do Observatório das Eleições
Campo bolsonarista perde protagonismo na redes na reação ao caso Roberto Jefferson
por Alexandre Arns, Bia Calza e Eliara Santana*
No domingo, 23 de outubro, o Brasil ficou perplexo com a atitude do ex-deputado Roberto Jefferson, aliado de Jair Bolsonaro, que disparou mais de 50 tiros de fuzil e atirou duas granadas contras dois agentes da Polícia Federal. O alvoroço nas redes sociais refletiu muito bem a dimensão do evento protagonizado por Jefferson, que teve fortes repercussões para o campo bolsonarista.
A equipe da Editoria de Redes e Desinformação do Observatório das Eleições fez um monitoramento das 24 horas imediatamente após o evento para avaliar a movimentação dos dois grupos de militância nas redes e a repercussão nas duas campanhas. Num primeiro momento, imediatamente após o ataque, os grupos bolsonaristas se movimentaram no sentido de dar apoio ao ato, manifestando uma pretensa defesa da liberdade de expressão e contra a suposta censura do TSE. À medida que decorria o tempo e a repercussão se tornava negativa, essa tendência inicial foi se alterando, mesmo com certa confusão observada no campo bolsoanrista – que passou então a condenar Roberto Jeferson, bem mais tarde, após a manifestação de Jair Bolsonaro. Posteriormente, as tendências de pesquisa do Google a respeito do caso apontam que cada campo militante – dos candidatos Jair Bolsonaro e Lula – buscaram associar a figura do ex-deputado Jefferson ao opositor.
No entanto, parece que a “bomba” Roberto Jefferson caiu mesmo no colo de Bolsonaro. Quando se observam as pesquisas relacionadas ao ex-deputado no Google nas 24 horas após o evento, há um aumento repentino do termo “fotos de Bolsonaro com Roberto Jefferson” e “últimas notícias de Roberto Jefferson”. As pesquisas relacionadas à busca por Bolsonaro é similar, com “fotos de Bolsonaro com Roberto Jefferson” e “Bolsonaro com Roberto Jefferson”. Já em relação às buscas por “Lula” no mesmo período, há um aumento repentino de pesquisas relacionadas a temas como “Roberto Jefferson mensalão”, “Lula fujão” e “Roberto Jefferson com Lula”.

A movimentação no Twitter
No domingo, imediatamente após Roberto Jefferson resistir à prisão e ferir os policiais federais que cumpriam mandado de busca em sua casa com fuzis e granada, o campo lulista rapidamente dominou a narrativa no Twitter ligando Jefferson a Bolsonaro. Roberto Jefferson, do PTB, é apoiador confesso do presidente e se diz articulador informal da campanha pela reeleição.
Enquanto Jair Bolsonaro não se manifestava oficialmente sobre o episódio, seus apoiadores estavam claramente atônitos: ora defendendo Roberto Jefferson no Twitter, ora minimizando sua reação. Por exemplo, o deputado federal Otoni de Paula gravou um vídeo dizendo que havia conseguido “falar com a assessoria do nosso presidente” e que “o presidente já tomou a decisão de mandar as Forças Armadas proteger o nosso Roberto Jefferson”.
Após Bolsonaro publicar no Twitter, às 19:12 horas do dia 23, vídeo seu dizendo que determinou ao seu Ministro da Justiça a prisão do seu apoiador, Roberto Jefferrson,, houve um trabalho por parte de sua militância para desassociar a imagem do presidente do agora visto como criminoso Roberto Jefferson. Em poucos minutos, os perfis influenciadores pró-bolsonaro estavam tuitando fotos antigas de quando Roberto Jefferson era deputado e aparecia com Lula.
A oposição novamente reagiu, divulgando diversas fotos, vídeos e momentos que comprovam a ligação atual de Roberto Jefferson com o presidente.
Disputa de narrativas
Na escalada da disputa de narrativas, o campo lulista realizou uma ampla ofensiva denunciando a associação de Roberto Jefferson com o conjunto da família Bolsonaro, especificamente Eduardo Bolsonaro. O campo bolsonarista tentou articular uma reação, buscando associar a figura de Jefferson à de Lula. A consequência desse movimento pode ser verificada no aumento de pesquisas de pesquisas relacionadas ao nome de Roberto Jefferson ao longo do dia 24 de outubro. Entre as 10h e 14h da segunda-feira, as quatro principais pesquisas relacionadas ao nome de Roberto Jefferson, de acordo com o Google Trends, foram: “Eduardo Bolsonaro”, “Advogado Roberto Jefferson”, “Eduardo Bolsonaro Roberto Jefferson” e “Roberto Jefferson apoia quem?”. A ascensão da pergunta “Roberto Jefferson apoia quem?” é sintoma da tática de tentar produzir dúvidas no eleitorado incauto.
E nesse quesito da disputa de narrativas em relação ao caso Roberto Jefferson, o campo bolsonarista se perdeu e perdeu o protagonismo nas redes, sendo incapaz de pautar o debate, naquele momento, e de descolar a figura do ex-deputado da figura do presidente e candidato Jair Bolsonaro.
Alexandre Arns Gonzales é doutor em Ciência Política, bolsista de pós-doutorado e pesquisador colaborador do IPOL da UnB.
Bia Calza é mestranda em Ciência Política na Universidade de Brasília e pesquisa desinformação política. É estrategista de comunicação política da Avaaz no Brasil.
Eliara Santana é jornalista, doutora em Linguística e pesquisadora do Observatório das Eleições, onde é uma das coordenadoras da Editoria de Redes e Desinformação
*Esse artigo foi elaborado no âmbito do projeto Observatório das Eleições 2022, uma iniciativa do Instituto da Democracia e Democratização da Comunicação. Sediado na UFMG, conta com a participação de grupos de pesquisa de várias universidades brasileiras. Para mais informações, ver: www.observatoriodaseleicoes.com.br.
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