6 de junho de 2026

13 de maio – adorei as almas!, por Mariana Nassif

"E num é, fia, que tá cheio de gente de carne e osso que ninguém nem vê?" - é isso, tia maria, é bem isso.

13 de maio – adorei as almas!, por Mariana Nassif

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Uma das figuras mais importantes na formação de quem eu sou é um preto-velho. Não, assim, não: ele é o Pai Joaquim, que vinha trabalhar com minha tia. Lembro com absoluta clareza meu primeiro encontro com ele. Tremia daquelas tremedeiras de corpo todo, incontroláveis, completamente absorta por tudo aquilo que acontecia entre estar ali alguém que eu conheço como a palma da minha mão e alguém diferente, vindo de um outro lugar, apesar do corpo e cara serem da tia. Não era ela: era o invisível.

Pra completar o pavor perante o desconhecido ele me chamou dali de trás de um montinho de pessoas onde estava escondida, evidente, pra sentar do seu lado e anotar o que pediria pras pessoas em atendimento. Logo de primeira, uma cambona. Hoje tenho mais coragem e é bem provável que estivesse na primeira fila levantando a mãozinha “eu, eu, eu, me escolhe” mas, naquela noite, entendi foi nada. Anotei uma coisa ou outra, chacoalhando disfarçada, estranhamento registrado sem pudor. Fiquei feliz quando minha tia estava de volta, sã e salva, mas mais feliz ainda porque, ah, certeza, aquilo ali era magia e agora, quase sem dúvida e mesmo assustada, eu sabia que existia.

Dali pra cá muito, muito, muito tempo mesmo passou. Corri terreiro, como dizem, na umbanda e conheci um povo incrível, outros nem tanto: os visíveis e os invisíveis, no fim não entendo tanto estranhamento já que é quase tudo igual, no fim das contas a gente precisa confiar e saber o que tem que fazer, só isso. Sorrio, como se isso fosse só. Sei que esse saber não é meu, vem de um presente negro ancestral que honro com alegria e respeito, celebrando, batalhando e normalizando uma cultura que é pura base pra desenvolvimento: quem já sentou na frente de uma vovó sabe bem do que estou falando. “E num é, fia, que tá cheio de gente de carne e osso que ninguém nem vê?” – é isso, tia Maria, é bem isso.

13 de maio é nada senão o dia dos pretos-velhos, pelo não esquecimento e transformação do que vem por aí.
Adorei as almas.

Mariana A. Nassif

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