1 de julho de 2026

O Desenvolvimento anda de trem V, por José Manoel Ferreira Gonçalves

A primeira ideia de pôr as rodas sobre trilhos foi pensada por um trabalhador anônimo, dentro de uma mina de extração de carvão.
Rio Tinto - Divulgação

O Desenvolvimento anda de trem V

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por José Manoel Ferreira Gonçalves

Vale repisar: a história das ferrovias no Brasil está umbilicalmente ligada aos chefes de estado de ocasião. Na semana passada vimos o ciclo mais virtuoso das ferrovias no Brasil, todo ele durante o governo Lula da Silva. Em 2011 assumiu sua sucessora, Dilma Rousseff, encarregada de continuar os projetos exitosos do governo Lula.

Eram muitos os projetos, que envolvia estaleiros, sondas para o Pré-sal, submarino nuclear, entre muitos outros, mas, dentre estes outros dois tinham maior apelo popular: o Minha Casa Minha Vida, pelo que interessavam objetivamente aos cidadãos que dependiam de aluguel, e a Norte-Sul, pelo que interessavam subjetivamente às pessoas, devido à imagem afetuosa que as pessoas guardam dos trens.

Para além da simpatia que o projeto provocava, importava o que poderia trazer para as divisas do país, no aumento de competitividade dos nossos produtos no mercado internacional, e barateamento no mercado nacional, ambos devido à economia que o transporte em comboios sobre trilhos representa.

Importa tratar disso de maneira mais acurada, mas para entender melhor a importância da Norte-Sul, vale a digressão de apontar que os trilhos representaram a maior invenção humana para potencialização do transporte terrestre, exceto pela invenção da roda. A primeira ideia de pôr as rodas sobre trilhos foi pensada por um trabalhador anônimo, dentro de uma mina de extração de carvão. Sim, os trens começaram com tração humana, cuja força era multiplicada por rodas sobre trilhos planos e rijos (de madeira) e não mais por rodas atoladas no barro do caminho.

Com a invenção da máquina a vapor, bastou colocá-la sobre o primeiro “vagão” e o trem, praticamente como o conhecemos, estava inventado, gerando não menos que o primeiro processo de globalização não marítima. Hoje, em relação ao caminhão, além de mais econômico, o trem é absolutamente mais ecológico, por emitir muito menos transportando muito mais, é mais seguro, porque evita o assombroso número de acidentes rodoviários, e, nas cidades, contribui diretamente para a saúde, vez que é muito menos poluente.

Por tudo isso a Norte-Sul e a Transnordestina, entre outros projetos, continuou uma prioridade no governo Dilma, mas a crise de 2008 já não era mais uma marolinha e a capacidade de investimento do governo estava relativizada. Acresça-se a isso a má vontade política e, aos poucos, mas gradativamente, os trilhos começaram a sair do primeiro plano em direção ao esquecimento.

Justiça seja feita, o governo Dilma investiu, licitou, construiu, inaugurou, foi valente… mas o fato é que o país entrou em convulsão desde as jornadas de junho de 2013 e, a partir daí, foi ladeira abaixo… No breve segundo mandato, as pautas bombas do Congresso sob Eduardo Cunha, somados aos ataques internos e externos por meio da Lava Jato, puseram abaixo qualquer iniciativa de desenvolvimento do país. Ao contrário, o que vivemos hoje é tão-somente um desmonte desastroso que, por mais que tenha sido previsto, a nação não conseguiu evitar.

Quanto aos dois governantes pós-Dilma nada temos a dizer, porque simplesmente nada fizeram digno de nota. Hoje o país olha com esperança 2023, oxalá o país não dê novo tiro no próprio pé. Não dará!

José Manoel Ferreira Gonçalves é jornalista, cientista político, advogado e doutor em engenharia. Dedica-se ao estudo da ecologia e meio ambiente, bem como aos modais de transporte, notadamente o ferroviário, para cuja bandeira milita.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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  1. José Carvalho

    7 de maio de 2022 12:47 pm

    No Brasil, o distanciamento do empresariado nacional com os objetivos necessários ao seu desenvolvimento chega a ser alarmante. Há um recorrente discurso clamando mais competitividade, como se isso brotasse do nada. Determinados tipos de investimentos, que além de indispensáveis, são multiplicadores de outros investimentos e oportunidades, não recebem a devida atenção. Investir no aumento da rede de trilhos proporcionaria essa multiplicação de possibilidades. A análise isolada fez com que praticamente ninguém tivesse o interesse de realizar maiores investimentos. Não se trata apenas de ligar distâncias. Mas de aprofundar o desenvolvimento. É investimento puxando mais investimento, elevando o nível de riqueza do País. Não é apostar, mas provocar esse resultado alinhando os objetivos. O problema é exatamente essa falta de objetivos.

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