A propósito de memória
por Walnice Nogueira Galvão
Quando Marcel Proust encetou seu monumental Em busca do tempo perdido em 7 volumes, já foi falando de recordações desde a primeira linha. A memória seria seu grande tema. Como o tempo já passou, conforme implicado no título, só poderemos acessá-lo por meio da memória. Mas a mais importante não é a memória voluntária, e sim a memória involuntária, ou seja, esses lampejos de lembrança que nos acometem sem que queiramos ou procuremos, sem esforço de nossa parte. Tudo conforme o figurino tomado emprestado de Bergson.
Entretanto, a memória involuntária é deflagrada por um estímulo físico e até corporal, como por exemplo o desnível num tapete gasto, sentido pelos pés que tateiam. O celebérrimo paradigma, que se tornou um lugar-comum da língua coloquial, e a madeleine. O singelo bolinho em forma de concha marinha e perfumado com casca de limão, quando embebido no chá da xícara catapulta num átimo o narrador a infância. Alerto que o bolinho é supremamente sem graça, insosso mesmo, mas é vendido em saquinhos na loja de suvenires da casa de Tante Léonie, em Illiers- Combray, casa tombada e convertida em museu.
A memória, assim, é guindada a única fonte de transcendência, de acesso ao belo, portal para a arte e a estética. E ainda ao sublime, ao conhecimento, talvez? O último volume dedica-se a essas elucubrações, aqui muito simplificadas, à guisa de síntese depois de 6 volumes de porfiada análise.
Quando Jorge Luiz Borges escreve “Funes, o memorioso”, talvez não estivesse pensando em Proust – mas tudo é possível nesse escritor sorna, dado a negaceios, mordaz como poucos. E sempre arrevesado. Ele confronta o endeusamento da memória e vai mostrar seus males, argumentando que ela é fonte de infinito sofrimento. Semelhante ao que fez com a biblioteca de Babel, que, devido à megalomania do projeto de abarcar toda a memória da humanidade, somando-se ainda acréscimos incessantes, acaba travando as possibilidades de utilização.
Informação não é conhecimento, e aliás é inimiga dele, pois oblitera a ausência do conhecimento em que não se metamorfoseia. É mais uma reflexão de Borges que assume os contornos, a posteriori naturalmente, do que Euclides da Cunha, em seus oximoros sofisticados, chamou de “profecias retrospectivas”.
Funes lembra de tudo e não consegue esquecer-se de nada, o que faz de sua vida um tormento. Acabrunhado pelas lembranças, recorda cada minuto e cada matiz das nuvens, ou seja, cada minúscula insignificância. Jazendo na cama, paralisado pelas reminiscências, é como emprega seu tempo. Eis como Funes metaforiza sua memória de maneira violenta, ao dizer que ela é um “despejadouro de lixos”. O único consolo é que morreu cedo.
Já Brecht, grande poeta perito em dinamitar a aparência, parte decidido a acabar com o elogio. Em poema que procede à enumeração de uma série de indagações, vai mostrando os malefícios da memória: como barra o avanço, a transformação, o movimento, como é amiga do conservadorismo e do marasmo. E termina com esta joia, mais significativa ainda se aplicada à militância:
“Como iria, quem foi ao chão seis vezes,
Levantar-se uma sétima vez …?”
Vale a pena cotejar, entre as muitas traduções destes versos, duas delas, separadas por duas décadas. Acima a de Geir Campos (1966) e em seguida a de Paulo César de Souza (1986):
“Como se ergueria pela sétima vez
Aquele derrubado seis vezes…?”
Entre ambas, só pequenas divergências, como aliás no restante do poema. Apartam-se mais no título, que Paulo César de Souza traduz como:
“Elogio do esquecimento”
Já Geir Campos prefere:
“Louvação da desmemoria”
Todo esse desenvolvimento encaminha o poema para seu gran finale, resumindo o argumento em favor da desmemoria numa fórmula abstrata. Na tradução de Paulo César de Souza:
“A fraqueza da memória
Dá força ao homem”
Enquanto na de Geir Campos é assim:
“É a fraqueza da memória que dá
força à criatura humana”
De qualquer modo, uma beleza.
Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP
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