1 de julho de 2026

A retomada do setor naval como uma força-motriz para o desenvolvimento brasileiro

Para assegurar a perenidade de políticas de incentivo e dos investimentos na indústria naval é preciso estabelecer metas de curto, médio e longo prazo.

Blog: Democracia e Economia  – Desenvolvimento, Finanças e Política

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

A retomada do setor naval como uma força-motriz para o desenvolvimento brasileiro[1]

por Fernando Amorim Teixeira[2], Paulo Jager[3] e Olímpio Alves dos Santos[4]

O processo de desenvolvimento não é espontâneo nem linear. Para viabilizá-lo é imprescindível comprometimento com o longo prazo e uma conjunção de capacidades públicas e privadas. Deve-se, primeiramente, eleger dentre os segmentos de atividade aqueles que têm características estruturantes, são intensivos em tecnologia e tem potencial de geração de emprego e renda. Em seguida, a partir de diagnósticos apropriados, conhecer as vocações e limitações para que esse setor se desenvolva. Por fim, o Estado deve se apresentar apto para planejar, coordenar e fomentar um ciclo de investimentos.

O Brasil tem milhares de quilômetros de litoral e rotas fluviais e lacustres. O transporte aquaviário num país com esse perfil e as possibilidades abertas pelo pré-sal fazem de uma indústria naval forte e perene uma oportunidade estratégica. Essa indústria se organiza numa longa e complexa cadeia produtiva, movimentando diversos outros ramos de atividade e pode gerar dezenas de milhares de bons empregos e contribuir para o avanço científico e tecnológico. É possível fazê-lo. Apenas no último período de expansão, foram construídas mais de 600 embarcações de diferentes tipos e em diferentes estados do país.

Uma agenda que estabeleça as principais diretrizes para a retomada de tal indústria pode ser considerada o ponto de partida para a formulação e implementação de políticas direcionadas a esse propósito. De antemão, é necessário que as estruturas produtivas setoriais remanescentes sejam reativadas e as obras paradas sejam retomadas. Com essas medidas, em pouco tempo os estaleiros voltariam a operar e se poderia gerar emprego e renda.

Ao mesmo tempo, deve-se atentar que, em razão da escala de produção, há necessidade de uma estrutura de demanda bem organizada e longeva para que os investimentos tanto na indústria de navipeças quanto nos estaleiros sejam economicamente viáveis. Para tanto, é preciso utilizar o poder de compra do setor estatal brasileiro, associando-o a novas e bem-calibradas exigências de conteúdo local, o que está entre potencialidades e pode ser acionado no futuro próximo. Encomendas amplas e volumosas por parte da Petrobras e da própria Marinha de Guerra podem servir como alavancas no curto, médio e longo prazo, por exemplo. Por esta via, se engendrariam outros investimentos em P&D, conjugados a políticas de transferências tecnológicas e de aumento da competitividade visando a internalização de elos mais sofisticados da cadeia produtiva.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn

No que tange a fatores laborais e ambientais, essa política deve estar comprometida com os direitos e as condições de trabalho – o que inclui realizar um programa abrangente de formação e requalificação profissional – e garantir a adoção das medidas necessárias à sustentabilidade ambiental em toda a cadeia produtiva do setor. “Adicionalmente, considerando o estágio avançado das discussões sobre geração de energia eólica offshore no país, [poder-se-ia] assegurar também nesse segmento exigências de conteúdo local que possam gerar demanda na construção de equipamentos e embarcações.”

Sabe-se, contudo, que os investimentos necessários não ocorrerão via comprometimento de capital das próprias empresas ou por meio de adiantamento de recursos pelo sistema financeiro privado – que já deu mostras suficientes de seu pouco apetite em financiar projetos com longa maturação no Brasil. Portanto, deve-se aperfeiçoar o arcabouço institucional voltado ao financiamento ancorado em fontes estáveis – novas e as já existentes, como o Fundo de Marinha Mercante, voltadas a “atender às necessidades associadas às características dos investimentos [, combinando] fundos públicos, bancos de desenvolvimento, dentre outros instrumentos e garantias”. Qualquer agenda dessa natureza, ademais, depende de incentivos fiscais e para garantir o bom uso dos recursos, devem ser criados instrumentos para o acompanhamento da execução dos projetos. A criação de uma mesa tripartite, espaço de “discussão, formulação e acompanhamento das políticas públicas voltadas ao setor” permitiria o efetivo controle social dos impactos sobre emprego, renda e produtividade.

Toda essa agenda, ressalta-se, está ancorada em um binômio soberania-planejamento. Nesse sentido, sua antítese, materializada na Lei 14.301/22 (mais conhecida como “BR do Mar”) precisa ser revogada imediatamente, uma vez que mina as capacidades de implementação de políticas voltadas ao desenvolvimento nacional. Em seu lugar, deve-se privilegiar a criação de um “novo marco legal assegurando que a navegação de cabotagem seja feita com embarcações construídas no Brasil por empresas de bandeira nacional e com tripulação de brasileiros [e estimular] a atuação de empresas brasileiras na navegação de longo curso”. Dentro desse novo marco, a efetiva implantação das hidrovias contribuiria para reconfigurar a matriz de transportes brasileira, reduzindo a dependência do modal rodoviário.

Em suma, para assegurar a perenidade de políticas de incentivo e dos investimentos na indústria naval é preciso estabelecer metas de curto, médio e longo prazo. Ademais, a articulação com políticas de promoção do desenvolvimento social, econômico e tecnológico de maior amplitude permitiria ao setor ser uma das forças-motrizes da retomada do investimento e do crescimento. Países como China, EUA, Coreia do Sul, Japão e Noruega, com uma forte indústria naval, atuam assim. Por fim, se por um lado nosso horizonte temporal se estreitou por conta dos desmontes dos últimos anos, por outro, ainda há tempo para reconstruirmos as bases do tão almejado desenvolvimento econômico e social brasileiro.

Blog: Democracia e Economia  – Desenvolvimento, Finanças e Política

O Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento (FINDE) congrega pesquisadores de universidades e de outras instituições de pesquisa e ensino, interessados em discutir questões acadêmicas relacionadas ao avanço do processo de financeirização e seus impactos sobre o desenvolvimento socioeconômico das economias modernas. Twitter: @Finde_UFF

Grupo de Estudos de Economia e Política (GEEP) do IESP/UERJ é formado por cientistas políticos e economistas. O grupo objetiva estimular o diálogo e interação entre Economia e Política, tanto na formulação teórica quanto na análise da realidade do Brasil e de outros países. Twitter: @Geep_iesp


[1] Esse artigo procura apresentar as ideias básicas do documento “Agenda de diretrizes para a retomada do setor naval – uma contribuição ao desenvolvimento e à soberania nacional”, elaborado por um conjunto de entidades representativas de trabalhadores e patronais que atuam no setor da indústria naval brasileira e está disponível em:
https://d1jma837vts1w4.cloudfront.net/ckeditor_assets/attachments/4143/Agenda_de_Diretrizes_para_a_Retomada_do_Setor_Naval.pdf

[2] Doutorando em economia pela Universidade Federal Fluminense (PPGE/UFF), Pesquisador do FINDE e técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE).

[3] Economista e supervisor do escritório regional do DIEESE no Rio de Janeiro.

[4] Presidente do SENGE-RJ.

Leia também:

Lava Jato provocou 50 mil demissões no setor naval em apenas três anos

Crise virou pretexto para desmontar a indústria naval, diz Lula

Finde/GEEP - Democracia e Economia

O Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento (FINDE) congrega pesquisadores de universidades e de outras instituições de pesquisa e ensino. O Grupo de Estudos de Economia e Política (GEEP) do IESP/UERJ é formado por cientistas políticos e economistas.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados