“Não guardo mágoa,
não blasfemo, não pondero
Não tolero lero lero,
devo nada pra ninguém”
(Cacaso)
Tem gente demais escrevendo sobre o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, que será tema obrigatório ao longo desta semana e, provavelmente, notinha de rodapé na próxima.
Então, evitando entediar os leitores, vou separar o joio do trigo, o que realmente importa do supérfluo, do rancoroso e do oba oba palaciano.
Em 1979, as altas autoridades da ditadura negociaram com a oposição consentida uma anistia recíproca, que não passou da imposição da vontade dos vencedores sobre os vencidos: o preço da libertação de presos políticos e da permissão para que exilados voltassem a salvo de represálias foi o perdão eterno dos agentes crapulosos do Estado e seus mandantes.
A barganha espúria teve a conseqüência de manter o passado insepulto; há três décadas e meia seus fantasmas teimam em assombrar a Nação brasileira.
A ONU, a OEA e o Direito internacional acertadamente consideram aberrantes e ilegais esses simulacros de anistias emanados de ditaduras, pois a desigualdade de forças determina invariavelmente o resultado .
Canso de indagar: se Adolf Hitler houvesse montado farsa semelhante quando os aliados desembarcaram na Normandia, os altos dirigentes nazistas seriam poupados do julgamento de Nuremberg?
Então, cabia ao Estado brasileiro, como uma das primeiras medidas da redemocratização, revogar a Lei de Anistia imposta –um mero habeas corpus preventivo de que os torturadores e seus mandantes se muniram– e substitui-la por outra, compatível com um Estado de direito.
O governo de José Sarney (logo quem!) não fez a lição de casa, assim como não a fizeram todos os presidentes da República depois dele.
Em 2008, o lançamento do livro Direito à Memória e à Verdade e a insubmissão de alguns comandantes militares que peitaram o governo, acendeu a polêmica no seio do Ministério de Luiz Inácio Lula da Silva. Os ministros Tarso Genro e Paulo Vannuchi defendiam a revisão da anistia de 1979, mas perderam a parada para a corrente do imobilismo, da omissão e da covardia, liderada pelo ministro da Defesa Nelson Jobim.
Lula instruiu os ministros enaltecerem os resistentes, mas não tomarem nenhuma iniciativa concreta, em nome do seu governo, contra a Lei da Anistia.
Evidentemente, com o Executivo fora da jogada, não se poderia esperar grande coisa do Legislativo e do Judiciário.
Que o primeiro fingiria nada ter a ver com a encrenca era a chamada caçapa cantada.
Pior ainda fez o Supremo Tribunal Federal em 2010, ao considerar plenamente válida uma armação que fez lembrar os sequestros de pessoas: os indiscutíveis representantes dos algozes mantiveram centenas de vítimas como reféns até que os presumidos representantes das ditas cujas concordassem em pagar o resgate exigido. Os que chamam isso de pacto, devem ter em mente a acepção goethiana do termo; os Faustos foram infaustos, enquanto Mefistófeles estava mefistofélico como nunca.
Genro e Vannuchi, para salvarem a própria imagem depois que Lula os desautorizou a cumprirem com seu dever, apontaram o caminho dos tribunais para os inconformados com a impunidade dos ogros. Várias tentativas têm sido feitas desde a ação pioneira da família Telles contra o torturador-mor Carlos Alberto Brilhante Ustra, algumas até indo além das primeiras instâncias, sem que, contudo, fosse ultrapassado o derradeiro obstáculo: o STF.
Agora Dilma Rousseff terá outra oportunidade de fazer o que é certo, tomando a única atitude capaz de destravar esses processos: a de colocar todo o peso do governo federal a favor da revisão da Lei da Anistia. Caso contrário, a principal recomendação da CNV –acabar com a impunidade dos verdugos– ficará no lero lero.
Talvez seja sua última chance de honrar o passado de resistente e torturada, depois de haver olimpicamente ignorado a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos sobre os mortos do Araguaia.
Há quem acredite que, pelo menos no caso do atentado ao Riocentro, o STF deixará de se comportar como guardião da impunidade dos hediondos; afinal, cronologicamente, tal ação terrorista, datada de abril de 1981, não estava mais sob o guarda-chuva protetor da Lei da Anistia. Mas, ainda que isto ocorra, nada indica que abrirá um precedente para a condenação de réus de cometeram suas bestialidades no período permitido (até 15 de agosto de 1979). Não nos iludamos.
E é também sem ilusões que devemos encarar a possibilidade de que, façamos o que fizermos, talvez nenhum dos 196 acusados pela CNV acabe preso. Nossa Justiça é morosa ao extremo e permite uma infinitude de manobras protelatórias para os que podem pagar bons advogados. Mais da metade já morreu e, dada a idade avançada, poucos alcançarão a próxima década. Será melhor colocarmos nossas esperanças na justiça divina…
Ainda assim, não podemos fechar esta página vergonhosa da nossa História com um veredito tão dúbio.
Por um lado, o Estado brasileiro estaria admitindo que seus agentes podem ser anistiados após executarem prisioneiros indefesos, estuprarem, torturarem, maltratarem crianças para coagirem pais, ocultarem cadáveres, etc.
Por outro, instituiu as comissões de Mortos e Desaparecidos Políticos, de Anistia e da Verdade para apurarem as atrocidades do período e, as duas primeiras, concederem reparações às vítimas ou seus herdeiros.
O que isto sinaliza para os pósteros? Que, em determinadas circunstâncias, eles poderão cometer os crimes mais atrozes sem serem punidos, correndo apenas o risco de ficarem com péssima imagem. Os cínicos concluirão que as generosas recompensas para quem serve aos déspotas compensam o mico de depois figurarem na História como vilões e serem alvos de escrachos…
É por isto que se impõe a substituição do simulacro de anistia por uma anistia de verdade! Os tentados a atentarem contra as instituições (e eles têm mostrado a cara por aí!) saberão que, da próxima vez, tendem a não escapar tão facilmente do merecido castigo.
Para os governantes que têm paúra de quarteladas, uma sugestão: se querem conceder algo aos velhos gorilas para apaziguá-los, que seja a garantia de não encarceramento dos condenados. Que, lá no fim da linha, os poucos que tiverem sobrevivido à maratona jurídica sejam indultados por velhice e/ou doença grave, ou mantidos em prisão domiciliar. Certamente não mostraram idêntica consideração para com nossos velhos, mas temos a obrigação de ser melhores do que eles.
No entanto, é como oficialmente culpados que eles têm de passar à História. Se quisemos respeitarmo-nos como povo e como nação. Se tivermos vergonha na cara.
OUTROS POSTS DO NÁUFRAGO DA UTOPIA SOBRE O RELATÓRIO FINAL DA CNV (clique p/ abrir):
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rl
13 de dezembro de 2014 8:42 pmAnistia
Sem dúvida estamos em uma situação meio esquisita. Mas não acham que ficaria difícil de explicar, para os turistas e para nossos netos, como tantos condenados por crimes contra a humanidade dão nomes a ruas, praças, cidades etc. Não era melhor a gente limpar a fachada antes de seguir em frente?
Bernardo F Costa
13 de dezembro de 2014 8:56 pmEu posso estar errado mas a
Eu posso estar errado mas a impressão que eu tenho é que não há a minima chance de que as principais recomendações do CNV sejam levadas a frente, pois todas dependem tanto do congresso quanto do STF e nenhum deles vai ajudar em nada. Aliás, mesmo se dependesse só do executivo as chances de dar em nada seriam enormes. Ás vezes, me pergunto inclusive o que o governo pretendia com ele quando determinou o inicio dos trabalhos. Se queria apenas dar uma satisfação aos seus aliados mais a esquerda e aproveitar para fazer um pouco de média com eles ou se queria realmente enfrentar os problemas criados pela lei da anistia e posteriormente as jurisprudências que o STF criou sobre o assunto, vis-a-vis os tratados internacionais assinados sobre o tema. Penso que o governo age mais como marqueteiro nessa área do que como alguém que queira realmente mudar alguma coisa. E digo isso pelo seguinte. Em 12 anos de governos de esquerda, não fizeram nada para sequer reformar o ensino militar no sentido de criar novas gerações de militares mais comprometidos com a democracia. Os que estão sendo formados agora tem o mesmo pensamento de quem estava na caserna durante as décadas de 60 para frente. E seria bem simples fazer isso, pois não depende do congresso e nem da justiça, mas nem isso fizeram. Se nem isso fizeram, que dirá do resto.
IV AVATAR
13 de dezembro de 2014 10:09 pmEssa opinião do Lungaretti vem de tão logo foi anunciada
Essa opinião do Lungaretti vem de tão logo foi anunciada a criação da Comissão da Verdade, sendo que já era esperado esse seu ponto de vista quanto ao relatório final. Só quero entender o que o Poder Executivo pode fazer se a punição dos torturadores depende do STF, que referendou a Lei da Anistia criada pelos torturadores.
P.S.- Corrijo-me. Ele ficou contra não não quando do anúncio da criação em 2009 mas, ao face ao andamento da mesma, algum fato que o desagradou, não saberia dizer exatamente o que…
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
GOVERNO VAI INSTITUIR COMISSÃO PARA APURAR ATROCIDADES DA DITADURA
Tal compromisso vai constar do novo Programa Nacional dos Direitos Humanos, que será lançado na próxima segunda-feira, 21.
Ao que tudo indica, a instituição da Comissão da Verdade se dará numa data emblemática: 21 de abril, aniversário da morte de Tiradentes.
O foco não serão exclusivamente as violações de direitos humanos dos adversários da ditadura de 1964/85, mas também as que tiverem sido cometidas depois, contra presos comuns, até a atualidade.
Vanucchi disse que será uma comissão “como Chile, Argentina e Uruguai já tiveram”, mas “o Brasil não teve, então nós conseguimos dar este passo”.
Está certo: as recomendações da ONU para países redemocratizados são, exatamente, de que apurem tais crimes, deem reparações às vítimas, punam os responsáveis e tomem providências institucionais para dificultar sua repetição no futuro.
Em termos oficiais, a apuração só se deu por meio dos trabalhos das comissões de Anistia e de Mortos e Desaparecidos Políticos.
A última, que já encerrou seus trabalhos, apresentou o relatório final na forma de livro: Direito à Memória e à Verdade. Presume-se que a Comissão de Anistia também o faça, adiante.
As reparações às vítimas igualmente estão sendo concedidas, embora com extrema morosidade.
Mecanismos para prevenir a reincidência na barbárie não foram adotados.
E a punição dos torturadores continua sendo um sonho numa noite de verão.
Várias vezes já alertei que a pá de cal na possibilidade de que os torturadores viessem a ser realmente punidos foi a decisão de não revogar a anistia de 1979, promulgada em plena ditadura, substituindo-a por uma Lei de Anistia de verdade.
A que temos, não passou de um habeas corpus preventivo para os mandantes das atrocidades e seus serviçais: condicionaram a libertação de presos políticos e a permissão da volta dos exilados à aceitação de uma bizarra anistia simultânea a vítimas e carrascos.
O serviço competia mesmo é ao Executivo e ao Legislativo. Não havendo vontade política neste sentido, a batata quente foi atirada no colo do Judiciário.
E a forma de contornar a anistia de 1979 foi acusar os torturadores de terem praticado crimes comuns, não políticos. Só que:trata-se de uma flagrante mentira histórica, que acaba limpando a barra dos generais ditadores, de seus ministros, dos altos comandantes militares, etc. TODA A CADEIA DE COMANDO FOI RESPONSÁVEL PELAS ATROCIDADES, NÃO APENAS OS PAUS MANDADOS INCUMBIDOS DO SERVIÇO SUJO;desta forma, acabarão sendo processados apenas os diretamente envolvidos com os porões, não os que deram cobertura e sinal verde para a existência dos porões, como, p. ex., os signatários do AI-5;sendo praticamente inesgotáveis as manobras protelatórias que a Justiça brasileira faculta a quem conta com advogados caros (e a extrema-direita certamente os proverá), a morte chegará muito antes da execução das sentenças, mesmo que se obtenham condenações.Os ditadores já foram todos para o inferno.
Dos 17 signatários do AI-5, só dois estão vivos: Delfim Netto e Jarbas Passarinho.
Quando procuradores de Justiça tentaram fazer com que os antigos comandantes do DOI-Codi/SP ressarcissem a União por tudo que ela gastou em reparações às vítimas desse centro de torturas, um deles morreu logo em seguida (Audir Santos Maciel) e sobrou apenas o Brilhante Ustra, que já teve problemas cardíacos.
Enfim, o momento certo para a punição dos torturadores era o da redemocratização, 1985.
Desde que esse debate foi relançado por Tarso Genro e Paulo Vanucchi, já lá se vão mais de dois anos… marcando passo.
Um resultado concreto, que lavou a nossa alma, foi o reconhecimento da condição de torturador de Brilhante Ustra por parte da Justiça paulista. A ação declaratória funcionou. Trata-se do nosso único torturador com registro em carteira…
Mas, sempre que envolve pena de prisão ou pecuniária, o processo enfrenta resistência bem maior.
E a própria Advocacia Geral da União tem se alinhado com os torturadores, ao emitir pareceres de que a anistia de 1979 veda a punição dos carrascos, todas as vezes em que a defesa dos ditos cujos requereu seu posicionamento.
Mais: na entrevista que acaba de conceder ao UOL Notícias, Vanucchi admitiu, inclusive, que as sentenças dos torturadores provavelmente seriam convertidas em prestação de serviços à comunidade…
Por tudo isso, considero que o mais importante, agora, é o esmiuçamento desses episódios vergonhosos, de forma a que sejam amplamente conhecidos pelos cidadãos brasileiros e incorporados à História em toda a sua crueza.
Que haja um veredicto definitivo e incontestável do Estado brasileiro sobre os responsáveis pelo festival de horrores que se abateu sobre o País a partir da quartelada de 1964 – até como desestímulo às reincidências.
A Comissão da Verdade é, portanto, uma iniciativa correta e das mais oportunas. Parabéns ao Vanucchi!
Moralmente, o inventário dos crimes e a exposição dos criminosos ao opróbrio eterno servirá como compensação caso os culpados não recebam o merecido castigo aqui na Terra. http://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2009/12/governo-vai-criar-comissao-para-apurar.html
IV AVATAR
13 de dezembro de 2014 10:18 pmNão entendi pq nem a partir de quando Lungaretti ficou contra
Não entendi pq nem a partir de quando Lungaretti ficou contra. O que Dilma poderia fazer além de dar autonomia às Institições para que estas coloquem os torturores atrás das grades é que não sei…Kd os bambambãs do momento o Sérgio Moro, o Rodrigo Janot, o Gilmar Mendes, os barões e lobões e lobonas da midia….
QUINTA-FEIRA, MAIO 23, 2013
Reproduzo aqui artigo de Celso Lungaretti em seu Blog “Naufrago da Utopia”
A COMISSÃO DA VERDADE, A SOFREGUIDÃO E OS HOLOFOTES
Isto porque nada será decidido agora. O xis da questão é se, no relatório final da Comissão, daqui a um ano e meio, vai ou não ser recomendada a anulação da aberração jurídica que permitiu aos assassinos oficiais anistiarem a si próprios.
Então, por que botaram o carro na frente dos bois, lançando o debate agora? Meu palpite é de que se trata de um terceiro tema controverso oferecido numa bandeja à imprensa, para que a Comissão da Verdade entre com destaque no noticiário.
Foi o que a presidente Dilma Rousseff cobrou, há alguns meses: maior visibilidade dostrabalhos da Comissão.
Coincidência ou não, coincidiram com o primeiro aniversário do colegiado:
Tal busca sôfrega por holofotes me fez lembrar um episódio exemplar. Em 2004, quando do 25º aniversário do simulacro de anistia que igualou as vítimas a seus carrascos, era previsível que a imprensa estivesse à cata de notícias para preencherem os espaços dedicados à efeméride.
o anúncio da decisão de exumarem o corpo do ex-presidente João Goulart, que pode levar à comprovação de seu assassinato por envenenamento (ou, em caso contrário, fornecer um poderoso trunfo propagandístico às viúvas da ditadura, daí a leviandade de trombetearem o que poderia ter sido feito discretamente, deixando o obaoba para depois, dependendo do resultado dos exames);a totalmente inútil convocação do megatorturador Carlos Alberto Brilhante Ustra para bater boca com membros da Comissão, cuja sessão foi aberta ao público pela primeira vez exatamente para maximizar a repercussão do deprimente espetáculo; e,agora, a também totalmente inútil antecipação de uma polêmica que só será travada para valer, se o for, no final de 2014.
A Comissão de Anistia programou exatamente para aquele momento o julgamento do processo de Anita Leocádia Prestes (ela estava em grande evidência por causa do recém-lançado filme Olga) e divulgou triunfalmente que lhe fora concedida uma indenização.
Anita, contudo, retrucou dignamente que não pedira tal indenização e a doaria para caridade. Seu pleito era apenas de que seu tempo de exílio fosse considerado na contagem de anos para obter uma aposentadoria como professora; só queria aquilo que pedira, não o que fora acrescentado à sua revelia.
A CAPITULAÇÃO DECISIVA FOI EM 2008 Quanto ao fulcro da questão, reitero o que tenho escrito desde meados de 2008, quando o Ministério se dividiu (Tarso Genro e Paulo Vannuchi a favor da revogação da Lei de Anistia e Nelson Jobim, contra) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva capitulou, desperdiçando uma oportunidade única para expor o blefe de velhos militares que não falavam em nome das tropas:
Isto dependeria de uma negociação política.
a apuração dos crimes e atrocidades da ditadura, com a consequente punição dos responsáveis, era um dever que o Estado brasileiro deveria ter cumprido logo que se deu a redemocratização, em 1985 (mas, claro, não se poderia esperar que o arenoso José Sarney colocasse o próprio pescoço na forca, depois de ter sido o mais servil capacho dos militares);por culpa de um sem-número de omissos, continuamos na estaca zero até hoje, no que diz respeito à punição das bestas-feras;mesmo que se derrube a vergonhosa decisão de 2010 do Supremo Tribunal Federal, na contramão das recomendações da ONU e do enfoque legal dos países civilizados, já não há mais hipótese de a condenação dos criminosos hediondos transitar em julgado antes que eles morram todos de velhice, dada a lerdeza da Justiça brasileira e o número infinito de manobras protelatórias que faculta a quem pode contratar os melhores advogados;então, devemos nos preocupar é com o legado que deixaremos aos pósteros, ou seja, batalharmos para que não permaneça legitimado o escabroso precedente de uma ditadura, durante sua vigência, anistiar antecipadamente seus esbirros, concedendo-lhes uma espécie de habeas corpus preventivo.
Para eles, é inaceitável o cumprimento de penas, a perda de pensões e o pagamento de indenizações.
Já que vê-los um dia encarcerados (como merecem!) não passa de uma quimera, para nós o mais inaceitável é que eles continuem sendo formalmente tidos pelo Estado brasileiro como anistiados e não como os criminosos infames que são. Temos de, pelo menos, desestimular reincidências, e a impunidade sacramentada pelo STF vai na direção contrária.
Existe um espaço para negociação. Mas, haverá vontade política para tanto? Lamentavelmente, sou obrigado a duvidar. Tudo indica que continuará havendo muita espuma e nada de concreto. http://luizap.blogspot.com.br/2013/05/reproduzo-aqui-artigo-de-celso.html
IV AVATAR
13 de dezembro de 2014 10:25 pmUma gracinha o “Tio Rei”…..kkkkkk
Autor: Eduardo Guimarães
Clube Militar inventa “vítimas” da resistência à ditadura
A divulgação do relatório final da Comissão Nacional da Verdade produziu reações características dos envolvidos – direta ou indiretamente – com os crimes de lesa-humanidade cometidos pela ditadura militar. Diante da divulgação vexatória de atos como estupros de mulheres e homens e até tortura de crianças, os que praticaram aqueles horrores, ou as famílias dos que praticaram e estão mortos, inventaram uma “desculpa”.
A tese que os envolvidos com a ditadura tentam vender é a de que “os dois lados” seriam culpados pela violência que campeou no Brasil entre o início dos anos 1960 e meados dos anos 1970. Para entender a questão, primeiro há que definir quem são esses “dois lados”.
Um “lado” é facilmente identificável, pois é o Estado Brasileiro. Havia uma Constituição no Brasil em 1964. Ela estabelecia a forma como se constituem governos, a regularidade e a periodicidade de eleições, enfim, todo arcabouço legal que rege política e institucionalmente uma nação.
Como qualquer texto constitucional, o de 1964 definia que o Poder de Estado derivava do voto popular, da vontade do povo. E foi essa vontade que elegeu João Belchior Marques Goulart.
Em 1955, Jango, como Goulart era chamado, elegera-se vice-presidente do Brasil pela coligação PTB/PSD. Obteve mais votos do que o presidente eleito, Juscelino Kubitschek, porque, à época, votações para presidente e vice eram separadas, o que tornava muito maior a legitimidade do vice-presidente.
Em 1960, Jango se elegeu de novo vice-presidente, concorrendo pela chapa de oposição ao candidato Jânio Quadros, do Partido Democrata Cristão (PDC) e apoiado pela União Democrática Nacional (UDN), que venceu o pleito. Seria como se o vice de Aécio Neves recebesse votos diretamente e Dilma Rousseff, presidente, perdesse o mandato ou renunciasse. Quem assumiria seria o vice da chapa tucana.
Em 1961, Jânio renunciou poucos meses após assumir. Apesar da maior legitimidade de Jango, os militares tentaram impedi-lo de assumir. Ontem, como hoje, a direita questionava os votos dos setores mais humildes da sociedade, que, em geral, são os setores que elegem governos trabalhistas, voltados mais à esquerda.
Essa cultura dos conservadores latino-americanos de questionarem o valor do voto dos mais humildes é uma herança da cultura do sufrágio censitário, que vigeu no país de 1824 a 1891, quando, para votar, o cidadão tinha que ter um determinado nível de riqueza, sem o que era considerado um cidadão de segunda classe.
Mais de um século se passou e a elite conservadora continua encarando o voto de pessoas pobres como sendo menos válido que o seu.
Por conta dessa visão, grandes empresários e latifundiários, preocupados com medidas de distribuição de renda que poderiam ser adotadas, decidiram que, como os votos dos pobres, que elegeram Jango, valiam menos que os dos ricos, não haveria que respeitar a vontade da maioria que deu a ele a Presidência da República.
Contudo, essa premissa partia de uma ilegalidade. A Constituição não fazia distinção entre voto de pobre e voto de rico. E não permitia que o mandato de um presidente revestido pela legitimidade do voto popular fosse interrompido sem um processo legal de impedimento, que, obviamente, requeria que representantes eleitos pelo povo para o Legislativo referendassem tal interrupção.
Como os grupos econômicos e sociais que sentiam-se ameaçados não tinham votos entre o povo, e como entendiam que esse povo não tinha os mesmos direitos políticos que a elite, valeram-se da influência dessa elite econômica sobre os militares para violar a Constituição, para infringir a lei maior do país, para cometerem um crime por qualquer critério de julgamento.
A desculpa de que o golpe de direita foi dado para impedir um golpe de esquerda jamais se sustentou em provas. Até hoje, toda vez que um grande jornal, um ministro do Supremo (como Marco Aurélio Mello), um grande empresário ou um “clube militar” repetem a história do “golpe comunista”, utilizam-se de uma versão que não dispõe de uma mísera prova.
Claro que, assim como em 2013 houve grupos de jovens que saíram à rua pedindo a derrubada do regime democrático e a instalação do anarquismo, em 1964 havia jovens querendo promover no país uma Revolução Socialista. Contudo, tanto quanto os jovens radicalizados de hoje, os de ontem não dispunham de meios para concretizar seus devaneios ideológicos.
Não havia grupos se armando, não havia uma influência forte da União Soviética no Brasil. E, mesmo que houvesse, só seria cabível a derrubada do governo Jango se esse governo tivesse dado algum passo comprovável em direção a um golpe. Nunca, porém, existiu um mísero documento, uma mísera prova de que Jango pretendia adotar o socialismo soviético no Brasil.
Concomitantemente à derrubada ilegal do governo, os militares promoveram prisões ilegais e, nessas prisões, valeram-se de tortura física e psicológica contra qualquer um que policiais e militares treinados apenas para combates julgassem que poderiam ter “informações” sobre os que não aceitavam o golpe.
A violência e a criminalidade de Estado fez surgir na sociedade brasileira um movimento de resistência análogo ao que combateu o avanço nazista na França. As ações de guerrilha urbana ou rural, na verdade, eram ações investidas de legitimidade constitucional, pois cabe a qualquer cidadão defender a lei na ausência de autoridades que o façam.
Qualquer reação aos criminosos que derrubaram ilegalmente o governo Jango Goulart, portanto, era uma ação dentro da lei. Até porque, além da derrubada criminosa do governo, os golpistas passaram a praticar crimes comuns, como assassinatos, cárcere privado e torturas contra os que defendiam a lei e a manutenção do Estado de Direito.
Nesse processo de resistência aos criminosos que deram o golpe de Estado, houve tiroteios. Em meio aos tiroteios, é evidente que, apesar de os que defendiam a democracia serem capturados ou mortos em maior quantidade, sempre conseguiriam impor baixas ao lado dos criminosos golpistas durante combates, execução de prisões pelo Estado etc.
Durante esses confrontos, eventualmente algumas pessoas que nada tinham que ver com nada ficaram na linha de fogo, além dos agentes de repressão do Estado que agiam ilegitimamente, sob as ordens de um governo ilegítimo. Alguns desses, perderam a vida.
O relatório final da Comissão Nacional da Verdade envergonhou todos quantos colaboraram com o regime ilegítimo e criminoso que se instalou no país em 1964 ou que participaram ativamente daquele regime. Entre os que menos digerem a Verdade, está um certo “Clube Militar” que, no âmbito da comoção que se instalou no país com as histórias terríveis das vítimas do regime militar, tenta ludibriar a nação divulgando uma relação de “vítimas” dos “terroristas” que não tem amparo de investigações e que, no pouco que possa ter de verdade, cita pessoas que morreram em combate ou que estavam no lugar errado, na hora errada.
Leia, abaixo, o manifesto divulgado pelo site do “Clube Militar” em tela.
As mais de quatro centenas de vítimas da ditadura que a CNV elencou, porém, contam com a legitimidade das investigações daquela Comissão e de seus braços espalhados pelos Estados e Municípios. As vítimas sobreviventes ou seus amigos e familiares vieram a público, deram nomes dos autores dos crimes, apresentaram provas.
Autores dos crimes depuseram nas Comissões da Verdade de todo país, documentos contendo detalhes das torturas e das prisões ilegais, entre outros atos arbitrários, foram apresentados à nação. Grande parte ou a quase totalidade dos que depuseram nas Comissões da Verdade, porém, não trouxe muita coisa nova ao conhecimento público. Muito do que diz o relatório final da CNV já era conhecido.
Do outro lado, temos uma relação obscura de pessoas que, na sua quase totalidade, nunca vieram a público e que, em boa parte, são literalmente desconhecidas. Ou seja: a lista publicada pelo tal “Clube Militar” é uma mentira, uma trapaça, um embuste que visa dar alguma coisa a dizer para os pervertidos da ditadura e para suas famílias diante da vergonha que ao menos deveriam estar sentindo.
Além do que já foi dito, vale refletir que as circunstâncias reais das mortes dos poucos casos reais que possam figurar na lista do “Clube Militar” em nada se assemelham aos crimes apurados e comprovados pelas Comissões da Verdade.
Devido à ampla divulgação dos horrores praticados nos porões da ditadura, é ocioso reproduzi-los. Os detalhes do sadismo inimaginável que regeu as ações dos verdugos escalados pela ditadura para arrancar informações de jovens que havia pouco dedicavam-se a carregar livros daqui para lá não precisam de mais publicidade. Só não viu quem não quis.
No caso dos policiais e soldados que possam ter morrido em combate contra a resistência ao golpe ilegal de 1964, não sofreram o tipo de perversão que transborda das ações do regime contra todo aquele que lhe parecesse suspeito. Até por isso, não há famílias e mais famílias clamando por justiça ou denunciando atrocidades.
As supostas “vítimas de terroristas” não têm rosto, não têm história, à exceção de alguns raros que, diante da enormidade de testemunhas das Comissões da Verdade, não significam nada. E mesmo que os citados pelo “Clube Militar” viessem contar suas histórias, concluir-se-ia que os membros da resistência que possam ter causado as mortes ou ferimentos dessas pessoas foram, em enorme parte, capturados e penalizados com prisão, tortura etc.
O relatório final da Comissão Nacional da Verdade é apenas um primeiro passo para punir todos aqueles que compactuaram com a ditadura ou cometeram crimes em seu nome, inclusive aqueles que tentam se passar por inocentes, como é o caso, por exemplo, de jornais como a Folha de São Paulo, que recita o conto do “Clube Militar” em um texto em que prega a impunidade dos criminosos pervertidos da ditadura que caminham soltos por aí.
Editorial recém-publicado por esse jornal propõe “virar a página”, ou seja, recompensar com impunidade os pervertidos, estupradores, torturadores de crianças, ladrões, sádicos de todos os tipos que hoje são vovôs cheios de netinhos que mal sabem que convivem com verdadeiros monstros, apesar da aparência humana.
É perfeitamente inteligível a postura das famílias Marinho, Mesquita ou Frias, donas de jornais que ajudaram a dar o golpe de 1964 e que sustentaram a ditadura. É inteligível porque o aprofundamento do processo de reparação histórica irá desmascarar os dirigentes dessas empresas à época da ditadura.
Nesse aspecto, o jornal da família Frias é o pior por seu colaboracionismo material com a ditadura e pela cada vez mais comprovada participação de seu fundador até em sessões de tortura, o que se supõe que possa ter ocorrido por algum tipo de tara que se comprazia da visão de sevícias contra pessoas indefesas.
Isso sem falar no apoio material da Folha à ditadura, com os notórios empréstimos de veículos de entrega de jornais para transporte de presos.
Diante do exposto, o Ministério Público bem que poderia investigar essa farsa inominável do tal “Clube Militar”, que busca ludibriar uma nação inteira com uso de informações falsas – em sua quase totalidade. Essa lista de 126 nomes de “vítimas” de “terroristas” é, em grande parte, fictícia. Constitui afronta ao país e seus autores deveriam ser severamente punidos.
http://www.blogdacidadania.com.br/2014/12/clube-militar-inventa-vitimas-da-resistencia-a-ditadura/
Luis Carlos Ferreira
13 de dezembro de 2014 10:34 pmParticipei da campanha pela
Participei da campanha pela anistia que mobilizou a sociedade brasileira no final do regime militar e cujo lema era “por uma anistia ampla, geral e irrestrita.”
A anistia foi uma luta e conquista da sociedade brasileira como um todo e não da esquerda radical, que foi, isso sim a grande beneficiada, pois muitos de seus membros estavam presos, exilados ou foragidos. Em sua primeira edição, em 1979, a anistia excluiu os “julgados e condenados por crimes violentos”. A luta continuou até que a anistia fosse ampla, geral e irrestrita, aceita então pela grande maioria da sociedade, que optou por virar a página do passado e construir um Brasil democrático.
A Assembleia Nacional Constituinte eleita pelo povo brasileiro referendou a lei da anistia, fato que não foi constestado na época a não ser por vozes isoladas. Passados mais de 30 anos a esquerda radical pretende se apropriar da lei e escolher quem pode ou não ser beneficiado, reiniciando uma escalada de ódio e revanchismo que já está há muito tempo superada, e ainda diz que busca a reconciliação da sociedade.
Certamente é injusto que torturadores não sejam punidos, mas atos terroristas como sequestros, assassinatos e “justiçamentos” também são crimes contra a humanidade e foram cometidos por elementos da guerrilha, que lutavam para implantar um regime totalitário marxista e não pelo reestabelecimento das liberdades democráticas. Por trás da anistia está um bem maior: a pacificação do Brasil, que tem como preço o perdão pelos crimes cometidos em um período turbulento de nossa história.
A sociedade brasileira e a democracia nada têm a ganhar com a reedição de lutas que pertencem ao passado.
IV AVATAR
14 de dezembro de 2014 9:14 amA tortura é crime que não prescreve e tem q ser punida
[video:https://www.youtube.com/watch?v=L9GDfcy1C4A%5D
altamiro souza
14 de dezembro de 2014 1:29 amé até comovente o texto do
é até comovente o texto do autor, mas a recomendação
da cnv dependerá do stf.
na minha opinião, tudo dependerá da tal hegemonia
política para que a lei da anistia seja revogada.
Marco Antonio Silva
14 de dezembro de 2014 2:19 pmDepende do stf e não de dilma
https://jornalggn.com.br/noticia/depende-do-judiciario-tambem-o-andamento-das-recomendacoes-da-cnv