4 de junho de 2026

Dilma Rousseff e os filhos de Bruto alimentados por Lula

A política é uma sucessão de acertos e de erros. Mas os acertos cometidos hoje podem se transformar em erros amanhã, assim como alguns erros praticados no passado as vezes se transformam em acertos no futuro.

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Ao divulgar sua Carta aos Brasileiros http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u33908.shtml, Lula abandonou a retórica revolucionária e incorporou o personagem “Lulinha paz e amor”, que despertou intensa discussão entre os especialistas em política. A melhor avaliação dele foi feita por Victor Bulmer-Thomas:

“…Para Victor Bulmer-Thomas, diretor do Royal Institute of Foreign Affairs, em Londres, o verdadeiro Lula é mesmo “paz e amor”.

“Eu não acredito que alguém possa atravessar uma campanha tão longa fingindo ser algo que não é. Meu medo, por sinal, é que aconteça exatamente o oposto e que Lula se curve desde o primeiro dia às pressões para acalmar o mercado”, afirmou Bulmer-Thomas.” http://noticias.uol.com.br/bbc/eleicoes/2002/10/28/ult1090u107.jhtm

Um dos primeiros atos de Lula como presidente pode ter sido salvar a Rede Globo http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u43340.shtml . Fato, que, aliás, ao clá Marinho nega ter ocorrido http://memoriaglobo.globo.com/acusacoes-falsas/bndes-e-renegociacao-da-divida.htm e que continua sendo objeto de intenso debate parlamentar http://www.robertorequiao.com.br/requerimento-ao-bndes-sobre-emprestimos-da-rede-globo/.

Supondo que esta operação financeira tenha ocorrido, Lula deve ter considerado que sua ação foi um acerto. O empréstimo do BNDES à Rede Globo impediu a falência de uma grande empresa (salvando milhares de empregos) e poderia apaziguar os ânimos de inimigos poderosos e perigosos. O clã Marinho havia derrubado Fernando Collor e impedido a vitória do próprio Lula em 1989 editando com propósitos eleitoreiros o debate entre os presidenciáveis.

O erro de Lula ficou claro quando a Rede Globo ajudou a inventar e a amplificar o “escândalo marca Mensalão” para desmoralizar o PT, destruir vários petistas e impedir a reeleição do presidente. O escândalo não surtiu efeito desejado pela imprensa em razão do sucesso econômico do governo Lula. Com a reeleição do petista, o Mensalão ficou em banho-maria durante todo o segundo mandato de Lula até ser intensamente requentado durante as eleições de 2010. Para desespero geral dos donos do poder, Dilma Rousseff  foi eleita presidenta e o Mensalão naufragou em algumas condenações sem cumprir sua missão política. E então um novo mega escândalo começou a ser assoprado pela imprensa (o Petrolão, conduzido pelo Juiz Sérgio Moro).

Se tivesse deixado a Rede Globo falir em 2002, Lula seria imediatamente excomungado pela imprensa como se fosse um ogro. E seguiria sendo intensamente odiado pelos amigos e empregados do clã Marinho. Mas ele teria criado um novo paradigma. O presidente do Brasil deixaria de ser cortejado, atacado e chantegeado pelos barões da mídia e passaria a ser temido pela imprensa. A crise criada pela falência da Rede Globo seria, com o tempo, vista como uma oportunidade pelos concorrentes do clã Marinho e em uma década a imprensa teria se reestruturado e passaria a se relacionar de maneira diferente com o poder Executivo.

Durante seus dois mandatos, Lula foi extremamente generoso com as empresas de comunicação e não se esforçou muito para regular a mídia. Não confrontar os interesses econômicos e o poder político dos barões da mídia pode ter sido um acerto temporário no passado. Mas isto também se mostrou um imenso erro na atualidade. Sob intensa oposição da imprensa e pressionada por um contexto econômico desfavorável Dilma Rousseff se tornou tão impopular quanto Fernando Collor.

À medida que o PT perde a iniciativa e/ou a predominância no “campo político”, as sedes do PT vão sendo acintosamente atacadas pelos fascistas que perceberam a fragilidade estrutural do governo petista. Com quase todas as empresas de comunicação comprometidas com o neoliberalismo tucano e sem uma grande empresa de comunicação pública para defender os interesses nacionais, os eternos “amigos dos EUA” no Brasil já cogitam privatizar a Petrobras e modificar o regime de partilha do pré-sal.  

Quando os acertos se tornam erros, a estratégia tem que ser revista. Mas para fazer isto é preciso recorrer à autoridade dos clássicos: 

“A última chance de Florença de assegurar suas liberdades surgiu em 1494, quando os Médici foram novamente exilados e a república foi plenamente restaurada. Nesse momento, porém, os novos líderes da cidade, sob a direção de Piero Soderini, cometeram o erro mais fatal de todos ao deixar de adotar uma política que, segundo Maquiavel, é absolutamente indispensável sempre que ocorre uma mudança de regime. Qualquer um que ‘lê a história antiga’ sabe que, dado  o  passo ‘da tirania para a república’, é essencial matar ‘os filhos de Bruto’. Mas Soderini ‘acreditava que, com paciência e bondade, conseguiria vencer o desejo dos filhos de Bruto* de voltar sob outro governo’, pois julgava que ‘poderia extinguir as facções má’ sem derramar sangue e ‘eliminar a hostilidade de alguns homens’ com recompensas. O resultado dessa espantosa ingenuidade foi que os filhos de Bruto – isto é, os partidários dos Médici -, sobrevivendo, destruíram Soderini e restauraram a tirania dos Médici após o fiasco de 1512.” (Maquiavel, Quentin Skinner, L&PM Pocket, vol. 896, Porto Alegre, 2010, p. 98/99).

Victor Bulmer-Thomas, do Royal Institute of Foreign Affairs disse que “o verdadeiro Lula é mesmo ‘paz e amor’ “. Ele também poderia ter dito que o pacifismo e a amabilidade do líder petista – que são virtudes num homem comum e defeitos terríveis num estadista – poderiam ser como de fato foram utilizadas contra o próprio Lula. Dilma Rousseff não é Lula e já provou que não é apenas um poste dele. Neste exato momento nossa presidenta também está sendo convocada a matar os filhos de Bruto. Se Dilma não fizer o que for necessário, a Petrobras e o Pré-Sal serão perdidos para sempre e ela mesma poderá acabar como Piero Soderini. O fim da “república florentina” erigida nos trópicos pelo PT ainda não ocorreu. Mas para salvá-la a presidência terá que deixar de ser exercitada com “paz e amor” à moda inventada por Lula.

 

 

*filhos de Bruto: Júnio Bruto foi o principal arquiteto da destruição da tirania de Tarquínio o Soberbo em 496 aC se transformando num dos pais fundadores da República de Roma.  Os filhos de Bruto haviam participado da tirania e dela se beneficiado, razão pela qual eles foram executados com a aquiescência e a presença de Júnio Bruto.

 

 

 

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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