10 de junho de 2026

Flatos de fala, por Sr. Semana

Ao falar coisas como “caguei para a CPI”, não é somente sobre os membros da comissão que “caga”.

Flatos de fala

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por Sr. Semana

Os filósofos John Austin e John Searle mostraram que a linguagem não é usada apenas para descrever fatos e expressar sentimentos e opiniões, serve também para gerar eventos no mundo. Com a teoria dos atos de fala, chamaram atenção para esta importante função da linguagem. Por exemplo, em uma cerimônia católica de matrimônio, quando o padre fala “eu vos declaro marido e mulher” produz uma mudança radical na vida das duas pessoas concernidas que neste ato de fala deixam a condição de solteiras e adquirem a de casadas. Quando alguém por má fé, simulando desespero em um ambiente fechado lotado de pessoas grita “FOGO!”, pode produzir pânico, causando um tumulto potencialmente mortal. Tal fala não pode ser justificada como liberdade de expressão. Não é um uso descritivo ou expressivo da linguagem. É um ato no mínimo culposo passível de sanção penal.

Causa assim estranheza que um ministro do STF, recentemente vítima da flatulência verbal presidencial, tenha afirmado em entrevista ao grupo Prerrogativas que as falas presidenciais contra as instituições não constituem crime por causa da liberdade de expressão. É evidente que um presidente da república é provido de uma autoridade que faz com que suas falas tenham ampla audiência e alta força perlocucionária. São altamente capazes de gerar sentimentos diversos: depressão nos que lhe rejeitam e ódio nos seus seguidores, podendo inclusive motivar ações violentas dos mais radicais.

Ao falar coisas como “caguei para a CPI”, não é somente sobre os membros da comissão que “caga”.

O Brasil dos últimos anos tem se tornado negativamente famoso graças às ações e falas do seu presidente, que também inova na filosofia da linguagem ordinária, inaugurando um novo tipo de ato de fala: o flato de fala.

Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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  1. TADEU SILVA

    12 de julho de 2021 1:27 pm

    Pois é, acostumado ao uso perlocucionário ( sabendo agora que é aquele que “produz efeito sobre o ouvinte, como o de persuadir, amedrontar, surpreender ou fazer agir) da fala como provocadora de gargalhadas, estupefato, coisas assim do olho da rua, me sinto, como cidadão contribuinte, no “olho do …”, sem julgamento de valor ou axiomático.

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