Laocoonte no Ibirapuera
por Walnice Nogueira Galvão
A crônica de Laocoonte vem de longe: salta das páginas da Eneida, onde figura no episódio do Cavalo de Tróia. O sacerdote Laocoonte opôs-se à horda de troianos em euforia, que se julgavam beneficiados pelos deuses já que presenteados com o Cavalo. Os deuses então enviaram serpentes marinhas que o estrangularam, juntamente com seus filhos. E, no entanto, eles tinham razão… o que é um bom exemplo de ironia trágica. Famosos versos saem da boca de Laocoonte e ressoam pelas tempos afora:
“Timeo Dannaos et dona ferentes” (aproximadamente: Temo os gregos, sobretudo portando presentes)
Em 1506, em pleno Renascimento italiano, é desenterrada em Roma uma enorme escultura de mármore, representando Laocoonte e seus filhos asfixiados pelas serpentes. Fez sensação, e até hoje, quando reside nos Museus do Vaticano, é das recordistas de visitações. De datação incerta, pertence sem dúvida ao período greco-romano-helenístico de virada de milênio, visível no excesso de drama, nas contorções das personagens, em suas expressões de sofrimento e horror. Foi farol da arte da Antiguidade.
Foi foco durante longo tempo: era uma escultura contemplada e estudada, alvo da formação de lendas urbanas. Por exemplo: faltando o braço direito, muitos eram a favor da reconstituição do braço erguido, enquanto outros eram a favor do braço dobrado para trás. Michelangelo era a favor da segunda hipótese, enquanto Rafael era a favor da primeira, que acabou predominando. Todavia, em 1957 achou-se um fragmento desse braço e confirmou-se o alvitre de Michelangelo, sendo a obra restaurada nessa posição, tal como se vê hoje nos Museus do Vaticano.
Mas as repercussões atingiram “nosso” Laocoonte. Obra dos alunos e professores do Liceu de Artes e Ofícios que a fundiram em bronze conforme moldes enviados pela Itália, fez-se presente na inauguração do Parque Ibirapuera em 1954. E como os moldes respeitassem a concepção anterior, portanto com o braço direito erguido, nosso Laocoonte difere nisso do original no Vaticano.
Sorte nossa termos a réplica de uma das maiores e mais célebres esculturas do mundo, ali mesmo ao ar livre, fácil de achar embora um tanto escondida. Fica perto do Monumento às Bandeiras, na confluência dos Portões 9 e 9A, num larguinho triangular chamado Praça das Cobras, ao lado do lago maior. À nossa réplica falta um dedo.
A Manuel Bandeira não passou despercebida a similaridade entre Laocoonte e Ugolino, tanto que os colocou no mesmo poema, “O cacto”:
“Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.”
Ambos representam o grupo Pai + Filhos, todos martirizados. Ugolino é muito conhecido, e mesmo notório, como personagem da Divina Comédia, mas de outras aparições igualmente. Figura histórica dos embates entre guelfos e guibelinos no séc. XIII de Pisa, entre as muitas peripécias de sua vida a mais famosa é sua morte. Atirado numa masmorra por seus inimigos, juntamente com os filhos, foram todos trancados e deixados para morrer de inanição. Por fim, consta que se entredevoraram, segundo certas versões, sendo esse o castigo destinado a Ugolino acusado de traição – pois violou as normas da suserania e se ergueu contra seu senhor.
Voltaria aos holofotes muito mais tarde, ao ser esculpido por Jean-Baptiste Carpeaux no final do séd. XIX, e mais ainda por Rodin, que o incluiu na Porta do Inferno. A escultura de Carpeuax foi vista pela última vez no Petit Palais, em Paris, bem como no Orsay. Os Ugolinos de ambos inspiraram-se no Laocoonte da Antiguidade.
Entusiasta da Divina Comédia, que estudaria obsessivamente, Jorge Luiz Borges examinou-a com minúcia e rigor. A certa altura, eram tantos seus estudos que pôde reuni-los num volume, intitulado Nove ensaios sobre Dante. São interessantíssimos e mostram um aficionado leal e fiel. Mas, como que não resistindo a sua natureza, de perquiridor intimorato e arrevesado, Borges chega a formular um paradoxo curioso. Pois, diz ele, quem autorizou Dante a ser sacrílego e blasfemo, decidindo quem vai ou não para o Inferno, usurpando a função de Deus? Fica a interrogação.
Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP
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