Batalhas
por Walnice Nogueira Galvão
Uma característica irmana os romances Vineland ( em que se baseia o filme Uma batalha após a outra) e Um estranho no ninho: ambos são clássicos da contracultura. E talvez tenham mais um ponto em comum, pois renderam grandes filmes. E isso depois do fiasco do Oscar 1969, quando o mundo em polvorosa de 1968 não foi suficiente para garantir um galardão a Easy rider, o filme que melhor o representa.
Um estranho no ninho, de Ken Kesey, parábola libertária acusando uma sociedade totalitátia, levaria os principais prêmios no Oscar de 1975. Já Vineland, de Thomas Pynchon, esperou quase quatro décadas para encontrar um realizador à altura, e esse seria Paul Thomas Anderson, rebelde e independente. O filme se diz ”inspirado” no romance, que sofreu muitas modificações. As principais são concessões aos tempos, com predominância das mulheres, e aliás das mulheres negras. No romance, o racismo não era a tônica, mas sim a desobediência civil.
Já no modo de reminiscências narradas por jornalistas, surgiria à época como registro primordial o livro de Tom Wolfe, The electric Kool-aid acid test. O livro relata as façanhas do bando de Ken Kesey com seu onibus psicodélico atravessando o país, até marcando presença em Woodstock, enquanto os passageiros se empanturravam de LSD.
Ken Kesey no auge dos acontecimentos, ou Pynchon em balanço décadas depois: o que é mais interessante em ambos é a promoção dos anti-heróis a heróis. Aqueles que deveriam ser heróis são horríveis e aqueles que não deram certo na vida, os losers, é que são os heróis. Em Um estranho no ninho, o louco internado no hospício lidera a resistência ao abuso totalitário. Em Vineland , é o fracassado em cuja vida nada deu certo, que se tornou maconheiro e alcoólatra, vivendo das migalhas do sistema que despreza e que o despreza. Mas é ele a figura ética da trama, e não os que subiram na vida. Herói é quem não se rende.
Três excelentes atores ocupam os papeis masculinos: Leonardo Di Caprio, Benicio Del Toro e Sean Penn. Mas é este último quem sobressai, na figura do vilão, um militar, o coronel Lockjaw. Sua composição de um homem detestável é impecável – pois o que poderia ser pior do que querer matar a própria filha? E só para que não descubram seu deslize racial que gerou uma filha mulata, o que o impediria de ser aceito na seleta agremiação dos supremacistas brancos. Sean Penn compõe um militar com bíceps de Popeye, topete caindo na testa, pisando duro com excesso de músculos em sua farda camuflada, e implacável. Ele já era um grande ator, mas agora se excedeu. É hediondo – e merecia um Oscar.
O filme monta uma corrida contra o tempo de dois pais que disputam uma filha. O pai biológico para matá-la, o outro, pai solo que a criou sem mãe, para salvá-la. E temina numa nota de esperança, pois a menina sai apressada para uma manifestação em Oakland, a 3 horas de distância.
Abundam simpáticas alusões a essa gente e a essa tradição. Assim, por exemplo, o filme retrata e explicita a continuidade com a Underground Railroad de Harriet Tubman, que contrabandeava escravos para a liberdade. Agora cuidam-se dos imigrantes latinos, com esconderijos e refúgios, incluindo um convento de freiras plantadoras de maconha. O codinome de um dos militantes é Gringo Zapata. A certa altura, alguém está assistindo o filme A batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo, ícone dos filmes revolucionários dos anos 60. Eles se saúdam erguendo o punho cerrado e bradando : “Viva la revolución!” Desfilam cortejos de pobres-coitados diante de nossos olhos, sobretudo mulheres e crianças, por túneis e subterrâneos, fugindo de La Migra. Os oprimidos de hoje são os imigrantes de origem hispânica, caçados no meio da rua.
O roteiro capricha em nomes bizarros, e muito divertidos, como o da misteriosa protagonista Perfidia Beverly Hills. A sequência final tem como trilha sonora o bolero “Perfidia”, na gravação do Trio Los Panchos, que foi sucesso à época.
E assim por diante, neste filme que se esmera na homenagem à grande tradição da desobediência civil e da dissidência nos Estados Unidos.
Resistência é isso: depois de uma batalha, virá outra, a perder de vista – e nunca termina…
Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP
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