4 de junho de 2026

Uma história de um amor ordinário, por Sérgio Saraiva

A poesia entrou na minha vida, eu não a sabia, quando ainda menino

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“Sabiá lá na gaiola fez um buraquinho, voou, voou, voou, voou. E a menina que gostava tanto do bichinho, chorou, chorou, chorou, chorou”.

Quanta tristeza.

Mas nosso vizinho tinha muitos passarinhos engaiolados e eu não ficava triste quando eles fugiam, ficava alegre. Havia qualquer coisa na forma como aquela cena comum era descrita que me emocionava. Eu não sabia que o sabiá sabia assobiar.

A poesia voltou na escola.

Nos versos de Tomás Antônio Gonzaga e seus shakespearianos versos para Marílias e Dirceus, I-Juca Pirama, Gonçalves Dias, se se morre de amor. Não, não se morre de amor. Morre se da tuberculose escarrada em nossas bocas pelas bocas que beijamos. Casimiro de Abreu contado por Augusto dos Anjos.

Segunda geração romântica – mal do século. Depois de ti, só Cazuza e Renato Russo.

Arcadistas, simbolistas e parnasianos.

 “Ora, direis, ouvir estrelas! Certo perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto, que, para ouvi-las, muitas vezes, desperto e abro as janelas, pálido de espanto”.

Que alívio em saber que minha insônia e essas vozes não são coisas de louco. Pelo menos, não de um só louco só.

Depois vieram Cecilia Meireles e Vinícius de Moraes. Como românticos, uns cantando a pátria, outros o amor. Em uma época da minha vida em que era sempre prudente ter à mão um ou dois sonetos de Vinícius. A oportunidade é uma deusa que se agarra pelos cabelos.

Hoje, quando passa por mim um carro gritando por seus mil alto-falantes algo como: “vem cachorra, rebolar na minha rola”, esboço um sorriso sarcástico e recito: “oh, minha amada, que olhos os teus. São cais noturnos cheios de adeus”. Funk proibidão é coisa de punheteiro com a cara cheia de cerveja. Para não ir sozinho para cama, um homem tem que ter feito a lição de casa e estudado Vinícius. Os da minha geração, por certo.

Ninguém será condenado por roubar beijos, amores ou versos, trata-se de furto famélico.

Mas Cecilia e Vinícius, Gonzaga e Bilac tinham uma coisa que os unia, seus versos me emocionam, mentia-os para minhas amadas, mas não eram os versos que eu faria.

Foi quando fui atropelado por dois caminhões: Pablo Neruda e Carlos Drummond de Andrade. Não que eu não soubesse dos tais versos brancos, era que, até então, não havia entendido seu significado: poemas feitos de todas as palavras, sobretudo os barbarismos universais, de todas as construções, sobretudo as sintaxes de exceção.

Sim, era isso que eu escreveria, se pudesse.

Então vieram Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto e Jorge de Lima.

Se o que eles faziam era fazer poesia, estava acima das minhas forças. Eu deveria estudar a língua portuguesa por mil anos e tornar-me um fingidor como Pessoa e ser culto e formal como um diplomata se quisesse Cabral. Jorge de Lima e seus sortilégios construídos em forma de versos são coisas para ocultistas. Para os iniciados no oculto das palavras.

Tornei-me inseguro e assustadiço. Desisti de cometer versos. Não ofenderia os deuses. Não me condenaria ao opróbio público.

Já ia pelo estudo das primeiras fórmulas de um livro de termodinâmica quando eles apareceram – os preceptores. Sim, eles existem, tanto quanto as musas existem. E as bruxas, também.

O primeiro que chegou se a mim era um senhor extremamente magro, de cabelos todos brancos e grandes óculos. Apresentou-se: Ferreira Gullar. E passou-me um longo poema escrito de um só fôlego, “O poema sujo”.

– Dá uma lida nisso, garoto.

O título já era um verso. Rima rica, rima heroica, na circunstância em que foi escrito.

Não podia acreditar:

– Isso é o “Canto Geral”!

– É e também não é. É, se esse sentimento for despertado em você. São dois homens diferentes cantando suas mesmas épocas e seus mesmos lugares. Disse-me ele.

– Mas suas palavras são tão simples, comuns. Suas imagens tão cotidianas. São belíssimas e eu não havia ainda percebido sua beleza, apesar de já tê-las visto no meu dia-a-dia tantas vezes. Teu lindo simples é simples e é lindo, mas não é fácil. Conclui.

– Pois é. O simples é simples e você ainda o quer fácil? Então, vou te apresentar outra pessoa.

E trouxe- me uma senhora que parecia se com a minha avó. Ela era branca, minha avó era índia, mas todas as avós se parecem. Chamava-se Cora Coralina, já um verso aliterado no nome. Falou-me dos becos de Goiás e de outras histórias mais.

– Seus versos são saborosos, parecem ter sido feitos na cozinha, em fogão de lenha. Disse-lhe.

– Por que o espanto, menino? Poesia é para quem sabe cozinhar, para quem tem mão para o tempero e para o ponto dos versos, sem deixar desandá-lo.

Claro, por quantas vezes o caldo do feijão não teve, em minha boca, o gosto de poção? Como não havia pensado nisso? Em tal feitiço?

– O que você sabe de forno e fogão?

– Sei o trivial simples, frito um ovo sem me queimar… na maioria das vezes. Respondi.

– Já é o suficiente, para começar. O demais, você aprende fazendo e prestando atenção no que os outros fazem. Incentivou-me, como uma avó não deixaria de fazer.

– Mas, para você não achar que cozinha e coisa de mulher, vou te apresentar um gaúcho da simplicidade dos churrascos de fogo de chão.

E assim, conheci Mario Quintana. Li suas reticências e ele me contaminou com essa mania de dar nome aos poemas. Seus poemas curtos, de meia dúzia de versos. Construídos como alguém, que vendo uma folha voando ao vento, pelas ruas de Porto Alegre, decidisse descreve o efêmero balé da folha e do ar. Um inusitado pas de deux contemplado por olhos distraídos.

Ensinou-me da mesma forma econômica:

– Quem faz um poema abre uma janela. Por ela, teus versos passarão, se tu passarinho.

Estava eu pensando se o homem usara uma conjunção condicional ou o verbo ser na segunda pessoa do imperativo afirmativo, quando um senhor com ar de diretor de colégio público cortou meus pensamentos:

– Não racionalize, jovem, apenas sinta a frase como uma oração. Manuel Bandeira, ao seu dispor.

– O senhor usou de duplo sentido?

– Não resisti ao trocadilho, riu o mestre.

– Meu jovem, existe o pensar e o sentir. E existe o guardar consigo e o dizê-lo aos outros. A decisão de fazer um ou outro vai da tua ânsia ao teu egoísmo. Para dizer o que você pensa, há a prosa e suas orações principais, coordenadas e as suas subordinadas, como em um organograma. Para dizer o que se sente, há a poesia e sua anarquia. Para essa:

– apenas faça versos como quem morre.

 

Para entregas em domicílio, consulte a Oficina de Concertos Gerais e Poesia.

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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5 Comentários
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  1. Anna Dutra

    7 de outubro de 2015 6:19 pm

    as lágrimas do adeus

    Quem as pode impedir de verter?  De inundar a alma?  Elas cabem em versos?

    Belo.

    1. Anna Dutra

      9 de outubro de 2015 8:08 pm

      Dores de Amores

      [video:https://youtu.be/tSyYU4Wu2uw%5D

      [video:https://youtu.be/le7UnUaxv90%5D

      1. Anna Dutra

        9 de outubro de 2015 8:19 pm

        Mentindo para as amadas

        [video:https://youtu.be/B5mfDm0KrNc%5D

  2. mcn

    8 de outubro de 2015 12:10 pm

    Estrela da Vida Inteira: Manuel Bandeira e Olivia Hime

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=UfplVBh8As%5D

    Estrela da Vida Inteira

    Manuel Bandeira e Olivia Hime (1987)

    Estrela da vida inteira.
    Da vida que poderia
    Ter sido e não foi.
    Poesia
    Minha vida verdadeira

  3. Odonir Oliveira

    8 de outubro de 2015 2:24 pm

    Belíssimo texto

    De uma síntese invejável.

     

    Teresa

    A primeira vez que vi Teresa 
    Achei que ela tinha pernas estúpidas
    Achei também que a cara parecia uma perna

    Quando vi Teresa de novo
    Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
    (Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)

    Da terceira vez não vi mais nada
    Os céus se misturaram com a terra
    E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

    Manuel Bandeira BANDEIRA, M., Libertinagem, 1930.

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