21 de maio de 2026

A voz da Saga (3), por Walnice Nogueira Galvão

Artigo revela jornada pela ficção em língua portuguesa, com destaque para a complexidade e genialidade narrativa de Guimarães Rosa.
Tarantão, meu patrão...

– “Cavalgada dos insensatos” revela universo poético: farsa, grotesco, insânia. Destaque para narrativa e foco narrativo em obras de Guimarães Rosa.
– Guimarães Rosa desenvolve narrador coletivo em terceira pessoa, fluido e natural, destacando-se na literatura brasileira.
– Leitura revela jornada pela ficção em língua portuguesa, com destaque para a complexidade e genialidade narrativa de Guimarães Rosa.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

A voz da Saga (3), por Walnice Nogueira Galvão

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Num mundo subitamente de cabeça para baixo, “-Tarantão, meu patrão…” relata uma extraordinária cavalgada dos insensatos, reunindo os limítrofes, os excêntricos e os desajustados. Predominam a vocação para a farsa, o grotesco, o grão de insânia que eclode em meio à pasmaceira do cotidiano e dá acesso ao universo do poético.

O narrador

Finalmente, o último bloco contempla o trabalho com o foco narrativo, trabalho que desempenhou papel fulcral no desenvolvimento da obra de Guimarães Rosa. Ainda canhestro de início, foi-se requintando extraordinariamente até atingir o auge em textos como Grande sertão: veredas ou “Meu tio o iauaretê”.

A bem da análise, montou-se aqui um continuum para expor a gradação do trabalho do narrador, cancelando a cronologia, para deixar claro o grau de aproximação ou distanciamento do foco narrativo.

Num dos extremos, o narrador aparece identificado com o Autor, na primeira pessoa do discurso direto, o que seria a forma mais rudimentar de mostrá-lo. É o que acontece, por exemplo, em “Corpo fechado” e em “Famigerado”, mais em “Darandina” ou menos em “São Marcos”, em que um médico procedente da cidade se relaciona com os nativos, que pedem ajuda ou conselho como a uma autoridade – a ele, homem de ciência, senhor da palavra. Vemo-lo não ficcionalizado num dos prefácios de Tutameia, falando de seu xará o vaqueiro Zito, que era guieiro, cozinheiro e poeta, companheiro na condução da boiada. É o Autor sem disfarces, prestando atenção e anotando. No outro extremo da gradação, refinadíssimo e obscurecendo cada vez mais esse interlocutor até silenciá-lo, em Grande sertão: veredas ele desaparece e emudece, só sendo mencionado no discurso direto do narrador-protagonista como um doutor de óculos que veio da cidade, escreve numa caderneta e instiga a narração.

Mas entre esses dois extremos – o narrador em primeira pessoa que é fonte da narrativa e o interlocutor que mal disfarça o médico culto do interior – , outros surgem, e é uma grande proeza do autor ter chegado à constituição de um narrador coletivo em terceira pessoa oriundo do sertão, que se autonomeia coloquialmente como “a gente”, ao mesmo tempo em que constrói a verossimilhança com o espaço que elegeu para desenrolar sua obra. Este narrador torna-se cada vez mais fluido e por assim dizer natural.

Guimarães Rosa avança mais um grau ao criar um narrador que não é personagem autônoma, ou melhor, que se perde no plural. O leitor pode, por hipótese, imaginar que se trata de uma adaptação da posição do corifeu da tragédia ática que, sem ser personagem mas apenas liderando o coro, comenta os eventos que decorrem ali na cena, assumindo o ponto de vista da polis. Assim nosso Autor transpõe um elemento do gênero dramático para o gênero épico. Aqui neste volume um exemplo pleno é “Soroco, sua mãe, sua filha”, em que um narrador-observador-participante está presente e incluído na cena mas não se distingue da coletividade, falando em nome de “a gente”. Já em “A hora e vez de Augusto Matraga” a voz em terceira pessoa não pertence a um narrador presente na cena, mas a uma espécie de voz da saga, que veicula a intriga, como testemunha não dos acontecimentos mas já da história que se constituiu com o passar do tempo e de que ele é mero portavoz. Em “A terceira margem do rio”, que fala do desaparecimento do pai, é seu filho quem fala, em seu nome e no nome da família, dizendo  “nós” e “nosso pai”, pois é da sucessão das gerações que o conto trata. Em “Meu tio o iauaretê” o narrador dá um salto quase mortal e cria o mais complexo dos focos narrativos, misturando no discurso direto do narrador o português, o tupi e uma espécie de linguajar animal com onomatopeias de ruídos e rugidos de onça. Tudo isso enquanto faz uma meditação sobre a tragédia que é a destruição de civilizações, com base no genocídio que predominou nesta parte do mundo, sem fim à vista até os dias de hoje.

*  *  *

Finda a leitura desta seleção, o leitor, em estado de graça, pode ficar satisfeito por ter realizado uma jornada pelo que de melhor existe em ficção de língua portuguesa.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

Walnice Nogueira Galvão

Professora Emérita da FFLCH-USP

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

1 Comentário
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Aparecido Pereira Cardoso

    27 de novembro de 2025 5:30 pm

    Genialidade? GSV foi baseada na obra de um escritor negro do sertão, chamado Manoel Alves de Oliveira. É tal mitologia rosiana que não permite ver além.

Recomendados para você

Recomendados