26 de junho de 2026

Águas Cessantes, por Walnice Nogueira Galvão

No poema do inglês T.S.Eliot, a cessação das águas é o símbolo maior  da esterilidade espiritual humana e talvez cósmica.
T. S. Eliot - Reprodução

Águas Cessantes

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por Walnice Nogueira Galvão

Um dos mais influentes poemas do século XX,  profundamente associado ao modernismo, é The waste land, de T. S. Eliot. Publicado em 1922 – ano da Semana de Arte Moderna – profere uma lamentação sobre  o fim da civilização, assinalado pela Primeira Guerra e sua carnificina, que desmentiu o avanço das luzes no farol do mundo que era a Europa. O que se viu nos campos de batalha jamais se vira e detonou o otimismo confiante no progresso. Chancela do reconhecimento público de sua eminência, o poeta receberia o Prêmio Nobel.

Extremamente moderno no uso da linguagem, mas sobretudo na mistura de gêneros, que vão do erudito ao coloquial, afora ser a culminação da arte poética, ficou indelével por ainda outro motivo. O poema traz a excentricidade de ter notas de rodapé! Algo inusitado.

Após a intervenção de Ezra Pound, primeiro leitor do poema e alvo da lisonjeira dedicatória, famosa por chamá-lo de “Il miglior fabbro”, epíteto tomado a Dante, T.S.Eliot decidiu revelar lealmente suas fontes. Com minúcia, verso por verso, foi mostrando de onde vinham as imagens e mesmo as ideias. Basta dizer que, na edição bilíngue de Ivan Junqueira, as notas a seguir ao poema ocupam 5 páginas, em letra miúda.

Para surpresa dos leitores, vem em primeiro lugar e enfaticamente sublinhado,  Do ritual ao romance (1920), da medievalista inglesa Jessie L. Weston. O livro de Weston, notório a partir de então, devota-se a buscar nas lendas pagãs e no folclore as fontes da demanda do Santo Graal e da novela de cavalaria, remontando até o budismo.

Em segundo lugar, T.S.Eliot aponta o – este sim – reputado a seu tempo O ramo de ouro (1890), de James G. Frazer, livro de antropologia cultural ou, como reza o subtítulo, de religião comparada. Mais tarde, Bachelard escreveria A água e os sonhos.

O alcance da erudição de T.S.Eliot é de fato espantoso. Mesmo que ele opere com citações, e não com assuntos que conheça a fundo. Nas notas misturam-se a Divina Comédia,  o Rig-Veda, Catulo, Ovídio e Virgílio (estes em latim), Santo Agostinho, para não falar nos poetas das línguas europeias modernas, abundantes.

Mas o que interessa aqui para nosso argumento é a passagem das águas cessantes, fornecida por Jessie L. Weston (cap. III, “The freeing of the waters”)

O “cativeiro dos rios” aparece no Rig-Veda e n`A demanda do Santo Graal. Responsáveis pela “liberação dos rios” são, no primeiro caso, o deus Indra, e no segundo tanto Gawain quanto Perceval. Demônios ou monstros tinham aprisionado os rios, transformando-os em “águas cessantes”  Se os rios secam e sonegam a cheia anual, a terra não é fertilizada, donde a waste land de T.S.Eliot. Heródoto já tinha observado que o Egito é um dom do Nilo.

No poema inglês, a cessação das águas é o símbolo maior  da esterilidade espiritual humana e talvez cósmica, de que a terra – a waste land – e o mundo atual estão acometidos.

O mitema tem braços longos e vai ressurgir em Guimarães Rosa. O conto “Uma estória de amor”, de Corpo de Baile, tem como protagonista Manuelzão, que subiu na vida à custa de muito suor e sacrifícios pessoais. Ao oferecer uma festa na consagração da capelinha que mandou erguer, abre-se a ocasião para uma reflexão, logo recalcada, sobre algo que se perdeu na trajetória. Algo de espontâneo e de vital, deixando em seu lugar o vazio, uma certa esterilidade do espírito, ou aquilo que os teólogos chamam de acedia – uma aridez dos afetos, ou “deserto da alma”. Ele não consegue sequer amar o único filho.

Manuelzão em vão apura o ouvido, à cata do marulhar de um olho-d´água que não brota mais, FLUINDO VIVO só na recordação, PELA AUSÊNCIA, por isso alcunhado de “Seco Riacho”.

Na trajetória algo se perdeu. Algo de expontâneo, de vital, de impetuoso, de abandono. Só restando uma certa atonia existencial.

É difícil ler o conto sem lembrar um célebre rio seco, ou uede, o Vaza-barris, que passa (ou não passa) por Canudos. Ele entra na tessitura de imagens bíblicas sistematicamente invertidas de Os sertões. O Vaza-barris comparece como a inversão demoníaca do Rio da Água da Vida, que corre na Cidade de Deus, no Apocalipse, garantindo vida eterna a quem nele se dessedenta.       

E assim fazem mais algumas de suas aparições as águas cessantes.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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Professora Emérita da FFLCH-USP

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