4 de junho de 2026

A democracia sonhada por Pedro Passos, da Natura, por Luis Nassif

A lógica de câmbio e juros não pode ficar meramente a serviço do capital improdutivo

Lendo a declaração de Pedro Passos – de que o governo Bolsonaro tornou-se disfuncional para a economia -, lembrei-me de meu início como jornalista. Fui incumbido de entrevistar um brasilianista, não me lembro se Stanley Hilton. Direcionei as perguntas para a temática “a democracia é boa para a economia”.

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Fui interrompido.

A democracia é um valor em si, indispensável para qualquer país civilizado. Não tem lógica buscar argumentos econômicos para defendê-la.

Voltei para a redação com a lição aprendida e com um alívio enorme: a defesa da democracia prescindia de justificativas econômicas ou quetais.

Aparentemente, Passos não teve a oportunidade de receber essa lição. Foi um dos fundadores da Natura, empresa altamente inovadora. Como os demais fundadores, enriqueceu, acumulou patrimônio, tornou-se grande investidor financeiro. E, para a cabeça financista, o que importa apenas são as variações dos ativos, a valorização dos fundos de investimento, um câmbio solto para permitir ganhos de arbitragem.

Tivesse ainda o punch industrial, se daria conta de que o problema de Bolsonaro não é a imprevisibilidade, mas ter dado sobrevida a um modelo inaugurado por Joaquim Levy, nos estertores do governo Dilma, aprofundado por Michel Temer e, depois, por Bolsonaro. O que os diferencia é apenas a maneira como usam os talheres nos banquetes.

Ocorreu uma queda generalizada do faturamento dos produtos de varejo, da Natura à Magazine Luiza. E por um conjunto de razões óbvias.

O primeiro, a queda de renda. Quando aplaudiram a redução dos direitos trabalhistas, pensando nos custos das suas folhas, não levaram em conta que a queda generalizada da renda se refletiria no mercado de consumo – e, consequentemente, na venda de seus produtos.

O segundo, as oscilações intermináveis do câmbio, que interessam apenas aos especuladores financeiros. Os investimentos produtivos demandam previsibilidade do câmbio. Na hora do investimento, o empresário vai estimar o faturamento e a rentabilidade futura em cima de variáveis sob controle – especialmente o câmbio. Quando o câmbio torna-se o fator de ajuste da inflação, cria-se essa loucura. Os juros caem, o capital financeiro sai provocando uma desvalorização do real. A desvalorização provoca inflação, levando o Banco Central a aumentar os juros para trazer de volta os dólares. Há uma nova valorização do real, tirando a competitividade das exportações, tornando as importações mais baratas, até a próxima fuga de capitais.

Não é difícil entender essa lógica. Com um pouco de esforço, o Pedro Passos consegue.

Mas, em um país de informação precária, o que vale é o bordão econômico, da mesma maneira que o terraplanismo científico. Se o doutor falou que o câmbio tem que ser livre, leve e solto, quem sou eu para questionar.

E assim vai, com a economia se arrastando e toda a lógica de câmbio e juros a serviço apenas do capital improdutivo – aquele que entra para operações de arbitragem, para adquirir empresas descapitalizadas e outros negócios que não agregam nem emprego, nem riqueza, nem capacidade de produção ao país.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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9 Comentários
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  1. José de Almeida Bispo

    15 de agosto de 2022 4:33 pm

    E esquecem que o dinheiro é um mero “papel” de troca. Mais frágil que o ouro, a prata, o cobre, até mesmo o níquel. MERO PAPEL DE TROCA. Que na atualidade já nem isso é; e sim bits gravado em algum HD.

  2. Mauro José Saraiva Orcelli

    15 de agosto de 2022 5:23 pm

    O único candidato a presidente que fala abertamente sobre isso e diz como irá tentar resolver essa predominância do capital especulativo e improdutivo é #CiroGomesPresidente12.

  3. Antonio Uchoa Neto

    15 de agosto de 2022 5:39 pm

    “Oscilações intermináveis do câmbio” são muito mais que do interesse de especuladores financeiros, elas são criadas, manipuladas e mantidas por esses mesmos especuladores financeiros, em seus escritórios luxuosos, cercados de uísque 12 anos, com ar condicionado, ou em outros ambientes menos elegantes, onde rola sabe=se lá mais o quê. Não

  4. José de Almeida Bispo

    15 de agosto de 2022 8:53 pm

    Ciro blefa (Sobre o financismo). Como blefarão todos os que prometerem alguma coisa nesse sentido. Quem manda é o Canary Wharf e Wall Street. O resto? OTAN, Casa Branca, UE… restinho. Basta uma leve suspeita e vai empichado até a mãe do padre. O sistema financeiro colapsará por si próprio. Levando o resto da economia, – todos nós – óbvio.

  5. Luiz Rodrigues

    16 de agosto de 2022 12:29 am

    NASSIF , O GRANDE PROBLEMA É QUE ESSA TROCA, DO EMPREENDEDOR PRODUTIVO PELO FINANCISTA, NÃO PREVEEM QUE ESSA BOLA DE NEVE FINANCEIRA, OU CIRANDA, VAI CHEGAR NUM CALOTE.
    É O QUE SE DARÁ, COM A TROCA DE PRODUTOS TANGÍVEIS POR INTANGÍVEIS.
    É UMA CLASSE DOMINANTE VAGABUNDA E BURRA!
    A GENTE RI PARA NÃO CHORAR: KIÁ….KIÁ….KIÁ…KKKKKKK
    LUIZ

  6. Ricardo Moraes

    16 de agosto de 2022 3:43 pm

    Prezado sr. Bispo, com sua licença, gostaria de chama-lo a refletir sobre um mantra que articulistas sobre economia tem propagado, que pode levar a equívocos. Dinheiro não é mero papel. Ouro e outros metais, bem como o papel moeda podem cumprir o papel de dinheiro, desde que sejam aceitos pelos agentes econômicos. O papel do dinheiro em última instância, é o de permitir a mensuração da riqueza/reconhecimento da propriedade privada, para estruturar um sistema de trocas. Daí a relevância do Estado em sociedades mais complexas, via monopólio da força, para suprir o sistema econômica com esse óleo imprescindível – o dinheiro. Saudações e melhores pensamentos pra ti.

  7. Nicolas Crabbé

    16 de agosto de 2022 5:48 pm

    Não é de hoje que o câmbio serve como âncora contra a inflação. Durante os dois governos Lula aconteceu exatamente a mesma coisa.
    Lula assumiu em janeiro de 2003 com o dólar a R$4,00, em agosto de 2008, pouco antes da crise econômica, o dólar estava a R$1,60. Algumas grandes empresas só sobreviviam fazendo operações financeiras que garantiam o lucro, porque a operação industrial dava prejuízo. Quando veio a crise com a quebra do Lehman Brothers, essas empresas ficaram numa situação insustentável. A Sadia quebrou e o grupo Votorantim ficou muito perto.
    O próprio Nassif comentou várias vezes sobre esse assunto na época.

    É claro que a preocupação social nem se compara entre os anos Lula e os últimos 8 anos desde Joaquim Levy, mas essa postura de preservar o mercado financeiro com juros na estratosfera e câmbio sobrevalorizado não é nenhuma novidade e já na época foi desastrosa para a indústria nacional.

  8. Edmilson

    17 de agosto de 2022 5:03 pm

    Empresários brasileiros são meros arrecadadores de impostos, e claro de todos os custos que são repassados aos consumidores, com renda minguada fogem do varejo e o resultado está aí.

  9. José Carvalho

    18 de agosto de 2022 9:02 pm

    O empobrecimento do debate no País através do ato de ignorar as vozes divergentes dessa adesão incondicional ao liberalismo econômico, fez o Brasil praticar “verdades” que não trouxeram os resultados prometidos. Todos esses efeitos citados produziram uma economia frágil e vulnerável. Toda a quantidade de empresas que foram vendidas por causa da conversa mole de que havia um único caminho, outras tantas fecharam por ficarem derramando lágrimas e chorando as pitangas, esperando uma saída sem seu esforço e interesse. A desunião dessas entidades de classes patronais, cada um defendendo a si mesmo, sem considerar o País. Se recusando a fazer parte dele. Eles são a Bélgica e não fazem parte da Índia. Não têm compromisso com o desenvolvimento. Afinal isso não afeta a eles, se a Índia vai bem ou vai mal não é da sua responsabilidade. Por isso essas pontes que passam por cima da Índia e chegam lá na Suiça, quem sabe, seduzem tão satisfatoriamente olhos e ouvidos aguçados. Essa mandracaria que dispensa o esforço, oferecendo o êxito sem a disputa jamais vai funcionar. O empenho dos brasileiros é o único remédio para o progresso do País, a soma dos esforços de todos os componentes da sociedade brasileira. Esforço de superação.

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