Dr. Galotti (2), por Walnice Nogueira Galvão
O dr. Galotti continuaria atento àquilo que considerava seu dever de guardião: a memória de Euclides da Cunha. Nos anos 80, quando apareceram sinais de rachadura na velha ponte, moveu céus e terras, criando uma celeuma em defesa. Buscando maior repercussão, promoveu em São Paulo um evento tendo por título “A ponte de Euclides: monumento nacional ameaçado”. Convocou-me para várias atividades, inclusive uma mesa-redonda, que presidiu, para falar sobre a importância da ponte de Euclides. Mais uma missão levada a bom termo: a ponte teve sua estrutura reforçada.
A certa altura, tive a oportunidade raríssima de reumir alguns dos mais importantes euclidianos para uma mesa-redonda em São Paulo, já que a Editora Ática, na pessoa de seu proprietário Anderson Dias, apoiava a iniciativa. Foram eles: o dr. Galotti, naturalmente; e mais José Calasans, historiador baiano e maior autoridade em Guerra de Canudos; o euclidiano fervoroso Antonio Houaiss; e Franklin de Oliveira, autor de um livro erudito e fundamental: Euclides: a espada e a letra. Calasans veio de Salvador, os dois últimos do Rio de Janeiro. Era o que se poderia chamar um naipe ímpar. É claro que se engalfinharam, discutiram com calor durante algumas horas e disseram coisas preciosas. O debate foi gravado e seria tornado público no livro Euclidianos e conseleiristas.
Ninguém mais qualificado que o dr. Galotti para ser meu parceiro no preparo da correspondência de Euclides. Incomodava-me que ele sempre se mostrasse disposto a ajudar os outros e fazer a pesquisa de base de trabalhos alheios, sem que seu nome figurasse como co-autor. Assim labutamos por largo período de tempo, do início à edição decorrendo 8 anos. Mas foi um prazer trabalhar com alguém tão dedicado – e lá está seu nome na capa do livro. É um nome que ressuma espírito democrático e modéstia, de um trabalhador avesso a honrarias e prebendas. E a Semana continua firme, em seu papel único de monumento à memória de um escritor.
O dr. Galotti deixou em testamento toda a sua preciosa coleção – a maior do mundo – para o Centro Cultural Euclides da Cunha, que assim se tornou a meca dos estudiosos brasileiros e estrangeiros.
Hoje existe o Instituto Cultural Oswaldo Galotti, com portal que pode ser consultado, dedicado à memória e dando continuidade aos feitos deste cidadão benemérito.
EXCERTOS DO DEBATE
OSWALDO GALOTTI
Viria, então, de início, uma interrogação: mas qual era o sentido da vida de Euclides, quer dizer, o que Euclides pretendia, ou ainda mais: qual era o rumo de Euclides, qual era o objetivo? Se a gente quiser complicar um pouco mais: qual era a ideologia de Euclides? Ou ainda mais: como Euclides via o mundo? Nós já chegamos à conclusão de que os temas de Euclides são temas universais.
ANTONIO HOUAISS
E obviamente a leitura que fiz naquele então, deu-me apenas uma medida, ou duas. Primeiro, eu degustava a língua portuguesa, e pela primeira vez, naquilo que ela tem de cadenciado, de rítmico, de racional, de … inebriante, tanto quanto, repito, o elemento de logicidade com que o homem pode enfrentar os seus problemas. Era talvez o primeiro livro de ensaismo que eu lia, e sei que me marcou definitivamente.
FRANKLIN DE OLIVEIRA
Acho que, realmente, um estudo dessa ordem, não é?, pegaria o Euclides, inclusive o Euclides geógrafo! Porque seria preciso verificar qual é a ciência que chega ao Brasil na época, compreendem? Mas a ciência, já do final do século XIX, começo do século XX, não era toda a ciência reacionária a que ele se agarrou. Não era exclusivamente essa, de maneira que todos os autores em que ele se abeberou, fartamente, sem nenhum, sem procurar discernir criticamente o que estava engolindo, formavam essa ciência reacionária.
JOSÉ CALASANS
… mas o termo que Euclides usa é bem preciso: degolavam. Agora, uma indagação minha. Até que ponto o livro de Euclides teria servido à guerra de Antonio Conselheiro? Se não fosse o Euclides, nós teríamos as mesmas condições para avaliar o que foi aquele movimento do Conselheiro? Porque o Conselheiro, vítima das contradições do Euclides: o Conselheiro fica preso no que eu chamo “a gaiola de ouro de Os sertões.”
Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP
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