que eram assuntos do Bush. E a eles somou-se ISIS e o retorno do protagonismo “soviético”.
Pelo andar da diligência, independente de quem for, o sucessor de Obama deverá ser um branco. Obama não deixa herdeiros. Mas sem nenhum trauma ao modelo democrático do seu país. Vida que segue, diria o mestre.
Evo Morales – presidente da Bolívia. Ser esse presidente um índio é um fato histórico do Círculo Ártico ao Antártico.
Acompanho superficialmente a história da Bolívia, mas o suficiente para saber que um presidente ter lá completado um ano de mandato é um grande feito. Morales é presidente desde 2006. Há nove anos. Há planos de que fique até 2026.
Isso não é bom. Como Obama, Evo aparentemente não tem herdeiros. Mas, após Evo, que branco poderá ser aceito como presidente na Bolívia?
Evo caminha para uma ditadura personalista? Acompanho superficialmente a história da Bolívia.
No Brasil, vivemos a crise.
Os brancos querem voltar ao poder. Lula é seu antípoda, mais do que seu adversário. Coisas do Brasil, Lula não é preto, Lula não é índio e Lula não é branco.
Os brancos querem voltar ao poder, mas dependem do povo, para isso. Os brancos dependem do povo, mas o povo não é visto pela classe dominante como branco. A classe dominante é branca. Lula é o símbolo do poder popular. O povo não é branco e, agora, o povo tem Lula como um modelo alternativo de poder não-branco.
O povo deixou de ser confiável à burguesia. Daí o momento de crise.
Coisas do Brasil, a herdeira de Lula é Dilma. E Dilma é branca, sudestina e classe-média. Mas Dilma é rejeitada pela classe dominante. Qual o motivo da resistência?
É aquela coisa dos americanos de uma gota de sangue preto. No caso da neo-intolerância branca brasileira, é o caso de uma gota de sangue de Lula.
Ocorre que, da crise, estamos muito próximo da tragédia. Não é da herança de Lula que estamos tratando. É da herança do Brasil.
O Brasil, mantendo Dilma, caminha para a consolidação do seu processo democrático, condição necessária para evoluir para uma nação desenvolvida, mas sem garantias aos brancos. O Brasil restitui os brancos ao poder, através de um golpe, e se condena a ser um país periférico.
PS1: para a ilustração: Platonphoto
PS2: para entregas em domicílio, consulte a Oficina de Concertos Geais e Poesia.
AnnaDutra
27 de outubro de 2015 7:30 amHerança!
Herança!
Sergio,
subvertendo – esta não é a “minha praia”, admito – a ordem natural das coisas: em minha primeira leitura, caminhei neste teu post por minhas referências cinematográficas em detrimento das políticas.
É patente minha parca habilidade aí, logo nada se perderá. Não, também não sou expert em cinematografia – como de resto, em nada sou – mas nisto os erros não tem alcance nem causam danos, me deixando mais à vontade para opinar.
Há momentos em que é imperioso escolher e neste, especificamente, me falta apetite para uma manifestação mais racional.
Espero que você não se importe.
Te pedindo licença, sigo com tua distintiva estrutura:
PS1: Peckinpah !!! Sensacional!
PS2: Teus posts – absolutamente autorais em consonância com a direção de Sam – soam sempre como uma conversa numa mesa; não são palestras e isto é um plus. Ao ler o título na barra de rolagem soube que era teu. Isto é autoria, marca, estilo.
PS3: “O vento será tua herança” (Inherit the wind) – não é dele, mas rende um post bastante interessante também.
PS4: “Sob o domínio do medo” (com Hoffman) é meu preferido. Um post com esta referência facilmente nos remeteria a esta “contaminação”, verdadeira infecção dos dias que correm: violência exponencial, conflagração em espiral, limiares sempre difusos. Absolutamente premonitório quando se pretendia atual em 1970.
PS5: Na mesma “toada”, Os Brutos também Amam?
Talvez eu volte à política num outro comentário; neste momento me falta a capacidade – e vontade, confesso – para desenvolver em texto o que vai pelo cognitivo. A energia está nos sentidos.
Para não passar em brancas nuvens: não poderia haver um mote mais apropriado do que “Direito de Herança” a mobilizar os detratores de Lula e Dilma. Quanto incômodo! Preciso e cirúrgico.
Obrigada por mais esta peça irretocável.
Anna.
Virgínia Lobato
27 de outubro de 2015 9:43 amDilma é mulher
Ela é mulher. Isso é óbvio. O que não fica tão claro é o preconceito. Podem dizer que é pós conceito, que Dilma é atacada por seus gestos e ações, por seu estilo de administrar o país e principalmente por seus erros. Mas fica a dúvida. Um homem presidente, se tivesse tomado as mesmas decisões, havendo cometido os mesmos erros, seria atacado da mesma forma?
Lucinei
27 de outubro de 2015 1:00 pmDilma é “gerrilheira”.
Dilma é “gerrilheira”. Na raiz desse ódio todo estão preconceitos ideológicos estúpidos. É só pegar aleatoriamente qualquer, qualquer coluna de Reinaldo Azevedo, por exemplo, ou qualquer frase dessas que esses “líderes” das passeatas pronunciam. O aceerto de contas com o Diretório Acadêmico é evidente.
No caso de boçais como Bolsonaro e outros, então….
Até o mesmo José Serra: lançou livro há pouco tempo se deblaterando contra o “estatismo”…
Até sobre futebol! Aécio Neves em plena campanha eleitoral reagiu a um comentário (acertadíssimo) de Dilma sobre o caráter “exportador de matéria prima [jogador]” brasileiro como uma tentativa – sempre sinistra, é claro – do PT, do PT, do PT de criar uma nova estatal, a “futebras”, lembra?
Esse é o “nível” da oposição brasileira.
Lionel Rupaud
27 de outubro de 2015 10:55 amSobre a Bolivia, apesar de não conhecer a história do pais,
mas eu tive uma conversa meses atrás com um executivo boliviano, casado com a filha de amigos nossos. Ele, que na 1ª vitória eleitoral do Evo enxergou o fim do mundo, hoje reconhece nele um grande político que conseguiu manobrar as tensões sociais e culturais do pais, e terá um legado de longo prazo tal o Lula. Mas também, como no caso do Chaves, e em num menor grau o Lula, não cuidou ou não conseguiu achar um(a) sucessor(a) o que coloca em risco seu legado.
Como sou curioso por natureza, perguntei em quem tem votado: ele respondeu rindo “na 1ª vez contra Evo, na 2ª e vou continuar a favor do Evo, mas muitos dos seus eleitores da 1ª vez agora votam contra!”…
Jmello
27 de outubro de 2015 11:21 amMeu ódio será tua herança?, por Sérgio Saraiva
Escrever “preto” ao invés de negro foi descuido ou foi intencional?
Sergio Saraiva
27 de outubro de 2015 8:21 pmIntencional.
Barack Obama é considerado um homem preto, disso não me resta dúvida.
cleber
28 de outubro de 2015 7:10 amNos EUA é diferente daqui.
Nos EUA é diferente daqui. Lá se fala em “black” people. “Nigger” é uma ofensa racista, por isso ninguém usa o termo “niger” (negro) por lá.
jasantos
27 de outubro de 2015 11:36 amos três personagens
Acredito que a historia fará justiça aos três presidentes.
Obviamente que a direita não o fará. O que me irrita na direita é isso. É incapaz de reconhecer meritos aos que discordam dela.
Exemplo: estou estudando um pouco mais sobre Keynes. Sempre o achei um grande economista, uma pessoa de reconhecida inteligencia e cultura. Pesquisem o que os conservadores falam dele. Somente manipulação rasteira que não conferem com os fatos.
AnnaDutra
28 de outubro de 2015 9:18 pmNão vai dar…
Conforme te adiantei, me falta tesão para “análise”; by the way, quem precisa desta m…?
Obama é uma decepção. Um observador – de qualidade – engolido pela máquina, general de um exército conduzido pelo que há de mais nefasto… Devia ter recusado o Nobel pelo tanto de promessas quebradas e que já sabia somente promessas. Mas queria o(s) troféu(s) né ??!! Levou depois fez umas guerrinhas “programadas” por aí…
Evo, vou me abster. Posso né? Se nem você…
Lula, ah o cara! Poderia ter nos levado ainda mais longe. Não devia ter se afastado tanto. Me sinto um tanto abandonada. Sabe aquela admiração, aquela vontade de tudo sorver, de tudo aprender, de tudo ter às mãos de toda aquela “sapiência”? A ele tudo perdôo. Desde que volte, bem entendido!
Viu? Nada de análise de conjuntura nem desejos futuros (ok, unzinho!). Só opiniãozinha: meu Obama e meu Lula. Para não ferir suscetibilidades e me manter no meu lugar. Menina comportada, fina, é assim. Só faz o que é de “bom tom”. Tenho a impressão de que você não dá muita importância a isso Sergio, mas só eu e você não constituimos maioria…
Ops!! Será então que vamos ter que apagar este comentário?
E “the wild bunch” heim? Uma beleza. Uma peste bubônica da melhor qualidade. Coitada da Dilma.
PS1: Ódio não se lega. Só se alimenta.
PS2: Melhor encerrar por aqui. Obrigada pela contumaz tolerância.