21 de maio de 2026

Luiz Gonzaga – Légua Tirana, por Walnice Nogueira Galvão

A grande arte de Luiz Gonzaga integra à sua música toques de aboio e inflexões do cego de feira, que canta ao som do ganzá.
Divulgação

O filme “Luiz Gonzaga – Légua Tirana” retrata a migração nordestina para o Sul e a infância do músico no sertão.
Luiz Gonzaga, o Bardo do Sertão, produziu etnografia musical da região, destacando canções como “Asa Branca”.
O filme foca na infância e juventude, mostrando cenas do sertão e a formação do artista até a maturidade.

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Luiz Gonzaga – Légua Tirana

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por Walnice Nogueira Galvão

O movimento migratório que devagar foi transferindo gente do Nordeste para o Sul teve muitas consequências, algumas ainda pouco assimiladas. E operou a industrialização de São Paulo, bem como a verticalização de duas metrópoles.

O ponto de viragem é 1930, quando o Censo anota os primeiros sinais de uma tendência que se avolumaria até tornar-se avalanche. Deu-se a inversão da balança: dos 70 % da população rural de então, passou-se aos 70% da população urbana hoje. Foi assim que São Paulo cresceu 12 vezes, ou 21 vezes se consideramos a Área Metropolitana. São epifenômenos dessa expansão desmesurada tanto Lula quanto Luiz Gonzaga.

No início, o contingente nordestino era incorporado à força de trabalho sulista no mais baixo nível da qualificação profissional, ou seja, nenhuma. Mas aos poucos formaria a elite do proletariado – os metalúrgicos, que criariam um sindicato forte sob a ditadura.

Tudo isso vem à mente ao assistir-se o filme Luiz Gonzaga – Légua tirana, que ganha adesão imediata ao lindo título. A arte é do letrista Humberto Teixeira, parceiro-mor.

Hoje ninguém disputa a Luiz Gonzaga o título de Bardo do Sertão. Ao longo dos anos, ele foi produzindo uma verdadeira etnografia da região e de seus habitantes. Uma das primeiras canções é a icônica “Asa branca”, que tematiza a dura sina dos migrantes. Quando fala em pau de arara, está-se referindo à condução utilizada para chegar ao Sul em não mais que 12 dias. Fala ainda da rivalidade com o pai também sanfoneiro. As belezas de andar a pé. O rio São Francisco, o juazeiro. Os sustos que a menina-moça dá ao pai. O baile. As oportunidades amatórias da labuta na peneiração da farinha. E até pequenas fábulas que correm o sertão, como a de Xanduzinha, que trocou um casamento próspero por um grande amor. A ressaltar certos matizes como a delicadeza de “Estrada do Canindé” ou “O xote das meninas” (enfeitado pela bela metáfora do mandacaru quando fulora na  seca­), a malícia de “Farinhada”  e de “Peneirou xerém”, a solenidade de “Boiadeiro” … Mas sempre com alegria e  graça.

Até a morte permaneceu atento e uma de suas últimas composições é o “Xote ecologico”, em que alerta para a poluição e o desmatamento, citando Chico Mendes. Pouco se sabe, mas o fato é que o ex-soldado fez questão de gravar a maldita “Pra não dizer que não falei de flores”, de Geraldo Vandré.

Percebe-se que o filme procura seu caminho, para escapar tanto à biografia convencional quanto à ficção fantástica – o que é admirável.

Um tal caminho implica em manter o foco sobre a infância e a chegada à idade adulta, quando o filme cessa abruptamente. E, mais importante ainda, o partido tomado é picotar a narrativa em episódios ou esquetes, que produzem cenas do sertão.

Têm lugar a seca e os retirantes; as paredes de pau-a-pique; o padre; as namoradas; o pai sanfoneiro, de quem herdou o talento e a vocação; o menino rústico que não sabia usar talheres à mesa; o desejo de estudar e aprender a ler; a mãe diligente, sempre ocupada; a proteção do coronel padrinho; e assim por diante. Vemos até um penitente munido de matraca, que, sobrevivente de Canudos, vocifera coisas meio desconexas. 

A notar: o menininho e o jovem, ambos de cara redonda,  remetendo à famosa cara de lua do músico – devidamente alcunhado de Lua. A cor de cobre foi igualmente respeitada.

Deter-se no limiar da maturidade impede que o filme trate um dado decisivo: a troca da sanfona de oito baixos, pela de cento e vinte baixos. O som muito mais poderoso abrirá oportunidade para um grande músico. Talvez fosse desejável um maior entrosamento entre as cenas da vida e as canções, ao menos as mais célebres.

Afora o interesse temático da etnografia do sertão, a grande arte de Luiz Gonzaga integra à sua música toques de aboio e  inflexões do cego de feira, que canta ao som do ganzá. Tampouco  faltam incorporações do coloquial sertanejo, em que ele sempre se esmerou. A famosa autenticidade de Luiz Gonzaga escora nesses elementos. E foi ele quem trouxe a novidade do baião e do xote, que sacolejam o forró até hoje.

Muitos filmes mais virão sobre um artista tão notável, é claro, mas este não o desmerece. E “Asa branca” continuará a ser o hino nacional da Grande Migração.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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Walnice Nogueira Galvão

Professora Emérita da FFLCH-USP

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1 Comentário
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  1. Luiz Gonzaga Belluzzo

    26 de dezembro de 2025 9:04 am

    Maravilhoso o texto de Walnice Nogueira Galvão

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