Sabem todos aqueles que conhecem a história do Brasil, que até o fim do Império da religião católica era a religião oficial do país. Sabem também que mais devido a um modismo de sistemas republicanos quando se proclamou a República passamos teoricamente a ser um Estado Laico, era laico “ma non tropo”, a Igreja Católica gozava de regalias fiscais e benesses das classes dirigentes até o momento do surgimento da Teologia da Libertação, neste momento é que se separa o Estado de parte da Igreja, parte porque ainda a maioria do Alto Clero acompanhava as políticas da grande burguesia, tanto econômicas como sociais, precisou de um Presidente Militar que não era Católico (Gen. Ernesto Geisel) para que o divórcio passasse a ser lei.
Por cinco séculos a Igreja Católica com seu famoso “Index Librorum Prohibitorum”, que dizia o que o bom Católico não podia ler e também não podia estudar, escrever sobre a origem do cristianismo era expressamente proibido, isto começou durante a contrarreforma e só terminou em 1966.
Também havia uma lista em cada região e em cada eleição de ateus ou de outras religiões que um bom católico jamais poderia votar. Ou seja, a Igreja Católica até cinco décadas atrás ainda procurava mandar na política. Lembrem-se das famosas marchas por Deus, Família e Propriedade da década de 60.
Enquanto a Igreja Católica se mantinha hegemônica, ou enquanto as Comunidades Eclesiais de Base não foram amassadas pelos Papas conservadores, a voz do “pastor” católico era ouvida e respeitada, mas a medida que Papas como João Paulo II colocou essas comunidades eclesiais de base no seu “devido” lugar, não havia grande contestação do poder temporal da Igreja.
Com o predomínio do conservadorismo, e com o verdadeiro massacre promovido contra a Teologia da Libertação, um movimento que surgia nas periferias foi crescendo. Pequenas casas de culto, como as da Assembleia de Deus, ou de outros ritos pentecostais, pipocavam de uma comunidade a outra.
A hierarquia religiosa dominante, que como sempre estava afastada do contato com o seu “rebanho”, não viu como ameaça aqueles pobres templos, com aquelas pobres pessoas e com aqueles pobres pastores, e olhavam com ares de desprezo para esta religiosidade que consideravam simples, ou até simplória, perante seus bem treinados padres e suas majestosas igrejas.
Não só a hierarquia religiosa católica que desprezava aquelas “pobres figuras”, a imensa maioria da intelectualidade tanto a de direita como a de ESQUERDA, veem com desprezo, ou pior do que isto, com pena e comiseração ao enxergar pessoas com suas surradas bíblias (por muito uso) e com suas melhores roupas (ternos muitas vezes comprados no comércio barato) indo para seus cultos. Afinal faziam parte da população que não deveria ser considerada pela direita ou que deveria ser doutrinada pela esquerda.
Este povo foi silenciosamente crescendo, só mostrando visibilidade exatamente quando alguns começaram a adotar padrões católicos de comportamento. Pequenos templos não chamavam a atenção, não porque eram centenas em relação a duas ou três grandes igrejas, mas sim porque eram pequenos, e como a sociedade visível estava acostumada a não enxergar as camadas pobres da população, sem pensar nesta mais como algo a ser utilizado do que ser protagonista, ninguém se preocupava com isto.
Como as religiões protestantes (para adotar uma linguagem que todos entendem sem descer a detalhes das diversas denominações) tem como base a leitura e a interpretação individual da Bíblia, não centralizando o poder religioso em um Papa, cardeais, bispos e padres, surgiram novas denominações e igrejas, as chamadas igrejas Neopentecostais, (agora uso o nome igreja) baseada na chamada Teologia da Prosperidade esta teologia que tem em parte origem no protestantismo tradicional, foi nas terras brasileiras levada aos extremos, aproveitando-se das massas de pessoas religiosas formadas nos pequenos templos.
Aproveitando-se dos meios de comunicação de massa, pastores e até bispos (denominação copiada da hierarquia católica) começaram a erguer grandes templos e movimentar massas imensas. Porém, essas massas que eram formadas nas suas comunidades iniciais, perdem quando entram nos grandes templos a característica básica daqueles que ainda adotam os princípios originais da sua origem, o protagonismo.
Em torno de uma complexa rede de diferentes visões religiosas, e principalmente das Igrejas Neopentecostais, além do pagamento do dízimo, se criou um grande mercado de venda de discos, livros, viagens a Terra Santa, como da mesma forma que o catolicismo fazia com o seus fiéis antes de começa-los a perder.
Mas além desta massa de fiéis dos grandes templos, ainda continua existir uma massa ainda maior de pequenos templos, com seus pequenos fiéis e seus pequenos pastores. Nesta massa ainda continua o espírito de leitura e interpretação da Bíblia feita quase que individualmente e essa leitura e interpretação da Bíblia, que torna diferenciados estes fiéis dos da Igreja Católica e das Multinacionais da religião da teologia da prosperidade.
Num pequeno templo, com a leitura individual e discussão da Bíblia, se forma uma maneira de pensar que os diferencia das outras religiões, todo se sentem membros e protagonistas de uma comunidade, se esta comunidade é pobre há uma identificação clara de um sentido de classe social. Eles sabem como aqueles que não pertencem ao seu circulo como o enxergam, eles identificam claramente quem está ligado à classe dominante e quem está junto a eles, ou seja, apesar de parecer um paradoxo as igrejas pentecostais.
Na eleição atual, muitos, que pertencem à elite intelectual de direita ou de esquerda brasileira, têm uma visão equivocada do fiel pentecostal, são tomados como fanáticos que gritam e pulam nos seus ritos e que o pastor comanda os seu modo de pensar. A direita, pensando que colocando as suas apostas na figura de Marina, uma devota da assembleia de Deus, teria o voto dos evangélicos em geral.
Se olharmos o gráfico de voto por profissão religiosa publicado pelo Globo, vemos que o fenômeno Marina tem uma tendência de aumento e esvaziamento da mesma ordem tanto nos evangélicos como nas outras profissões religiosas, nos evangélicos a votação sobe de 37% para 43%, baixando para 38%, por outro lado, os eleitores “católicos” de Marina sobem de 25% para 31% para depois baixar para 25%, ou seja, há um pequeno viés do eleitor evangélico para Marina que pode também ser em parte explicado por outros motivos que não o religioso, pois é muito mais claro a clivagem dos votos em função de outros fatores do que a religião.
Se quiséssemos entender a importância do voto religioso se deveria fazer uma estatística multivariada, em que se isolasse a importância não só ao grupo que são classificados individualmente, mas também ao sentido de pertencimento a cada grupo.
Falham os institutos de pesquisa, falham os teóricos e falham todos aqueles que pensam que os evangélicos tradicionais se comportam como “ovelhinhas dos pastores”, pois esta denominação que servia ao eleitor do século passado, não serve ao eleitor deste século, principalmente porque o eleitor do passado, o eleitor católico, era muito mais manipulado pela sua religião do que o evangélico deste século.
A prática da religião baseada no estudo individual e não na aceitação de dogmas religiosos, o sentido e a consciência de pertencimento a uma classe social e a não homogeneidade das igrejas protestantes em geral levam o voto evangélico ser muito mais complexo do que as análises apressadas da “intelectualidade brasileira”, que de forma simplista, imediatista e principalmente preconceituosa e ELITISTA.
O voto evangélico não é BURRO.
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