Uma série de estudos conduzidos na Universidade Estadual Paulista (Unesp) está redesenhando o que a ciência sabe sobre como os ossos se formam e se regeneram. Os trabalhos mostram que os vasos sanguíneos não são apenas estrutura de suporte, eles participam ativamente da construção e maturação do tecido ósseo, enviando sinais que orientam o comportamento das células responsáveis por formar e manter os ossos.
Os resultados abrem caminho para novas estratégias de regeneração óssea e para o desenvolvimento de terapias baseadas em biomateriais, com potencial impacto especialmente no tratamento de osteoporose e fragilidade esquelética em idosos.
Descoberta
Um dos trabalhos, publicado na revista Cell Biochemistry and Function, identificou que as células que revestem internamente as veias liberam sinais que estimulam células imaturas do osso a se transformarem em osteoblastos, as células responsáveis por formar novos ossos e promover a mineralização do tecido. Esse efeito foi significativamente mais fraco nas células das artérias, indicando que a origem do vaso sanguíneo importa para o processo de formação óssea.
Já um segundo estudo, publicado na Biochimica et Biophysica Acta, revelou que as células musculares lisas dos vasos atuam como “instrutoras” do destino das células ósseas. Por meio de vesículas microscópicas, elas orientam osteoblastos e células-tronco a avançarem para o estágio de osteócitos, células responsáveis por manter e regular o osso ao longo da vida. Esse efeito foi mais intenso quando os vasos estavam em repouso, sem estresse mecânico, sugerindo que o estado de saúde do vaso influencia diretamente a qualidade do esqueleto.
Doenças crônicas
O coordenador dos estudos, professor Willian Fernando Zambuzzi, do Laboratório de Bioensaios e Dinâmica Celular (LaBio) da Unesp em Botucatu, explica que os achados ajudam a entender por que problemas vasculares, comuns no envelhecimento, no diabetes e na hipertensão, frequentemente andam juntos com a fragilidade óssea. “Se o vaso participa ativamente da instrução do tecido ósseo, disfunções vasculares podem repercutir diretamente na qualidade do esqueleto”, afirma.
A conexão com o diabetes também tem explicação biológica: durante a remodelação óssea, proteínas como a osteocalcina são liberadas na circulação e exercem efeitos sobre o metabolismo da glicose no pâncreas. Para Zambuzzi, compreender esse eixo entre vasos e ossos pode abrir pistas para o desenvolvimento de novos biofármacos voltados a doenças crônicas.
Perspectivas
Trabalhando com condições de baixa concentração de oxigênio, o grupo também reuniu evidências de que é possível desenvolver materiais biomiméticos capazes de estimular a regeneração do tecido ósseo. Em estudo publicado no Journal of Biomedical Materials Research, os pesquisadores mostraram que o fosfato de cálcio — molécula com estrutura semelhante ao mineral ósseo — carregado com cobalto estimula a diferenciação dos osteoblastos.
A partir deste ano, Botucatu passa a sediar o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Biologia Óssea e Controle de Doenças Crônicas (INCT-BIOCRON), com base na Unesp, voltado justamente ao papel funcional e endócrino do osso. Os estudos foram realizados com apoio da FAPESP.
*Com informações da Agência Fapesp.
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