A pesquisa IPEC divulgada nesta segunda (12) animou a equipe de campanha de Lula, que definia as eleições ainda no 1º turno com 51% de votos válidos. Mas a pesquisa Quaest divulgada hoje foi na contramão: indica quase nenhuma chance de vitória de Lula na primeira rodada. Mas, afinal, o que explica a diferença de resultados e qual pesquisa se aproximaria mais da realidade?
No IPEC, Lula ganhava por 46% contra 31% da pesquisa espontânea. Ao somar os votos válidos, seriam 51% das intenções ainda no primeiro turno. A diferença entre Lula e Bolsonaro era de 15 pontos percentuais.
Essa mesma comparação entre candidatos cai drasticamente para 8 pontos percentuais no Quaest divulgado hoje (14). Nele, Lula tem 42% contra 34% de Bolsonaro, o pior resultado já registrado para o candidato do PT e uma conclusão do diretor do Instituto: “É mais provável que a eleição não termine no primeiro turno”.
Divergências
As duas pesquisas foram realizadas no mesmo período. Mas a divergência contrastante se deve à amostragem escolhida por cada instituto para fazer as entrevistas.
O tema já foi tratado por diversos analistas, entre eles o sociólogo e presidente do Ipespe, Antonio Lavareda, e pelo analista político Thomas Traumann.
Conforme mostramos na reportagem “Por que pesquisas eleitorais podem apresentar resultados tão diferentes em 2022?“, a divergência dos dois institutos já havia sido percebida em levantamento em São Paulo no início de setembro.
“País não sabe quantos pobres existem“
“Este é um país que não sabe ao certo quantos pobres existem”, arrematou Traumann. Isso porque os dados mais constrastantes, naquela ocasião, apareciam entre os eleitores que vivem com menos de 2 salários mínimos.
Agora, as diferenças ocorrem na faixa de 2 a 5 salários mínimos, a classe média brasileira.
Conforme tabela compartilhada por Traumann, cada instituto utiliza um critério de porcentagem de entrevistados de até 2 salários mínimos e de 2 a 5 salários mínimos. Isso porque não há dados atualizados no Brasil sobre quantos eleitores se encontram nestes segmentos.

“Como o Ministério da Economia decidiu cancelar o censo do ano passado, as empresas de pesquisa usam dados estimados para compor a amostra do eleitorado”, havia dito.
Os cálculos de cada instituto
Antonio Lavareda explica que enquanto o IPEC utiliza 57% de eleitores de 0 a 2 salários mínimos, o Quaest utiliza 38% deste público, o que gera uma inevitável diferença nos resultados.
Para comprovar a hipótese, o cientista político recalculou quais seriam os resultados do IPEC caso o Instituto utilizasse a mesma porcentagem do Quaest sobre os eleitores, segundo as rendas familiares.
“BINGO! O resultado do IPEC seria no primeiro turno: Lula, 43% e Bolsonaro, 35%. Ou seja, a mesma diferença de 8 pontos”, contou.
Os dados
Mas qual amostragem seria a mais correspondente à realidade dos eleitores brasileiros? O GGN tentou consultar os dados tanto junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), como pelo último censo do PNAD do IBGE.
“A Quaest, por exemplo, adota o número de 38% para esse segmento de renda [de 0 a 2 salários mínimos]. Ela justifica sua escolha com base na PNAD do IBGE”, informou Lavareda, à coluna de Noblat no mês passado.
O PNAD do IBGE (acesse os dados aqui), contudo, não traz o segmento de renda segundo os eleitores ou o público apto a votar. E este cruzamento de dados é essencial para se conhecer quantos eleitores estão nesta faixa de renda.
O TSE, por sua vez, coleta dados sobre o perfil do eleitorado. Mas não levanta as estatísticas da renda familiar (confira aqui). Estão aplicadas somente as categorias “estado civil”, “faixa etária”, “gênero”, “grau de instrução”, “nome social” e “pirâmide etária”.
A falta dessas informações faz cada instituto escolher a melhor forma de representar os eleitores por grupos de rendas.
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