Em nove estados, a polícia matou 4.330 pessoas no ano passado — 86,3% delas negras, 64,8% com menos de 30 anos. O número é o maior da série e desmente, dado a dado, o discurso de “preservação da vida”.
Há uma maneira preguiçosa de ler os números da violência de Estado no Brasil: tratá-los como fatalidade, ruído estatístico, efeito colateral do enfrentamento ao crime. A sétima edição do Pele Alvo, estudo anual da Rede de Observatórios da Segurança, ligada ao CESeC, fecha essa porta. Em 2025, os nove estados monitorados — Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo — somaram 4.330 mortes decorrentes de intervenção policial, alta de 6,4% sobre o ano anterior e o maior patamar da série. Em sete anos de monitoramento, são 28.799 vidas.
O perfil dessas mortes não varia. Considerados apenas os registros com informação de raça, 86,3% das vítimas eram negras: 3.104 pessoas. Os jovens de até 29 anos respondem por 64,8% do total — 2.804 mortos —, e 312 eram crianças e adolescentes de até 17 anos. Calculadas as taxas por 100 mil habitantes, uma pessoa negra tem, na média dos estados, quatro vezes mais risco de ser morta pela polícia do que uma branca. Em Pernambuco, esse risco é onze vezes maior; no Rio, seis. Não é um retrato impressionista: é a aritmética de uma seletividade.
Novas dinâmicas, velhos alvos
A tese que organiza o relatório é precisa — “continuidade na mudança”. Tudo se move na superfície, nada se altera no fundo. A reconfiguração mais visível é geográfica: a expansão do Comando Vermelho e do PCC rumo ao Norte e ao Nordeste reorganizou rotas e disputas, e a resposta dos governos foi quase invariavelmente a mesma — militarização e confronto. O resultado aparece nos recordes simultâneos do Ceará (200 mortes), do Maranhão (142), do Pará (632) e de São Paulo (834), todos os maiores de suas séries desde 2019.
O caso maranhense é o mais brutal: 86,8% de aumento em um único ano, empurrado pela interiorização das facções e por uma letalidade que já não se concentra nas capitais. No Maranhão, 40% das mortes ocorreram em 35 municípios, vários com menos de 15 mil habitantes; no Amazonas, o interior passou a responder por 62,8% dos casos, e a pequena Coari, com 1,6% da população do estado, concentrou 16,3% das mortes. A violência de Estado segue o mesmo vetor de capilarização do crime que diz combater — e mira o mesmo corpo: jovem, negro, periférico, do interior empobrecido.
A opacidade como dispositivo
O dado mais revelador talvez seja o que falta. No Maranhão, 54,9% dos registros não informam a raça da vítima; no Ceará, 57,5%. Por anos, esse “não informado” foi tratado como falha burocrática. O Pele Alvo demonstra que é outra coisa. Quando o Maranhão passou a preencher melhor a variável, a proporção de negros entre os mortos saltou 22 pontos percentuais; no Ceará, oito. Ou seja: quanto mais o Estado cumpre o dever de informar, mais nítido fica o recorte racial que a omissão escondia. A lacuna não é descuido — é apagamento. Invisibilizar a cor da vítima é a forma estatística de negar que a letalidade policial opera como dispositivo de gestão racializada da morte.
O Ceará deu a esse mecanismo uma forma jurídica. O Decreto 37.130/2026, do governador Elmano de Freitas, trocou a classificação de “morte por intervenção policial” por “homicídio decorrente de oposição à intervenção”. No vocabulário novo, a vítima vira “opositor” e o policial deixa de ser “autor” para ser “interventor”. A engenharia semântica antecede e legitima a bala: nomear é autorizar.
Dois modelos de Estado
O relatório oferece, quase sem querer, um experimento natural sobre o que funciona. De um lado, o Rio de Janeiro. A Operação Contenção, nos complexos da Penha e do Alemão em outubro, terminou com mais de uma centena de mortos classificados como “narcoterroristas” — a maior chacina da história do país — e foi conduzida sob a vigência da ADPF 635, o mecanismo que deveria pôr o Supremo como fiscal da letalidade fluminense. O termo “narcoterrorista” não descreve um inimigo; constrói um, e ao construí-lo dispensa a política pública. Não por acaso, três das quatro operações mais letais da história do estado ocorreram nos últimos cinco anos.
De outro lado, São Paulo bateu seu próprio recorde — 834 mortes — num ano de queda de furtos, roubos e latrocínios. A letalidade subiu enquanto o crime patrimonial caía, o que dissocia uma coisa da outra: não se mata mais porque há mais crime, mata-se mais por escolha de gestão. E há uma prova interna disso. As câmeras corporais do programa Olho Vivo, adotadas em 2020, derrubaram as mortes de 814 para 419 em 2022; depois da mudança de gestão, os números voltaram a subir — 510, 812, 834. A redução era possível e foi abandonada. Enquanto isso, o “Prisômetro” do Smart Sampa exibe prisões em tempo real e as câmeras do Olho Vivo falham nos momentos decisivos, contrariando decisão do STF. Há câmeras que provam eficiência e câmeras que escondem abuso — e o Estado escolhe quais ligar.
É no Rio, ainda, que o estudo aponta o caminho não tomado: a Operação Carbono Oculto, em São Paulo, mostrou ser possível desarticular a estrutura financeira do crime organizado sem confronto armado. A diferença entre os dois modelos é também uma diferença de objeto. Um persegue o dinheiro; o outro persegue o corpo. O primeiro exige inteligência, perícia contábil, cooperação institucional. O segundo exige apenas munição — e periferia.
A vitrine e o porão
A contradição mais eloquente veio do Pará. No ano em que Belém sediou a COP30 e o estado vendeu ao mundo a imagem da sustentabilidade e das Usinas da Paz, a letalidade policial atingiu o maior número da série: 632 mortes, 93,3% negras. Só a capital registrou 99. Não há cidade global para o clima que se sustente sobre o extermínio da juventude da própria periferia.
Pernambuco repete o roteiro no registro do discurso: o governo credita ao programa Juntos pela Segurança a queda dos homicídios, enquanto as mortes pela própria polícia crescem 30,9% — com 94,4% de vítimas negras num estado que informa raça em 100% dos casos. A pergunta que o relatório devolve é incômoda e exata: o que significa “preservar a vida” quando é o Estado que a tira?
A exceção que confirma a regra é o Piauí, único estado a reduzir a letalidade (-16,7%), associada à criação de uma superintendência de igualdade racial e a protocolos antirracistas na PM. Mas o próprio estudo desconfia do próprio alívio: cresceram, em paralelo, as mortes “ocultas” por causas indeterminadas, os desaparecimentos, o uso de valas e cemitérios clandestinos. A morte pode ter saído da estatística sem sair do território.
O cálculo eleitoral
Nada disso é alheio ao calendário. O Pele Alvo registra o que se tornou evidente: o discurso da violência como “solução” se intensificou em 2025 na antessala das eleições, com adesão social e midiática — inclusive em campos que se dizem progressistas e adotaram o enfrentamento como bandeira. Os aumentos no Nordeste, observa o estudo, acompanham as gestões eleitas em 2022. A letalidade deixou de ser apenas política de segurança; virou ativo de campanha. É o ponto em que a necropolítica encontra o marketing eleitoral, e o corpo negro periférico vira, mais uma vez, a moeda da transação.
Onde a vida insiste
Contra essa contabilidade, o relatório coloca uma voz. Lúcia Cabral, a Tia Lúcia, fundou no Complexo do Alemão o EDUCAP — espaço de acolhimento e educação popular criado em 2008, depois de mais uma chacina. Há quase seis décadas no território, ela descreve a rotina sob o fuzil e o medo visceral a cada disparo, mas também o trabalho cotidiano, sem verba e movido por solidariedade, de mostrar ao jovem “jogado à própria sorte” que ele não precisa de uma arma para existir. É a face que os painéis de produtividade não contabilizam.
A síntese cabe à diretora da Rede de Observatórios, a cientista social Silvia Ramos: depois de sete edições e quase 29 mil mortes, o que os dados provam não é uma sucessão de casos isolados, mas a ausência de qualquer política pública efetiva voltada a proteger essas vidas. O Pele Alvo não pede sentimento; pede método — padronização e transparência dos dados, controle institucional das polícias, deslocamento do alvo do corpo para a estrutura financeira do crime, prevenção no lugar do confronto. Tudo já existe em algum estado, em alguma operação, em algum ano. Falta, apenas, a decisão de que essas vidas valem a pena ser preservadas.
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