O significado do 1º de janeiro de 2023
por Daniel Afonso da Silva
O 1º de janeiro de 2023 retirou o Brasil do mal-estar que junho de 2013 legou. A posse do presidente Lula da Silva reabilitou algum senso de direção ao País. Ainda não se sabe aonde se vai chegar. Mas para trás, deixou-se de olhar.
Das muitas especulações sobre a nova presidência, o ministro Roberto Amaral foi o mais lúcido e agudo ao reconhecer que o principal resultado ocorreu nas urnas e que o que adiante merece compaixão. Essa compaixão já existe. A redução de expectativas, desde muito, virou um sinal dos tempos.
Desde junho de 2013 que a esperança na política e nos políticos conhece uma entropia jamais vista no Brasil. A realidade nua e crua do fazer da política foi esgarçada à luz do dia. A população em geral passou a ter ciência de como são feitas as salsichas – um tipo de saber, como dizia Otto von Bismarck, que é melhor não conhecer.
Das noites de junho de 2013 ficou muito claro que não era apenas pelos 20 centavos. Era uma reversão aguda de expectativas que varria o Brasil (e o mundo). O “verão de todas as crises” iniciado na crise financeira de 2008 produziu a desolação daqueles que apreenderam em 2013 a precariedade de seu futuro.
A classe média se viu empobrecida e a “nova classe média”, a dita classe C, se reconheceu, mais uma vez, miserabilizada. Não teve jeito: da apreciação popular positiva de mais 80% recebida pelo governo que passara a faixa para a presidente Dilma Rousseff em 1º de janeiro de 2011 sobrou nada ou muito pouco depois de 2013.
O “não vai ter Copa” deu a tônica de janeiro de 2014. O 7 a 1 da seleção no Mineirão anunciou tempos ainda mais nublados. A conturbada campanha eleitoral embalada pelo “coração valente” em ritmo de xote prenunciou movimentos dramáticos assemelhados a andamentos de tango. Aquela eleição de 2014 não terminou. Seus envolvidos entraram em agonia. Brasília (e o Brasil) tremeu. O governo entrou em transe. Nada andou. Apenas o drama do afastamento e do impeachment da presidente em 2016.
2017 amanheceu com o “Fora, Temer” estampado em toda parte. Gentes da FIESP financiavam aquele pato inflável amarelo. Acreditavam que o “teto de gastos” iria moralizar as contas públicas; e que eles, donos do pato, deixariam de “pagar o pato”. Pois veio o 17 de maio, imortalizado como “Joesley day”.
Se o governo Temer começou um dia, terminou neste dia. A ênfase do “não renunciarei” calou as ilusões de alcoviteiros de plantão que desejavam mais do manjar, do governo e do Brasil. Calou ilusões, mas não dissimulou a ambiência de insatisfação que azedou a entrada no 2018, que também não começou.
Nada marcou mais aquele ano triste de 2018 que a prisão do presidente Lula da Silva naquele 7 de abril. Aquela facada do 6 de setembro foi uma ignomínia. Ponto. A eleição que a sucedeu, segue difícil de classificar. Mas o deputado Jair Messias Bolsonaro nela se elegeu.
A presença lasciva e os sorrisos caborteiros do algoz do presidente Lula da Silva (e do próprio Brasil) no rol de ministros empossados no 1º de janeiro de 2019 era a mostra de um tipo escárnio que a República brasileira talvez nunca vira. Como iniciar bem um ano assim?
2020 amanheceu macambúzio. Observadores internacionais bem informados sinalizavam que algo estranho provinha da Ásia, da China, de Wuhan. Era o vírus que não tardou a consumir e parar o mundo inteiro. E, no Brasil, além disso, o ânimo – se é que houve algum – com o governo do presidente Messias esmaeceu completamente quando se percebeu que a potência do “posto Ipiranga” havia produzido apenas 1% de crescimento econômico no ano-calendário anterior.
Janeiro de 2021 foi “em casa”. Os estragos da pandemia estavam longe de serem mensurados. O “fique em casa”, “use máscara”, “receba a vacina” ainda era o lema, quase mantra.
Janeiro de 2022 era de busca pelo “novo normal” após o Armagedom.
Ninguém, absolutamente, ninguém apostava algo nas eleições. A não ser, claro, os seus principais protagonistas. A população resolveu cuidar da própria vida enquanto o mandatário medicava emas.
As eleições vieram e o presidente Lula da Silva saiu vencedor. Das urnas ele tirou uma margem pequena de avanço sobre o seu oponente, um percentual gigantesco de indiferentes e a missão de “unir e reconstruir” o País.
Ainda não se consegue mensurar a sua capacidade em cumprir essa missão. Mas é necessário reconhecer que ele conseguir retirar o País do nevoeiro de indefinições que as noites de junho de 2013 produziram.
O 1º de janeiro de 2023 inaugurou o ano de 2023. Parece pouco. Mas, diante dos quase dez anos estacionados em junho de 2013, trata-se de um feito extraordinário. Resta aguardar os próximos dias e meses para se assegurar que essa normalidade veio para ficar.
Daniel Afonso da Silva – Doutor em História Social pela USP, Pós-doutorado pela Sciences Po de Paris e pesquisador no Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais da USP
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