Recebendo visitas, por Felipe Bueno
Acompanhar um momento histórico é sempre um privilégio. Ainda mais porque em geral quem vive as horas e os dias que antecedem tais fatos não sabe de antemão a dimensão do que vai testemunhar.
Ao fim da semana em andamento teremos uma oportunidade valiosa para analisar a quantas anda a multipolaridade do mundo. Na passada, após nove anos, Donald Trump visitou Xi Jinping, um encontro cortês e ao estilo da diplomacia clássica que, se não trouxe resultados práticos, no mínimo serviu para conceder um pouco de paz ao noticiário geopolítico.
Já nesta semana, quem bate à porta do líder chinês é Vladimir Putin, e aí os parâmetros são outros: estarão frente a frente novamente os artífices da parceria sem limites (2022) que, em doses complementares, provoca admiração, cautela e preocupação em quem observa o andamento das coisas no Planeta Terra.
A presença de Putin no país asiático é simultânea à realização de mais uma Expo China-Rússia, uma demonstração para a platéia de que a dupla segue trabalhando de maneira mais harmônica e natural que a relação de idas e vindas entre Xi Jinping e o presidente dos Estados Unidos.
Mas sempre é bom olhar para além das curtas durações; se considerarmos que a parceria sem limites está, e não simplesmente é, nos perguntamos por que e chegamos a algumas divergências que devemos considerar ao projetar um eventual futuro no qual o Ocidente – para muitos num irreversível declínio – perdesse uma parcela considerável de sua força vital.
As visões de mundo russa e chinesa, ainda que estejamos falando de dois antigos impérios e respeitadas as óbvias diferenças entre eles, são distintas, sendo a segunda muito mais pragmática que a primeira. Não nos esqueçamos: a Ucrânia, por exemplo, ainda é uma pergunta sem resposta, uma história sem último capítulo.
Sendo a China objetiva, uma nação mercantil que depende de paz para seu crescimento, não é indevido perguntar: como lidar com Vladimir Putin e uma memória imperialista de séculos, que o líder russo teima em trazer para o presente de tempos em tempos?
São perguntas ainda sem resposta, e cabe a nós observar. De qualquer forma, seja recebendo Trump ou Putin, do ponto de vista da China, antigo Império do Meio, a diferença está entre manter a casa limpa e arrumada para dois tipos de visita: uma, a do colega de trabalho que cobiça sua prosperidade; outra, a do amigo briguento que convém manter por perto. Nos dois casos, em comum, o pragmatismo chinês.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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