O ex-senador Aloysio Nunes (PSDB) disse em entrevista ao jornalista Luis Nassif, do GGN, que a aproximação de Lula com o ex-governador Geraldo Alckmin é “positiva” e ajuda a reparar a mentira de que Lula seria um “radical”.
Na visão do tucano, após confirmar Alckmin como vice, Lula deveria reeditar a famosa “carta aos brasileiros”, apresentando para 2022 um programa amplo, agregador de forças, capaz de mostrar à sociedade como será o governo a partir de 2023.
Alckmin assinou nesta quarta (23) a ficha de filiação ao PSB e é o vice escolhido por Lula em sua tentativa de sacar Jair Bolsonaro (PL) da presidência em outubro de 2022. Alckmin exaltou a candidatura de Lula e disse que o petista é hoje o candidato que melhor simboliza “a esperança do povo” por progresso no País.
“O Geraldo é um político conservador em muitos aspectos, mas é um democrata”, disse Aloysio ao GGN. “Nunca, nunca piscou para a ditadura. Começou vereador no MDB e sempre foi um sujeito muito comprometido com a democracia, com sensibilidade para as questões sociais. Espero que se concretize, que ele seja o vice.”
“Mas não basta ter uma aliança eleitoral. Alckmin ajuda, elimina resistências. Alckmin tem bom nome. É um desmentido dessa estupidez de que Lula é um radical. Lula é um socialdemocrata de esquerda, que fez um governo amplo. Agora é preciso ter um programa amplo. Isso é importante para que vários setores – por exemplo, o agronegócio, que é uma grande força econômica e política em alguns estados – conheçam os compromissos e possam já delinear o que seria seu governo”, sugeriu.
A entrevista com Aloysio Nunes foi realizada em 15 de março. Confira os principais trechos abaixo:
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Como você vê o arco de alianças para a eleição de 2022? Há condições de se consolidar um pacto entre PT e os quadros democráticos do PSDB?
Aloysio Nunes: Eu vejo isso como necessidade para todos os democratas, para isolar a extrema-direita bolsonarista que estava subterrânea e, de repente, eclodiu e é hoje uma força política.
Bolsonaro é uma figura que sabe falar com o povo, sabe conquistar uma camada ampla da população, seja com pauta de costumes, apelos religiosos, ‘patriotices’ ou uma visão conservadora de mundo, além da visão contra as elites. Ele tem linguagem capaz de mobilizar e é notável que, apesar do desastre que é o governo dele, ainda tenha um nível bastante alto de aprovação e de votos também.
Bolsonaro tem condições de ir ao segundo turno, mas acho que perde. Mas sai com um capital político de 35% a 40% dos votos, um capital importante, capaz de dar a ele força para infernizar a vida brasileira por muito tempo.
Então é uma necessidade que me parece evidente: isolar essa doença da democracia brasileira, que é um tumor que foi se esparramando e arrastando para sua órbita uma direita moderada e liberal.
A que você atribui o descasamento entre os partidos tradicionais, como o PSDB, e a opinião pública?
Aloysio Nunes: Os partidos tradicionais não foram desconectados: a extrema-direita chamou o eleitorado para eles. O Bolsonaro fez um ‘rapa’ no eleitorado desses partidos.
A falta de conexão com o povo vem de vícios do nosso sistema de representação política. (…) As emendas impositivas – e eu fui contra – foi instrumento para isso. A fortuna do fundo partidário também. A ideia das emendas de relator – origem do escândalo dos Anões do Orçamento – também. A representação parlamentar se tornou autônoma em relação aos próprios partidos, que acham que não é mais importante conquistar opinião pública, mas eleger bancadas.
Porque elegendo bancadas, tem fundo partidário e instrumentos para depois participar do governo, qualquer que seja. É uma degeneração da democracia brasileira que não vai ser muito fácil de reverter.
Olhando retrospectivamente, para aonde o PSDB poderia ter caminhado?
Aloysio Nunes: O PT também… o PT atuou muito no sentido de desligitimar o PSDB. No fundo, são dois partidos da socialdemocracia nascidos em São Paulo.
(…) Eu não aguento ficar chorando no leite derramado. Eu vejo um movimento extremamente positivo da parte do Lula, que foi o convite para somar com o Geraldo Alckmin. É uma coisa positiva. O Geraldo Alckmin é um político conservador em muitos aspectos, mas é um democrata. O Geraldo nunca, nunca piscou para a ditadura. Começa vereador no MDB e sempre foi um sujeito muito comprometido com a democracia, com sensibilidade para as questões sociais. Espero que se concretize, que ele seja o vice [de Lula].
Lula diz publicamente que [Alckmin como vice] é um sinal de como ele quer que as coisas sejam conduzidas se ele for eleito. Eu acho muito positivo. Mas isso é o primeiro passo. Não basta ter uma aliança eleitoral. Alckmin ajuda, elimina resistências; o Alckmin é São Paulo, tem um bom nome. É um desmentido dessa estupidez de que Lula é um radical. Lula não é radical, não é um revolucionário. Lula é um socialdemocrata de esquerda, que fez um governo amplo. Agora é preciso ter um programa que seja amplo.
Lula fez isso na primeira eleição, com a Carta aos Brasileiros. Era um esboço de um programa, alguns compromissos que foram assumidos. Isso é importante para que vários setores – por exemplo, o agronegócio, que é uma grande força econômica e política em alguns estados – conheçam os compromissos e possam já delinear o que seria seu governo.
O que vai ser o Lula? Será aquele bom presidente ou virá com revanchismo? Ele já disse que não, mas é bom que isso esteja consubstanciado num programa envolvendo as forças políticas que puderem e tiverem condições de serem envolvidas.
Você diz também compartilhar a gestão?
Aloysio Nunes: Sem dúvida nenhuma. Com base em um programa, é claro, se não vai ter que cooptação de partidos e a gente já sabe como termina isso.
Como fica o PSBD atual nesse pacto? É possível reconstruir o PSDB de Mário Covas para uma aliança?
Aloysio Nunes: Acho muito difícil. Veja o comportamento da bancada de deputados federais do PSDB – com exceção honrosa dos deputados de São Paulo – eles votam nas pautas de Bolsonaro! Voto impresso, esse projeto ridículo de criminalizar o uso da palavra Bíblia fora do contexto religios; o PL das terras indígenas…
O PSDB encaminhou demais para a direita e os deputados, alguns levados pelas circunstâncias de seus estados – pois deputado quer ser reeleito – nos estados onde o bolsonarismo é forte, o deputado vai para o Bolsonaro sem pensar se o partido quer isso ou aquilo.
No PSDB não temos uma perspectiva muito risonha. O que o PSDB procura fazer é uma federação envolvendo o MDB e União Brasil; está empenhado em fazer uma coligação e ter um candidato. Se conseguir, acho que terá um aglomerado político em condições de ser interlocutor na formulação e implementação de um programa de governo que possa responder à exigência eleitoral, que é a derrota do Bolsonaro.
Seguramente o PDT poderia entrar nisso, superando os problemas do Ciro com o resto do mundo. O Moro não, o Moro é o bolsonarismo grão fino. O partido do Kassab [PSD] também pode ser um importante interlocutor, pensando sempre na derrota do Bolsonaro.
Estou pensando na derrota do Bolsonaro com a direita e a esquerda, em torno de tudo que já fizemos juntos desde a Constituição de 1988. Olha quanta coisa positiva já foi feita pelo Brasil: SUS, programas de transferência de renda, reforma agrária, política externa que manteve os mesmos parâmetros, direitos humanos, meio ambiente. Tem que resgatar isso e por no papel como um programa de governo.
(…) Uma eventual reeleição de Bolsonaro será situação de altíssimo risco, fora a continuidade da degradação das políticas públicas.
Boris Boridou
24 de março de 2022 2:35 pmOs “democratas” que rasgaram 54 milhões de votos e derrubaram Dilma Rousseff