9 de junho de 2026

Mirtes e a falta de justiça para a morte do seu filho Miguel, por Urariano Mota

Mirtes se desespera porque Sari Corte Real continua livre. Sari é a pessoa a quem Mirtes confiou para olhar Miguel, de 5 anos de idade.
Mirtes e Miguel - Arquivo Pessoal

Mirtes Renata luta há 6 anos por justiça após a queda fatal do filho Miguel do 9º andar em Recife.
Sari Corte Real, ex-patroa e responsável pela criança, foi condenada a 7 anos, mas recorre em liberdade.
Mirtes denuncia a lentidão da justiça e pede apoio para que Sari seja presa ainda em 2026.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Mirtes e a falta de justiça para a morte do seu filho Miguel*

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Urariano Mota

No dia 2 de junho deste 2026, a valorosa Mirtes Renata pediu, e mais que pediu, exigiu: “Não me deixem lutar sozinha”. A sua história é um retrato   trágico e eloquente dos pobres e negros no Brasil. Há 6 anos, no dia 2 de junho de 2020, Mirtes era empregada doméstica em um apartamento de prédio de luxo no Recife. Ela descera do apartamento para passear com o bem cuidado cachorro da sua patroa, Sari Corte Real. Quando estava na calçada do prédio, súbito, ouviu um baque. Então ela pressente o seu pesadelo e corre para ver o que foi. E viu: o seu filhinho Miguel, caído lá do alto, estava no chão.  

Até hoje, Mirtes Renata se desespera porque Sari Corte Real continua solta e livre.  Sari é a pessoa a quem Mirtes confiou para olhar Miguel, de 5 anos de idade. Sari entregou a criança à própria sorte. Mas quanta pretensão, não é? Uma empregada passar o filho para ser olhado pela patroa! Em que mundo estamos? Absurdo.

(Coincidência histórica, que escrevo aqui à margem do texto publicado em inglês: Célio Avelino é o advogado que comanda a defesa de Sari Corte Real. Ele é o mesmo advogado que no processo do crime hediondo sofrido pelo Padre Henrique era promotor de justiça, e se negou a apresentar denúncia contra os assassinos do padre. “Coincidência” que o google não registra até agora.)

A história da ex-patroa e da ex-empregada talvez pudesse ser expressa nas suas fotos.

Sari Corte Real aqui:

Mirtes, ex-escrava da Corte aqui:

Mas devemos aprofundar o visto em fotos. Recupero o que escrevi nos primeiros dias  do crime contra o menino  Miguel: 

O caso do menininho Miguel, filho da empregada doméstica Mirtes, revela o horror da injustiça de classes no Brasil. E no seu crime, o costume em vigor de morte aos negros entre brasileiros.

Não exagero. Não é possível exagero diante da criança negra que foi desprezada para cair do nono andar até o chão. Dessa morte não podemos nem falar em tragédia, tamanha é a vulgarização de como se anula a vida negra, das favelas no Brasil onde são caçadas, às domésticas que trabalham e servem sob relações “amigáveis”, e portanto falsas. O caso de Miguel Otávio e Mirtes Renata, filho e  mãe, é um modelo de crime que não se pune, crime didático antes do sangue do menino, durante e depois.

Minutos antes da queda da criança Miguel, madame estava pintando as unhas em casa. Havia ficado com o filhinho da empregada Mirtes, que saíra para a rua com a cadela da patroa. A criança ficou a brincar com a filha da madame. (Lembram dos escravozinhos negros que distraíam os filhos dos senhores de engenho? ) Mas a desgraça de Miguel foi ter amor demais por sua mãe. Quando ela se ausentou, ele se pôs a chorar, a pedir por seu abrigo e colo. Mas por que o menininho, além de amar a mãe, de repente sentiu tanta falta do seu carinho? Só os que sentem e sentiram essa falta saberiam contar. O fato é que o menino, teimoso, rebelde, “cheio de vontades” – como se não fosse filho de negra – incomodou tanto, que outro jeito não teve a patroa a não ser deixá-lo à própria sorte. Azar, azar, azar, azar. Ou seja: quer sua mãe? Vá lá. Boa sorte. Nas imagens do vídeo, a madame aparece levando o condenado a seu destino de menininho negrinho. E volta para as belas unhas. Súbito, um baque, um pequeno estrondo. Ossos quando batem no chão, descidos de boa altura, soam como bombas. Eu já vi o som de um homem que se jogou do alto do Edifício Holiday em Boa Viagem. Mas de um menininho, nunca. Daí que lhe ponho um pequeno estrondo no seu barulho de ossinhos quebrado-se.    

As sucessivas entrevistas de Mirtes Renata Santana de Souza revelam uma progressão de luzes na sua consciência. O que no começo lhe pareceu um acidente trágico, revelou-se depois uma estranheza, quase que de piedade, quando a querida patroa lhe falou que ia ser presa. E Mirtes lhe perguntou: “Como a senhora vai ser presa se não cometeu crime?”.  Na pergunta havia uma desconfiança que passava ao longe, mais alta que o nono andar das Torres Gêmeas, de onde Miguel caiu. Mas desconfiança é dor que dá e passa, ainda que deixe umas pistas confusas. Nesse primeiro tempo, Mirtes não quis ver as imagens do último minuto de Miguel no elevador. Mas depois viu, e o que viu lhe causou uma revolta: a madame conduziu o negrinho mais lindo da vida e apertou um andar do elevador. Apertou ou mostrou, o que não diminui o seu crime. E voltou para a sua manicure. Súbito, um pequeno estrondo. Mas não tão súbito, porque era previsível.

Agora, seis anos depois, Mirtes Renata está em franco desespero. Ela postou em 2 de junho deste 2026:

“É desesperador. 6 anos sem ouvir a voz do meu filho. 6 anos sem poder abraçá-lo. 6 anos vendo recursos, adiamentos da prisão da condenada e o tempo passar diante dos meus olhos. Na semana passada, o Tribunal de Justiça de Pernambuco manteve a condenação de 7 anos em regime fechado para Sari Corte Real por abandono de incapaz com resultado morte. A decisão só foi mantida por um voto de diferença: 6 votos a 5. E mesmo condenada, ela continua recorrendo em liberdade.

Eu olho para tudo isso e me pergunto: Quanto tempo mais? Quantos anos mais uma mãe precisa esperar? Meu filho tinha apenas 5 anos. A Justiça já levou mais tempo para responder do que o tempo que Miguel teve para viver. Eu tenho medo de que a lentidão vença. Tenho medo de que a demora se transforme em impunidade. Tenho medo de que, enquanto a condenada segue vivendo sua vida, viajando, sorrindo e construindo novas memórias, a história do meu filho continue presa em recursos sem fim.

Não temos mais tempo. Junho não pode terminar sem uma resposta concreta para Miguel. Junho não pode terminar sem que a condenada seja presa. 2026 não pode ser mais um ano de espera. Depois de quase 6 anos, eu só tenho forças para fazer um pedido: Não me deixem lutar sozinha. Essa luta é de todos. Essa luta precisa ser de todos. Justiça por Miguel”.

A justiça de classes quer calar a boca da mulher que hoje tem a mais alta consciência da sua condição de mãe, mulher negra e injustiçada. Mas ela não está sozinha em sua luta. Com Mirtes estamos os jornalistas, escritores, intelectuais, socialistas e povo indignado. Justiça para Miguel!

Publicado em inglês no Labour Hub Six years on: Mirtes challenges the lack of justice over the death of her son Miguel – Labour Hub

*Vermelho Mirtes e a falta de justiça para a morte do seu filho Miguel – Vermelho

Urariano Mota – Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Urariano Mota

Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados