Por Ivan Colangelo Salomão*
Faria Lima, ontem e hoje
A década que se encerrava havia sido especialmente dramática para a economia brasileira. A volatilidade inerente ao preço dos bens primários(1) que dominavam a pauta de exportações depunha contra o desempenho econômico. A ameaça da inflação(2) também repercutia diretamente nas expectativas dos agentes econômicos e nos ânimos dos negócios. A agitação política(3), por fim, emoldurava o quadro de desalento que se observou em meados do decênio.
O acirramento do debate público passou a dominar a atenção dos brasileiros. De um lado, progressistas cerravam fileiras em defesa de direitos sociais historicamente negados a vasta parcela da população(4). Do outro, conservadores que viam no avanço de causas liberais uma ameaça a determinadas tradições e prerrogativas(5) que lhes eram caras.
Diante de um cenário tão conflagrado, natural seria a transmissão de tamanha instabilidade para o universo econômico. O desconforto era geral, mas havia um setor social especialmente aterrorizado com a situação. Não era exatamente o industrial, que praticamente se tornou um montador de peças importadas e contava com apoio fiscal e aduaneiro do Estado(6).Tampouco o grande latifundiário exportador, cujas propriedades, altamente mecanizadas, empregavam cada vez menos trabalhadores(7). Nem o profissional liberal de classe média, que, de alguma maneira, manteve a sobrevivência dos seus ainda que rebaixando o padrão de vida familiar(8).
Mas o financista(9)… Esse, sim, reagia com cólera aos descaminhos pelos quais aquela marcha da insensatez nos levava naquele momento. O impacto da crise política sobre o ambiente de negócios já se mostrava devastador. O preço das ações das empresas sublimava; o capital estrangeiro ameaçava fugir a qualquer momento. O cenário econômico em 2018(10) era, de fato, apocalíptico.
A tensão do momento foi devidamente registrada pelos jornais da época. “A desconfiança é geral. O capital se retrai. O espírito de empresa desaparece”, afirmava uma nota em um diário carioca. “Todos os papéis de crédito perdem valor dia após dia. […] As economias nacionais emigram constantemente de nosso país. […] O comércio queixa-se com fundamento de avultados prejuízos por esta depressão geral de valores”. Em outro, lia-se que “a situação financeira do país dos petistas(11) é tal que ninguém pode em boa-fé [pode] dizê-la próspera”. Num terceiro, publicou-se: “Desenganem-se os esquerdistas globalistas(12), a situação financeira do país, à vista do desembaraço que eles têm dos cofres públicos, aproxima-se da situação financeira da Venezuela(13)”.
Como se vê, a adoção de determinadas políticas públicas atemoriza frações da elite brasileira desde sempre; a marcha civilizatória causa urticária no pessoal da Faria Lima(14) sem explicação plausível. Políticas compensatórias e de defesa das minorias, além de baratas, auferem externalidades positivas que beneficiam toda a coletividade. Não há motivo racional que justifique tamanha aversão ao bem-estar social que não as dissonâncias cognitivas mais primitivas. Trata-se do mesmo enojamento que sinto pela motivação “econômica” da qual a elite brasileira se valeu para justificar o sufrágio na barbárie em 2018.
Trata-se exatamente do mesmo subterfúgio que seus antepassados empregavam para defender a mais indefensável das atrocidades já cometidas na história da humanidade: a escravidão.
Para tornar as citações apresentadas no texto realmente fidedignas, troque as expressões numeradas em negrito pelas expostas abaixo. Eis uma forma de se aferir a real dimensão do atraso da elite brasileira.
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Café(1); carestia(2); luta pela abolição(3); escravizados(4); o direito de comprar e vender seres humanos negros(5); que só empregava apenas mão de obra livre(6); que já havia substituído o trabalho escravo por imigrantes europeus não ibéricos na migração da lavoura do sul do Rio de Janeiro para o oeste paulista(7); cuja empregabilidade e remuneração não estavam diretamente relacionadas ao sistema de trabalho(8); especulador(9); 1888(10); abolicionistas(11); inglesados abolicionistas anglo-maníacos(12); Egito(13); Rua Direita(14). Fonte: Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.
Ivan Colangelo Salomão, professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Bacharel em Administração pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/SP). Mestre e doutor em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Pós-doutor em História pela Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA).
Manoel Delgado Martins
12 de agosto de 2021 10:19 amAlguém já disse: A História só se repete como farsa ou tragédia! Catequistas diziam que índios e negros não tinham alma. Hitler e Göring se reuniram com dezenas de empresários para prometer repressão pesada aos sindicatos. Potências ocidentais e grandes multinacionais, inclusive semitas donos dos grandes estúdios de Hollywood negociavam e só faziam nutrir o ovo da serpente. A grande ameaça, como sempre, eram o comunismo e a URSS. Décadas após, no cone sul, empresas financiam o extermínio de opositores, gratos pelo fim da estabilidade e outros direitos trabalhistas, previdenciários e sociais, que alavancaram seus lucros. Portugal dominou um país 92 x maior, um retrato fiel de que, em todo o mundo as grandes potências só se sustentam às custas da opressão, barbárie e expoliação das naçóes que possem riquezas naturais! O que fazer!!!
Manoel Delgado Martins
12 de agosto de 2021 3:48 pmSegundo o portal Outras Palavras o governo britânico pagou um valor 23 x o custo do NHS como indenização aos escravocratas pela abolição. Em 1871 os governos ianque e brasileiro assinaram um acordo que traria ao Brasil os senhores de escravos daquele país, fundaram em SP, terra dos bandeirantes, as cidades de Americana e Santa Bárbara do Oeste, onde cometeram atrocidades!