21 de maio de 2026

Turismo vermelho na China: entre revolução, cotidiano e imaginação de futuro, por Iara Vidal

Viagens por Wuhan e Shanghai revelam como a China transforma turismo em experiência cultural, política e cotidiana

Turismo vermelho na China integra memória revolucionária e cotidiano em Wuhan e Shanghai, revelando cultura e política locais.
Wuhan destaca-se como marco histórico da Revolução de Xinhai e da estratégia revolucionária chinesa em espaços públicos e museus.
China registrou 6,5 bilhões de viagens domésticas em 2025; turismo é parte do plano de desenvolvimento e identidade nacional.

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Turismo vermelho na China: entre revolução, cotidiano e imaginação de futuro

por Iara Vidal

Entre museus lotados, trens de alta velocidade, parques públicos e memória revolucionária, viagens por Wuhan e Shanghai revelam como a China transforma turismo em experiência cultural, política e cotidiana

“Viajar é uma das poucas coisas da vida em que a gente gasta dinheiro para voltar mais rico.” Não sei se a frase é da minha mãe ou se fui eu quem inventou que era dela. Sei apenas que ela faz cada vez mais sentido para mim.

Há seis meses morando em Beijing, fiz até agora duas viagens de lazer pela China: Wuhan e Shanghai. E voltei de cada uma delas mais rica em conhecimento, sensações e entendimento sobre este país tão complexo quanto fascinante.

Além de visitar lugares, eu gosto de compreender como esse país que me acolheu se transformou na potência que é hoje. Por isso, minhas viagens acabam passando pelo chamado “turismo vermelho”. E, até onde consegui perceber, esse tipo de experiência é muito mais vivo do que normalmente imaginamos no Brasil.

Não se trata apenas de visitar monumentos revolucionários ou posar ao lado de estátuas de Mao Zedong. Na China, o turismo vermelho mistura memória histórica, educação política, pertencimento nacional e experiência cultural cotidiana.

A memória da Revolução de Nova Democracia, que culminou na vitória comunista da Guerra de Libertação e na fundação da República Popular da China, aparece integrada à vida comum: nos parques, nos museus lotados, nos estudantes em excursão, nos idosos dançando em praças públicas e nas famílias circulando por espaços que ajudam a contar a história da China contemporânea.

Encruzilhada e coração da China

Minha primeira viagem desde que me mudei para Beijing foi para Wuhan, cidade atravessada por rios, pontes, revoluções e deslocamentos. Ali, a história parece circular junto com os barcos, os trens, os estudantes e os trabalhadores cruzando suas quase 700 pontes.

Durante a viagem uma frase perfeita: “Se você quer entender as pontes da China, vá a Wuhan”.

Ao caminhar pela cidade, comecei a chamá-la mentalmente de “Recife milenar”. Talvez meu lado filha de pernambucano falando alto. Existe em Wuhan essa mesma sensação de cidade moldada pela água, pelas travessias e por um orgulho urbano que não tenta se esconder.

Mas o mais interessante é que a memória revolucionária convive naturalmente com cerejeiras floridas, cafés universitários, barcos turísticos, restaurantes especializados em lagostim, idosos ocupando parques públicos.

Wuhan ocupa um lugar decisivo na história chinesa. Foi ali, em Wuchang, que começou a Revolução de Xinhai, em 1911, derrubando o último império e abrindo caminho para a China moderna.

Na minha agenda de turismo vermelho, passei pela casa da viúva de Sun Zhongshan, considerado o pai da China moderna, e, junto dela, pela memória das irmãs Song — talvez uma das famílias mais simbólicas do século XX chinês.

Song Qingling aproximou-se mais tarde do Partido Comunista da China (PCCh). Song Meiling casou-se com Chiang Kai-shek, líder do Kuomintang (KMT), tornando-se primeira-dama da China nacionalista. Já Song Ailing, ao se casar com o banqueiro H. H. Kung, aproximou poder político e financeiro. Três irmãs, três trajetórias e três projetos possíveis para a China.

Outra parada importante foi a Casa de Mao, aberta à visitação. O espaço impressiona justamente pela simplicidade. Ali aparece um Mao ainda em formação, tentando compreender o país que desejava transformar.

Wuhan, o coração da circulação chinesa

Visitei também o Memorial do 5º Congresso Nacional do PCCh, realizado em Wuhan entre 27 de abril e 9 de maio de 1927, em um dos momentos mais turbulentos da história revolucionária chinesa. Poucos dias antes da abertura do congresso, em 12 de abril, o Massacre de Shanghai havia abalado a possibilidade de uma frente unificada entre nacionalistas e comunistas e inaugurado um ciclo de perseguições, expurgos e repressão política que marcaria os rumos da Revolução Chinesa.

É nesse contexto que Wuhan reaparece como ponto de inflexão. Ali, a estratégia revolucionária centrada nas cidades entra em crise e a revolução é forçada a buscar outro caminho — aquele que mais tarde desembocaria na Longa Marcha e na reorganização do movimento revolucionário no campo.

No Museu Revolucionário de Wuhan, visitei uma exposição dedicada justamente aos 90 anos da vitória da Longa Marcha. O que mais me chamou atenção foi a linguagem escolhida: a história era contada por meio de lianhuanhua, tradicionais narrativas ilustradas chinesas, uma espécie de antepassado popular das histórias em quadrinhos.

Havia algo muito revelador ali. A Longa Marcha não aparecia apenas como epopeia distante, mas como memória visual e pedagógica, acessível a crianças, estudantes, idosos e turistas comuns.

Talvez por isso eu tenha me sentido tão atravessada por Wuhan. Quem me conhece sabe que tenho uma coleção de colares de coração e um carinho especial por esse símbolo — movimento, afeto, pulsação. Wuhan, de alguma forma, parecia pulsar exatamente nessa frequência.

Shanghai e a memória em movimento

A Shanghai eu fui depois — e de outra maneira. Já era minha segunda vez na cidade, que visitei pela primeira vez em 2022. Se Wuhan pulsa como coração logístico e histórico da China, Shanghai parece operar como vitrine do encontro entre memória revolucionária, modernidade e circulação global.

Meu “turismo vermelho” ali começou no local de fundação do PCCh e no museu do 1º Congresso Nacional. O que mais me chamou atenção não foi apenas a tecnologia dos espaços, mas a quantidade de pessoas comuns ocupando aquele lugar em pleno feriado do Dia Internacional do Trabalhador e da Trabalhadora.

A sensação reapareceu no Fuxing Park, na antiga Concessão Francesa. Em meio a aposentados praticando exercícios, crianças correndo e turistas fazendo fotos, a estátua de Karl Marx e Friedrich Engels parecia integrada ao fluxo normal da cidade.

Entre trens de alta velocidade, memoriais revolucionários, parques públicos e um show amazônico de Manoel Cordeiro — parte da programação do Brazilian Day, integrado à agenda do Ano Cultural Brasil-China — fazendo chineses dançarem em Shanghai, fui percebendo que talvez a China contemporânea seja justamente isso: um enorme espaço de circulação entre memória, modernidade, política, consumo cultural e imaginação de futuro.

Turismo de brasileiros na China

Essa percepção não é apenas minha. O historiador brasileiro radicado em Moscou Rodrigo Ianhez, fundador da agência Estrela Vermelha, especializada em turismo político e cultural, acompanha de perto a maneira como os brasileiros têm redescoberto a China.

Segundo ele, muitos viajantes ainda desembarcam no país carregando imagens antigas associadas à pobreza, desorganização e caos urbano. Mas o impacto da experiência concreta costuma desmontar rapidamente esses estereótipos. “O contraste entre a realidade e essa imagem pré-concebida é tão grande que o sentimento generalizado é de maravilhamento”, afirma.

Para Rodrigo, uma das diferenças mais marcantes da China em relação a outros países ligados à história do socialismo é justamente a forma como a memória revolucionária permanece integrada ao cotidiano. “No lugar de ruínas, encontramos museus e memoriais vivos”, diz.

Desenvolvimento e narrativa nacional

Os números ajudam a entender por que o turismo se tornou peça importante da China contemporânea. Dados oficiais mostram que o país registrou, em 2025, mais de 6,5 bilhões de viagens domésticas, movimentando cerca de 6,3 trilhões de yuans. No mesmo período, a China recebeu mais de 150 milhões de visitantes estrangeiros, enquanto as políticas de isenção de visto seguem sendo ampliadas — incluindo para brasileiros.

Mais do que um setor econômico, o turismo aparece integrado à estratégia de desenvolvimento do país. Nas diretrizes do 15º Plano Quinquenal, a China trata o setor como parte do projeto de modernização, com foco na integração entre cultura e turismo, ampliação da infraestrutura e fortalecimento do intercâmbio internacional.

Xi Jinping também passou a tratar o turismo como ferramenta estratégica de desenvolvimento e construção de identidade nacional. Segundo o presidente chinês, o setor deve servir “a uma vida melhor para as pessoas” e funcionar como “uma ponte importante para os intercâmbios e o entendimento mútuo entre os povos”.

Talvez seja justamente isso que apareça com tanta força em cidades como Wuhan e Shanghai: o turismo funcionando ao mesmo tempo como memória histórica, experiência cultural, circulação econômica e narrativa de futuro.

Iara Vidal é pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN em Português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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