5 de junho de 2026

Brasília 2023, Belfast 1974, por Fábio de Oliveira Ribeiro

O conflito que se desenha no Brasil a partir do ano que vem é mais ou menos semelhante àquele que ocorreu na Irlanda do Norte nos anos 1970.

Brasília 2023, Belfast 1974

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por Fábio de Oliveira Ribeiro

No final da década de 1960 eu morava em Eldorado SP. Quando comecei a ter consciência do mundo, os jornais televisivos eram dominados pela Guerra do Vietnã. Em 1974 minha família mudou-se para Osasco. A Guerra do Vietnã tinha terminado e outro conflito sangrento estava ocorrendo nas ruas de Belfast. Com 10 anos de idade eu realmente não consegui entender aquela imensa confusão em que ingleses lutavam contra irlandeses e irlandeses também lutavam entre si.

As imagens de veículos queimando nas ruas de Belfast imediatamente foram desenterradas da minha memória assim que vi as ruas de Brasília salpicadas de carros e ônibus incendiados. O modo de agir dos terroristas urbanos é semelhante em todos os lugares. E eles sempre agem dizendo que são patriotas.

O conflito que se desenha no Brasil a partir do ano que vem é mais ou menos semelhante àquele que ocorreu na Irlanda do Norte nos anos 1970. Ele também tem um sabor religioso (protestantes x católicos lá; evangélicos x católicos aqui), mas o que realmente incendiará a guerra irregular moderna brasileira será o controle e a distribuição da riqueza. Todavia, o Brasil é maior e se tornou muito mais problemático do que a Irlanda do Norte. Não há um Exército para combater os terroristas de direita e vários oficiais militares parecem estar comprometidos com o terrorismo. 

Uma conhecida minha, que é professora universitária e esteve na posse de Lula, me disse que os terroristas são “… Meia dúzia de loucos, sem organização firme, não são capazes de nada. Teremos ministro da justiça e polícia federal sob nosso controle. O rigor da lei se abaterá sobre esses terroristas.”

Pessoalmente, acredito que o otimismo é um conselheiro tão ruim quanto o pessimismo. Os bolsonaristas radicalizados darão mais trabalho do que minha interlocutora imagina. A esquerda precisa lembrar de sua própria história recente: um bando de operários desarmados conseguiu estropiar a ditadura militar.

Em 2023 células terroristas de direita começarão a pipocar aqui e ali. Elas serão muitas e irão agir de maneira mais ou menos coordenada em diversas cidades brasileiras. Algumas serão apoiadas e/ou comandadas por policiais e militares descontentes. O tráfico de drogas pode acabar financiando o terror político como ocorreu e ocorre em outros países. E os espiões norte-americanos, que sempre atuam com ou sem supervisão da Casa Branca, provavelmente usarão a guerra irregular moderna brasileira para desestabilizar ainda mais nosso país com ajuda de políticos historicamente ligados aos EUA.

O Ministro da Justiça escolhido por Lula é muito experiente e comprometido com a democracia. Flávio Dino foi juiz federal e desempenhou com grande eficiência o papel de governador do Maranhão. Uma excelente escolha, sem dúvida. Talvez a melhor que Lula fez. Todavia, ele também será sabotado pela banda podre da PF que obviamente passará a ser muito mais cuidadosa.

A atuação firme do Ministério da Justiça vai certamente minimizar os danos provocados pela guerra irregular moderna bolsonarista. Mas devemos lembrar duas coisas muito importantes: o MPF seria parte da solução se não fosse parte do problema. Nos últimos anos o MPF demonstrou um grande pendor em favor do neoliberalismo autoritário e contra a democracia. Flávio Dino enfrentará as hordas de procuradores simpáticos ao bolsonarismo e declaradamente inimigos do PT. A justiça federal também está cheia de carunchos antidemocráticos.  

Em Belfast não havia nem clara separação entre amigos e inimigos. Cada grupo combatente podia ser e eventualmente era infiltrado por agentes adversários. O mesmo ocorrerá em Brasília a partir de 2023. Na verdade, isso já está ocorrendo na internet, local em que a guerra irregular moderna começou a ser combatida pelo STF (refiro-me obviamente ao Inquérito das Fake News que resultou em diversas prisões esta semana).

O bolsonarismo é uma ideologia violenta. Suas ações são mais ou menos centralizadas. Mas ela também é aberta às inovações. Isso ficou evidente quando o TSE anunciou o resultado das eleições, oportunidade em que o bolsonarismo demonstrou que tem grande capacidade de improvisação. Em Brasília os terroristas agiram como profissionais: eles queimaram ônibus vazios para dizer que podem queimar ônibus cheios de petistas que irão à posse de Lula.  

Antes de Lula assumir o poder e Flávio Dino tomar posse no Ministério da Justiça, o combate ao terrorismo não será uma realidade. Bolsonaro e seus comparsas não têm nenhum interesse em ajudar o STF a reprimir as hordas violentas que eles mesmos radicalizaram e eventualmente remuneram e comandam. 

Quanto mais gente for a Brasília para a posse Lula melhor, imaginam os petistas. Os terroristas bolsonaristas também tem imaginação. Suponho que eles devem estar pensando “quanto mais gente for à posse do presidente petista, mais fácil será infiltrar uma quantidade maior de provocadores e causar pânico em massa para transformar Brasília na Belfast de 1974.” O que nós podemos fazer além de observar?

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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2 Comentários
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  1. José de Almeida Bispo

    16 de dezembro de 2022 9:56 am

    Também não tenho a menor ilusão de que nos guiaremos por tempos de respeito e solidariedade. Metade do Brasil provou no dia 30 de outubro que não evoluiu um centímetro daqueles de 1673:

    “Portaria para o Coronel Affonso Barbosa da Franca sobre os Capitães do Mato.
    Porquanto têm as pessoas que costumam ir aos mocambos dúvida a executar as minhas ordens, porque acontecendo resistirem os negros dos mocambos, e haver alguma morte ou ferimentos se lhes podia dar em culpa. Ordeno ao Coronel Affonso Barbosa da Franca que dê ordem em virtude desta aos Capitães do Matto que forem aos mocambos, que não se lhe entregando logo os negros fugidos e resistirem de maneira, que seja necessário feri-los, e ainda mata-los, não tendo outro remédio o façam, sem por isso se lhes poder dar em culpa. E esta se registará nos livros da Secretaria do Estado para a todo o tempo constar. Bahia e janeiro, 13 de 1673.”

    Nem depois do pedido aceito naquele 1741:
    “Alvarás obre o mesmo.

    Eu El-Rey faço saber aos que este Alvará em forma de Ley virem, que sendo-me prezente os insultos, que no Brazil commetem os Escravos fugidos, a que vulgarmente chamão calhambollas, passando a fazer o excesso de se juntarem em quillombos, e sendo preciso acodir com Remédios, que evitem esta desordem:Hey por bem que a t6odos os negros, que forem achados em quillombos, estando n’elles voluntariamente se lhes ponha com fogo uma marca em uma Espadua com a letra F., que para este effeito haverá nas Camaras, e se quando se for a executar esta pena, for achado já com a mesma marca, se lhe cortará uma orelha, tudo por simples mandado do Juiz do Fora, ou Ordinário da terra, ou do Ouvidor da Commarca, sem processo algum, e só pela notoriedade do facto, logo que do quillombo trazido antes de entrar para a Cadeya. Pelo que mando ao Vice-Rey, e Capitão General de mar e terra do Estado do Brazil, Governadores e Capitães Generaes Dezembargadores da Relação, Ouvidores, Juizes, e Justiças do dito Estado, cumprão e guardem, e fação cumprir e guardar este meu Alvará em forma de Ley, que vallerá posto que seu offeito haja de durar mais de um anno, sem embargo da Ordenação do Livro 2° tit. 40 em contrario, o qual será publicado nas Câmaras do Estado do Brazil, e se registrará na Relação, Secretarias dos Governos, Ouvedorias e Câmaras do mesmo Estado para venha a noticia de todos. Dado em Lisboa Occidental a 3 de março de 1741.

    (Documentos Históricos, vol. VIII, p. 130; e Anais da Biblioteca Nacional, volume 28, p.200 – Rio de Janeiro, 1906, respectivamente)
    CONTINUA TÃO SELVAGEM como antes.

  2. Fernando Monteiro

    18 de dezembro de 2022 4:47 pm

    Dr. Fábio. Concordo com sua opinião. Acho que precisamos nos preparar do lado de cá. E isso quer dizer, nos preparar para o pior. O povo deve ir empeso para BSB. Só assim os fascistas vão pensar antes de fazer bobagem. Abraços!

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