11 de junho de 2026

Ser cristão, por Hans Küng

Ao começar a circular na história universal, ‘cristão’ era termo ofensivo mais do que honroso epíteto. Quem ainda se lembra disto?
The dead Christ and three mourners *tempera on canvas *68 × 81 cm *1470-1474

Enviado por Felipe A. P. L. Costa.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Ser cristão.

Por Hans Küng [*].

Mas, se (sofre) como cristão,
não se envergonhe, antes,
 glorifique a Deus por tal nome.

– 1 Pdr 4: 16.

O Cristo.

O termo ‘cristão’ hoje traduz mais a ideia de sono (Schlafwort) do que a de impacto (Schlagwort). Há tanta coisa cristã: igrejas, escolas, partidos políticos, grêmios culturais e naturalmente a Europa, o Ocidente, a Idade Média, sem falar no ‘rei cristianíssimo’ – título conferido por Roma onde, aliás, se dá preferência a outros atributos (‘romano’, ‘católico’, ‘eclesiástico’, ‘santo’), para equipará-los simplesmente com ‘cristão’. Como qualquer inflação, também esta inflação conceitual conduz à desvalorização.

Lembrança perigosa.

Será que alguém ainda se recorda da origem suspeita da palavra ‘cristão’? Originou-se em Antioquia, consoante o testemunho dos Atos dos Apóstolos. Ao começar a circular na história universal, ‘cristão’ era termo ofensivo mais do que honroso epíteto. Quem ainda se lembra disto?

Foi quando pelo ano 112 Gaio Plínio II, governador romano de Bitínia, província da Ásia Menor, consultou o imperador Adriano a respeito dos ‘cristãos’, acusados de numerosos crimes, mas que, segundo o inquérito feito, apenas se recusavam a prestar culto divino ao imperador, parecendo, no mais, gente pacata a entoar hinos a ‘Cristo, como a Deus’ (= recitar o ato de profissão de fé?) e a respeitar os mandamentos (não furtar, não saquear, não cometer adultério, não mentir).

Pouco depois, um amigo de Plínio Cornélio Tácito, ao elaborar uma história da Roma imperial, relata, com bastante fidelidade, o incêndio de Roma (no ano 64), atribuído, pela voz do povo, ao imperador Nero e por este descarregado na conta dos ‘crestãos’: palavra que se derivaria de ‘Cristo’, nome de certo sentenciado pelo procurador Pôncio Pilatos, sob o imperador Tibério. “Essa superstição perniciosa”, diz Tácito, como de resto tudo que é nocivo e não presta, acabou por encontrar o caminho de Roma onde, após o incêndio, chegou a arrebanhar grande número de adeptos.

*

[*] Hans Küng (1928-2021). O excerto acima foi extraído do blogue Poesia Contra a Guerra. Fonte original: Küng, H. 1976 [1974]. Ser cristão. RJ, Imago. O versículo bíblico, acrescentado aqui, foi extraído de Bíblia sagrada (Paulinas, 1965), em tradução de Matos Soares.

* * *

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

1 Comentário
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. WALMIR GALVÃO ALMEIDA PASSOS

    3 de junho de 2022 6:59 pm

    Hoje temos judeus ortodoxos desejando refazer o julgamento de Cristo. Cristo foi inocentado por Pôncio Pilatos que disse não ver nele crime algum. Contudo ser contado entre os malfeitores era uma profecia que se cumpria. Passado milhares de anos ( promessa do messias, o messias, a ressurreição do messias) os eleitos de DEUS, vem mantendo suas fés inabalaveis.
    Lametamos porem que pessoas e instituições procurem macular a imagem do messias. Isto contudo tambem foi profetizado. O que me resta é a clara e serena tranquilidade de que não caira um jota ou til sem que tudo o que esta escrito aconteça, pois o messias não é homem para mentir nem filho do homem para se arrepender.

Recomendados para você

Recomendados