O ranking nosso de cada dia
por Nadejda Marques
A gente não consegue dar um passo sem se deparar com um ranking de alguma coisa. As 10 pessoas mais poderosas do mundo segundo a Forbes, a lista das pessoas mais ricas do mundo, a lista Forbes Under 30, as maiores economias do mundo, ranking de insegurança familiar, o ranking da CBF, o ranking do MEC, o ranking do Tinder sobre quão desejável você é, enfim, ranking de todos os tamanhos e para todos os gostos.
O nosso cérebro processa pensamentos de duas formas: uma rápida, intuitiva e emocional e outra lógica, racional e consciente. E, segundo o psicólogo e economista Daniel Kahneman, prêmio Nobel de 2002, tem preferência por tornar a segunda forma (lógica, racional e consciente) mais rápida por artifício de atalhos. Uma certa preguiça mental… É aí que se encaixam bem os rankings. Os nossos cérebros estão viciados em rankings. A situação é tal que nem paramos para pensar como são calculados e por quem. Aceitamos e pronto.
Na semana passada, a Universidade de Columbia, em Nova Iorque, foi o centro de um escândalo ao ser acusada de manipular dados para conseguir uma melhor posição no ranking das universidades americanas publicado pela US News rankings. Uma boa posição nesse ranking além de ser uma ótima propaganda para a instituição influencia seu prestígio entre estudantes, professores e outros funcionários universitários. Estudantes levam esses rankings muito à sério pois o custo de universidades americanas como a Columbia gera em torno de $65,000 ao ano e a maioria das pessoas sempre faz uma avaliação de custo benefício antes de gastar seu rico dinheirinho, ou, como acontece na maioria dos casos, se endividar anos à fio.
A US News rankings faz o seu posicionamento e classificação baseado principalmente em dados enviados pelas próprias universidades sem muita checagem ou fiscalização. Nos últimos anos, muitas universidades americanas melhoraram suas posições no ranking, mas nenhuma de forma tão dramática quanto a Universidade de Columbia, que chegou ao segundo lugar no ano passado. Após a denúncia do professor e ex-diretor do departamento de matemática da Columbia, Michael Thaddeus, a universidade admitiu que usava metodologias inadequadas e/ou incorretas para o cálculo dos dados sobre a qualidade do ensino. Em outras palavras, exagerou nas cifras referentes ao gasto por estudante, mentiu sobre o número de alunos por turma e, consequentemente, a razão professor:aluno e se enganou sobre a qualificação máxima de seus professores. Oficialmente, a universidade retirou seus dados enviados à US News ranking que resolveu calcular por conta própria, com base em dados públicos e federais, a nova posição da universidade chegando a conclusão de que, hoje, a Columbia ocupa o décimo oitavo lugar entre as universidades americanas, mesma colocação de 1988!!!
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Não é o primeiro e nem será o último escândalo envolvendo rankings. Trump mentiu várias vezes sobre seu patrimônio para ser incluido na lista Forbes 400. Na primeira lista Forbes 400 de 1982, Trump aparece como detentor de um patrimônio de $100 milhões de dólares quando na verdade tinha aproximadamente $5 milhões de dólares. Esse era o início de uma fantasia e série de mentiras que moldaram sua imagem como homem de negócios bem-sucedido e o levaram até à Casa Branca. Como disse antes, as pessoas costumam levar esses rankings muito a sério. Sério demais e esquecem que esses atalhos que tomamos podem custar caro, ou pior, ser vias sem volta.
Nadejda Marques é escritora e autora de vários livros dentre eles Nevertheless, They Persist: how women survive, resist and engage to succeed in Silicon Valley sobre a história do sexismo e a dinâmica de gênero atual no Vale do Silício e a autobiografia Nasci Subversiva.
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Leia também:
Economia comparada e a epidemia dos rankings (I), por Luiz Alberto Melchert
Economia Comparada, a febre dos rankings (II), por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
Economia Comparada, a Febre dos Rankings – III, por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
José de Almeida Bispo
20 de setembro de 2022 9:29 amParecem os bailes de “Destaque do Ano”, da década de 1980 em minha cidade. Um malandro profissional pré-arrendava um clube; pré-agendava uma banda; e saía a caça de otários endinheirados, exalando vaidade por todos os poros. E, no fim das contas eram premiados os “famosos quem” (famosos de que ninguém nunca ouviu falar); alimentava a corrupção social, e o espertalhão trocava de carro, o já batido de muitos quilômetros por um zero e lançamento. Só acabou quando um conhecido bandido conseguiu constranger o então único juiz da cidade e até uma freira, já que os clubes não lhe foram simpáticos e a freira, meio por fora do mundo real caiu na conversa de alugar a estrutura de seu respeitável colégio para a presepada.
José Carvalho
20 de setembro de 2022 10:57 amO Mundo vive orientado em função da propaganda, onde parecer e aparentar vale tanto ou mais do que ser. Tudo passa a se constituir em produtos. Então todos querem oferecer a melhor imagem, com o objetivo de conseguir o maior retorno imediato possível e pelo tempo que puder. Quando a racionalidade passa a exercer conscientemente o entendimento específico ao que é cada um, a verdade vem à tona. O que de fato é continuará sendo e o que parecia voltará pra sua realidade. A competição forçada, somada ao desejo de atingir o topo da forma mais rápida, leva muitos a fazer dos atalhos uma solução. Essas competições que são organizadas com algum interesse é bem diferente do que quando você coloca atletas de alguma modalidade em disputa. Nesse caso talentos potenciais mal preparados podem ser superados por atletas que são forjados pela dedicação e esforço maior. É improvável que alguém apenas por parecer ser atleta vá ao pódio. Números precisam ser confiáveis, dependem da idoneidade de quem oferece. Se um número é manipulado para produzir dados equivocados, só será desfeito caso por um motivo ou outro venha à tona. Como orientação para quem quer atingir níveis melhores, podem ser referências válidas até mesmo por não caber todos nessas listas.