Lula não está contribuindo para a politização do povo
por Roberto Bitencourt da Silva
Desde a primeira vez que votei para presidente, em 1994, travo contato com a ruidosa tese do chamado voto útil. Não raro, ela é alardeada pelas hostes petistas, com um propósito exclusivo: beneficiar diretamente os seus candidatos, sobretudo Lula.
Os motivos mudam, mas o objetivo da tese é o mesmo. Nessa eleição, basicamente, o argumento do voto em Lula gira em torno disso, apoiado nos índices de sondagens eleitorais. Não é apresentado pela candidatura qualquer compromisso claro com as aspirações dos trabalhadores. Não são oferecidas propostas e visões alternativas de país, que rompam com as armadilhas e os cânones do liberalismo econômico.
A contar em especial com os pronunciamentos e as entrevistas do ex-presidente Lula, mira-se somente o passado, recordando ações de seus governos que considera convenientes serem lembradas e resgatadas. Ademais, tem reunido uma turma que contribuiu decisivamente para nos trazer ao buraco em que se encontra o Brasil.
Muitos golpistas de 2016, tais como Alckmin e Henrique Meirelles, que participaram da campanha de destituição ilegal de Dilma, da violação da Constituição, colaboraram para a emergência e a gestão do governo ultraliberal, corrupto e entreguista de Temer, que destruiu os direitos trabalhistas e previdenciários, aprofundou a desnacionalização da economia etc.
Pavimentaram a ascensão de Bolsonaro, chefe do governo mais danoso, criminoso e vende pátria já formado no país. Mas, o genocida não saiu do nada, diga-se. Foi fruto da obra daqueles golpistas de 2016, ora concebidos como “democratas”; querem nos convencer.
Que Lula é menos pior do que Bolsonaro é dizer uma banalidade. O atual presidente é um sujeito moralmente deplorável, inimigo declarado dos trabalhadores e vil lambe botas dos esteites. Bolsonaro é um sujeito sórdido, lesa pátria, um instrumento despudorado dos interesses do imperialismo e das classes dominantes domésticas e gringas.
Na comparação entre ambos basta recordar que no governo Bolsonaro 10 milhões de brasileiros a mais foram colocados no desemprego e no subemprego. A taxa de ocupação formal chegou a 50% no período de Lula e Dilma, enquanto mal atinge os 40% com Bolsonaro. A fome se alastrou com o ex-capitão. Porém, claro está, a era lulopetista esteve longe de buscar a ruptura com as mazelas do subdesenvolvimento, da superexploração do trabalho e da dependência tecnológica.
Em todo caso, Lula poderia dar duas doses de contribuição para o debate público e oferecer algum esforço para politizar a nossa gente? Não fez, nem vai fazer, por conta dos compromissos firmados com os de cima. Em uma das horas mais acinzentadas da história republicana, em uma das crises mais profundas, a politização inexiste na corrida eleitoral. Não se tocam nos desafios e dilemas que fundamentam o atraso brasileiro, que nos impõem uma posição subordinada na divisão internacional do trabalho, com graves efeitos no cotidiano.
E Lula não oferece iniciativas mínimas para reverter tal cenário. Seu antigo desenvolvimentismo das experiências de governo sequer se insinua na campanha (mesmo que, como o foi, um desenvolvimentismo mesclado com instrumentos neoliberais, desenvolvimentismo aguado, impulsionado à época pelos preços e o volume das exportações das commodities, bem como pela realização de grandes obras públicas).
Um uso dos excedentes nacionais que fomentou uma considerável geração de empregos, ainda que circunstanciais e instáveis. Como ressaltaria um mestre do desenvolvimentismo cepalino, Celso Furtado, a aplicação de recursos públicos na criação de atividades capazes de criar empregos estáveis e de internalizar tecnologia autóctone supera, e muito, a realização de investimentos em obras cujo resultado não tenha potencial autossustentado de reprodução das condições de preservação do equipamento ou serviço, nem de garantia de empregos consistentes a longo prazo.
Nesse sentido, importa observar que, notadamente no capitalismo periférico, como o nosso, não existe burguesia comprometida com os interesses nacionais. Ela é subalternamente associada ao capital internacional e não possui mais inclinação por inversões na indústria (mas tão só em receber dividendos rápidos e especulativos). Assim, em meio a um crônico e longo processo de desindustrialização da economia brasileira, investimentos públicos em indústrias seriam uma iniciativa muito importante para o país. Contudo, longe está de figurar na campanha de Lula.
Na corrida eleitoral para a Presidência, o que se vê é um misto de alienação, mistificação e ingenuidade. Os candidatos flagrantemente reacionários usam e abusam da cantilena liberal antinacional. Ciro, por sua vez, resolveu perseguir votos nas faixas reacionárias do eleitorado, pagando altos tributos às forças antipopulares e entreguistas.
Que seja portador de expressão política, a rigor, não há um candidato sequer de esquerda concorrendo à Presidência. Nem moderadíssima. Os apoiadores de Lula, que integram movimentos sociais e sindicais, deveriam se dispor a exigir propostas e compromissos do candidato petista, para que este não venha a exercer um eventual governo absolutamente rendido ao grande capital, como já se descortina. Igualmente, para que não se frustrem as já modestas expectativas de amplas faixas das classes populares e médias do eleitorado.
Roberto Bitencourt da Silva – cientista político e historiador.
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Edivaldo Dias de Oliveira
21 de setembro de 2022 10:53 amValhamedeus@, se busca fazer uma campanha de salvação da democracia, juntando tudo e todos que são contra o fascismo. É preciso desenhar? Isso não é hora de formação político/ideológica, pois isso vai desagregar.