26 de junho de 2026

O xaxado e a Ópera de Pequim, por Walnice Nogueira Galvão

Não se espantem se daqui a 100 anos aparecer integrada a uma “ópera de pequim” brasileira um xaxado cangaceiro
Grupo de Danças Zabele de Pirapora - Reprodução

No Nordeste, grupo dança xaxado fantasiado de cangaceiros, com figurino inspirado em Lampião e Maria Bonita.
A dança imita movimentos de luta e canta repertório do cangaço, acompanhada por banda de pífanos de Caruaru.
Autor destaca tradição oral do Nordeste e compara xaxado à complexidade da Ópera de Pequim e cultura popular.

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O xaxado e a Ópera de Pequim

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por Walnice Nogueira Galvão

Ultimamente, uma manifestação de dança surgiu, multiplicou-se e se firmou no Nordeste. Ao som do xaxado, um grupo seleto de rapazes e moças, aos pares, bailam fantasiados de cangaceiros estilizados.

Os homens se vestem a preceito, naquilo que foi uma adaptação do encourado pacífico para místeres de guerra, tal como ficou registrado pela câmera de Benjamin Abraão. Duas cartucheiras cruzadas ao peito, punhal de sangrar, facão de abrir caminho no mato, O chapéu de couro com aba frontal larga incrustada de estrelas de prata, a testeita com moedas pendentes. Um embornal bordado sob cada braço, com alpercatas, ou precatas, de couro cru. No pescoço, um lenço colorido, nas mãos cobertas de anéis um rifle. Nada que não esteja em exibição no mais antigo Museu do Cangaço, em Serra Talhada (PE), ou nos muitos similares que foram proliferando com o passar do tempo. Serra Talhada, que hoje consta como berço de Lampião, faz lembrar crônicas de Graciliano Ramos (Viventes das Alagoas, Cangaços) em que ele declara lealmente que Lampião nasceu em vários Estados. Pelo menos cinco, que disputam a honra.

Já as moças usam uma derivação ou adaptação desse modelo, e procuram imitar o figurino de Maria Bonita, companheira de Lampião: saia, meias grossas de algodão até o joelho, jaleco de couro e o mesmo chapéu típico “de cangaceiro”.

O grupo dança em duas fileiras e em roda, ou às vezes em pares enlaçados, sempre ao som do xaxado. Esta dança do sertão, de nome onomatopaico imitando o arrastar das alpercatas na caatinga, tem sua origem atribuída aos bandos de cangaceiros.  Os brincantes mimetizam, manejando o rifle, os movimentos da luta e entoam canções que vêm do cangaço, como “Mulher rendeira”, ou então do repertório anônimo sertanejo, bem como composições de Luiz Gonzaga. Acompanha-os uma banda de pífanos, pequeno conjunto de duas flautas, caixa ou tarol, zabumba. A mais conhecida é a de Caruaru, que geralmente identifica o gênero.

Do outro lado do mundo, foram perquirir os rastros de Homero os pesquisadores de Harvard Milman Perry e Albert Lord,  como lemos em The singer of tales, de autoria do segundo. Deles, só temos a lamentar a escolha do território: os Bálcãs

Conhecia-se ali a existência de uma forte tradição de poetas-cantores-autores-improvisadores, capazes de um desempenho que levava horas. Pensa cá a brasileira: porque não vieram ao Nordeste, onde está mais viva que nunca a tradição da literatura de cordel, também oral e também representada por poetas-cantores-autores-improvisadores?

Ora, direis, Homero passa longe do romance de cordel – o que é verdade, mas também passa longe da poesia dos Bálcãs, como os estudiosos vieram a descobrir, para sua decepção.

Ah, se tivessem ido ao Nordeste… Mário de Andrade suspeitou desse filão, como se pode observar em muitos de seus trabalhos, especialmente naqueles dedicados ao repentista sertanejo Chico Antonio.

Quem assiste a um espetáculo da Ópera de Pequim, fica siderado por seu cunho monumental. Não se sabe o que mais admirar naquela amálgama de canto, dança, música instrumental, cenários e figurinos fantásticos, pintura corporal, artes marciais, mímica, literatura, entrechos milenares em que se misturam reis, rainhas, deuses, animais antropomórficos… E mal se vislumbram elementos que vêm de milênios, sucessivamente modificados, comprimidos, fragmentados, mesclados… e que agora se apresentam como qualquer coisa menos verdade histórica.

Ao ver a coreografia jagunça, deve-se ter em mente o tesouro que é o romance de cordel, mais a obra de Luiz Gonzaga, acrescentando-se o Romance de 30, mais muita poesia erudita de João Cabral de Mello Neto, e ainda a telenovela, sem falar nas teses universitárias e pesquisas de campo. Só o nordestern, apelido carinhoso de todo um gênero, já computa perto de uma centena de filmes, segundo o pesquisador especialista no tema Luiz Felipe Miranda. É todo um imaginário que foi aos poucos tomando vulto.

Não se espantem se daqui a 100 anos aparecer integrada a uma “ópera de pequim” brasileira um xaxado cangaceiro, sem que se distinga muito bem de onde veio.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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Walnice Nogueira Galvão

Professora Emérita da FFLCH-USP

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