4 de junho de 2026

As diferenças de estratégia entre Folha e Globo, por Luis Nassif

Curiosamente, o formato jornal tem impacto político mais forte do que a pulverização vista nos grandes veículos digitais
Photo by AbsolutVision on Unsplash

São distintas as estratégias de dois grupos de mídia – Organizações Globo e Folha/UOL – para compatibilizar os diversos tipos de veículos que controlam.

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No início da era dos portais, a Globo conseguiu um contrato invejável com a TIM que lhe permitiu montar o G1. A Folha fundiu a UOL com a BOL, da Editora Abril, associou-se a capitais portugueses e expulsou a Abril do jogo. Depois trouxe como investidor o BTG, em uma operação que custou o meu pescoço.

O G1 encontrou seu espaço, sendo a confluência das reportagens das diversas afiliadas da Globo, mas uma equipe própria. O grupo manteve identidade própria da rede CBN de rádios e da Globonews. Seu conteúdo, por vezes, alimenta o G1, mas tem personalidade própria.

Ao mesmo tempo, embora tenha fechado a revista Época, melhorou substancialmente O Globo. Depois do impeachment, limpou o jornal dos cronistas de ódio, montou um forte time de comentaristas e a mais dinâmica home dentre os jornais tradicionais.

Tem o vício comum aos demais jornais, de não investir em grandes reportagens investigativas. O jornal é um arquipélago de colunistas soltando pedaços de informações relevantes mas, mesmo assim, pedaços sem contextualização. De qualquer modo consegue sempre trazer chamadas relevantes para a home.

Comete um desperdício incompreensível com o Valor Econômico, que teria tudo para ocupar o espaço que hoje em dia está sendo trilhado pela CNN, de foco na economia e no mercado e do próprio Estadão, com a Broadcast. Houvesse um mínimo de visão, estaria investindo em uma plataforma Valor.

Com a Folha/UOL ocorreu o contrário. Há uma disputa disfarçada entre ambos os veículos. Enquanto a UOL esbanja equipe de jornalistas e comentaristas, a Folha parece padecer de falta de recursos. Tem uma boa sacada – a forma como apresenta o conteúdo das edições diárias -, mas durante o dia não consegue nem um pingo do dinamismo da UOL.

Curiosamente, o impacto político mais forte ainda é do jornal – mesmo o jornalismo da UOL sendo bastante superior. O formato jornal, com suas hierarquias de páginas e manchetes, ainda tem mais eficácia do que a pulverização de páginas e seções que caracterizam os veículos digitais.

Uma estratégia inteligente da Folha/UOL seria fortalecer a Folha, dar-lhe condições econômicas, fortalecendo o corpo de repórteres investigativos. Mas, aparentemente, há conflitos de acionistas atrapalhando a racionalidade.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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5 Comentários
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  1. José de Almeida Bispo

    27 de julho de 2022 5:50 pm

    ” O formato jornal, com suas hierarquias de páginas e manchetes, ainda tem mais eficácia do que a pulverização de páginas e seções que caracterizam os veículos digitais.”
    Não é a quantidade, nem mesmo a qualidade que importa; e sim a clareza do que se quer dizer.
    Daí que para o leitor que pensa – e decide – o impresso, a leitura não descartável mesmo que eletrônica sempre prevalecerá. O resto? Mero consumo.

  2. Gilson Lima

    27 de julho de 2022 7:31 pm

    Apesar de assinante do jornal impresso, não vejo futuro algum nesse tipo de informação. Infelizmente é uma forma obsoleta de se dar notícia.A única salvação, talvez fosse o jornalismo investigativo que não carece do dinamismo que esperamos das notícias.

  3. Kirk

    28 de julho de 2022 1:36 am

    Num dos episódios de Startrek, o sr. Spock aparece lendo um livro impresso. Ok não haviam inventado o kindle ainda.
    Eco lembra que o papel sobreviverá. O vinil ainda é inexplicavelmente superior ao digital.
    Lives e manifestos com 100 mil funcionam?
    I can get no… Satisfaction

    O filósofo coreano Han, aponta uma possível explicação em Sociedade do Cansaço: analógico oferece uma experiência aos sentidos diferenciada e profunda.

    Melhor ter poucos amigos no real que centenas no virtual.

  4. Francisco Santos

    28 de julho de 2022 9:57 am

    Tenho um dificuldade imensa na filtragem das reportagens relevantes dos portais de notícias.
    Aplicativos como google news e Microsoft notícias praticamente nos obrigam a filtrar os sites dos oligopólios de notícias pra se ter uma boa informação, até inserir sites como o do nassif nos apps exige um certo tempo e esforço enquanto notícias sobre novela e futebol pipocam a todo tempo na tela do celular.
    Numa tentativa de frear sua perda de importância e da relevância de seus jornais, os grandes grupos de mídia impuseram sua ditadura de informações como prática para garimpar dinheiro e visibilidade, hoje não é possível visualizar uma reportagem sequer sem pagar assinatura
    Deus salve os blogs de notícias que são minha rotina de conhecimento hoje no brasil

  5. Cláudio Pereira

    28 de julho de 2022 4:22 pm

    Querido Nassif,
    Não conheço a sua dieta alimentar nem tão pouco as fontes de conhecimento que você bebe, mas está dando muito certo, pois está cada dia mais jovem e mais sábio.
    Parabéns a você e a todos!
    Afetuoso abraço

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