O Brasil no lugar da Argentina? A nova geopolítica da agropecuária mundial.
por Marcio Pochmann
A notícia de que o Brasil está prestes a ultrapassar os Estados Unidos como maior exportador agropecuário do mundo encerra um significado que vai muito além do comércio exterior. Ela pode representar o fim de um ciclo histórico de cerca de um século e o início de outro, ainda marcado por profundas incertezas.
A última vez que uma mudança dessa magnitude ocorreu, o mundo atravessava a crise da hegemonia britânica. No final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, a Argentina consolidou-se como uma das grandes potências agroexportadoras do planeta. Sua riqueza estava diretamente vinculada à ordem internacional liderada pelo Reino Unido, ao padrão libra-ouro e à expansão do capitalismo britânico. Exportava alimentos, importava capitais, tecnologia e manufaturas. Prosperava, mas dentro de uma divisão internacional do trabalho que reservava aos centros industriais o comando da inovação, das finanças e da geopolítica.
As duas guerras mundiais destruíram essa ordem. O declínio britânico, o fracasso da Liga das Nações e a reorganização institucional do pós-guerra deram origem a Bretton Woods, ao sistema das Nações Unidas e à centralidade internacional do dólar. Simultaneamente, os Estados Unidos substituíram a Inglaterra como potência industrial, financeira, militar e também agropecuária. Durante aproximadamente um século, lideraram as exportações agrícolas do mundo.
Agora, essa liderança parece chegar ao fim. Desde os anos 1970, quando os Estados Unidos abandonaram a conversibilidade do dólar em ouro, a economia mundial entrou em uma nova etapa. A globalização neoliberal deslocou parte significativa da produção industrial para a Ásia. A participação estadunidense na indústria mundial diminuiu. A China emergiu como principal potência manufatureira. As cadeias globais de valor fragmentaram a produção. E o comércio internacional tornou-se cada vez mais multipolar.
A possível perda da liderança agrícola pelos Estados Unidos é, portanto, mais um sintoma da transição histórica em curso.
A pergunta decisiva não é se o Brasil ocupará o primeiro lugar nas exportações agropecuárias. A questão central é outra: que tipo de potência o Brasil pretende ser quando o poder internacional do novo capitalismo desloca-se rapidamente para o domínio dos dados, da inteligência artificial, da computação em nuvem, da biotecnologia, dos semicondutores, da energia limpa, das plataformas digitais e dos sistemas financeiros digitais.
Do passado, existe um caminho conhecido que foi o percorrido pela Argentina durante a Belle Époque. Um extraordinário sucesso exportador, porém combinado com a crescente dependência financeira, tecnológica e geopolítica. A prosperidade do campo não foi suficiente para garantir liderança industrial, autonomia tecnológica ou influência política duradoura. Quando a ordem internacional inglesa entrou em colapso, a vulnerabilidade apareceu.
Atualmente prevalece uma intensa disputa em torno do padrão monetário internacional. O dólar continua dominante, mas sua supremacia é crescentemente contestada pela expansão dos BRICS, pelo fortalecimento de moedas nacionais no comércio internacional, pelo avanço das moedas digitais e pela reorganização das finanças globais.
Ao mesmo tempo, as instituições construídas em 1945 enfrentam crescente perda de legitimidade. A ONU revela dificuldades para arbitrar conflitos internacionais. O sistema multilateral sofre pressões inéditas. O comércio torna-se instrumento de disputa geopolítica.
Nesse contexto, transformar-se na maior potência agroexportadora do planeta pode significar duas coisas completamente distintas. Por um lado, pode representar a consolidação de um novo ciclo de especialização primária, baseado na exportação de commodities, reproduzindo a lógica centro-periferia em novas bases.
Por outro, a construção de um novo ponto de partida para a estratégia nacional de desenvolvimento que utilize a força do agronegócio para financiar ciência, tecnologia, industrialização verde, bioeconomia, inteligência artificial, infraestrutura logística e soberania digital.
A diferença entre um caminho e outro não será determinada pelos mercados internacionais, mas pela capacidade do Estado brasileiro de formular um projeto nacional.
A história ensina que nenhuma grande potência se tornou protagonista apenas exportando produtos primários. Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha, Japão, Coreia do Sul e China utilizaram sua inserção internacional para construir capacidade tecnológica, industrial e científica.
O Brasil encontra-se diante de uma oportunidade histórica rara. Se confirmar a liderança mundial das exportações agropecuárias, deixará de ser apenas um grande produtor de alimentos. Tornar-se-á um dos pilares da segurança alimentar do planeta.
Mas isso, por si só, não garante desenvolvimento. O país poderá transformar-se na “nova Argentina” da economia mundial, pois rica em recursos naturais, porém subordinada às decisões tecnológicas e financeiras tomadas em outros centros. Ou pode inaugurar um novo paradigma de desenvolvimento, no qual alimentos, biodiversidade, energia limpa, dados, conhecimento e inovação constituam as bases de uma soberania nacional renovada.
A ultrapassagem dos Estados Unidos pode ser apenas um fato estatístico. Seu verdadeiro significado dependerá da resposta que o Brasil der à pergunta que definirá o século XXI. Será a maior fazenda do mundo ou permitirá transformar essa conquista na construção de uma das grandes potências científicas, tecnológicas e industriais da nova ordem internacional?Tudo isso enquanto a disputa contemporânea vai além mercados, avançando pelo controle de dados, inteligência artificial, biotecnologia e do futuro padrão monetário internacional.
Marcio Pochmann é economista, pesquisador, professor e político brasileiro, atual presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
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