Menos horas, mais civilização
por Marcio Pochmann
Cada vez que o Brasil reduziu a apropriação do tempo humano pelo trabalho, foi porque a sociedade havia dado um salto civilizatório e ampliado a esfera da cidadania. Estamos nos dias de hoje diante de mais um?
Há uma linha invisível que atravessa a história brasileira. Ela não está nos livros de economia, mas está em cada hora a menos que trabalhamos, em cada direito inscrito em lei, em cada geração que teve mais tempo para viver além do trabalho. Essa linha é a redução da jornada de trabalho e ela é um dos mais precisos indicadores de progresso civilizatório que uma sociedade pode oferecer.
O argumento é simples e respaldado pela história, uma vez que toda vez que o Brasil avançou estruturalmente como nação, o tempo de trabalho diminuiu, tornando a vida dos trabalhadores mais digna. Não é coincidência. É padrão.
Três séculos, três conquistas
O primeiro grande momento foi a abolição da escravidão, em 1888. Por séculos, o tempo de vida do trabalhador escravizado não lhe pertencia, pois era propriedade de outro. A abolição não criou, da noite para o dia, um mercado de trabalho justo. Mas estabeleceu o princípio fundamental em que nenhum ser humano poderia ter o seu tempo totalmente apropriado por outrem. Foi o ponto zero da civilização do trabalho no Brasil.
O segundo momento chegou com a industrialização da Era Vargas. Em 1943, a Consolidação da Leis do Trabalho (CLT) fixou a jornada em 48 horas semanais, garantiu férias remuneradas e instituiu o descanso semanal obrigatório. O Brasil saía do agrarismo extensivo e entrava no século XX com a modernidade do trabalho regulado. A produtividade industrial cresceu e parte desse ganho foi convertido no tempo devolvido ao trabalhador em pleno deslocamento da população sobrante do campo para as cidades.
O terceiro momento foi a Constituição de 1988. Após 21 anos de ditadura, a sociedade brasileira reescreveu o seu novo contrato social. A jornada caiu para 44 horas semanais, direitos sociais foram ampliados, a previdência foi universalizada. O tempo de trabalho deixou de ser apenas variável econômica e se tornou um direito fundamental.
Três ciclos. Três avanços. Três momentos em que o Brasil decidiu que a vida humana valia mais do que a extração máxima de horas produtivas. Quanto mais desenvolvida a sociedade, menor a necessidade do trabalho socialmente necessário para viver.
O paradoxo digital
Hoje vivemos um paradoxo perturbador. A produtividade da economia digital cresce em ritmo sem precedentes. Algoritmos fazem em segundos o que levaria dias. A automação elimina tarefas rotineiras. As plataformas conectam oferta e demanda em tempo real. Nunca produzimos tanto com tão pouco esforço humano mensurável.
E ainda assim, trabalhamos tanto quanto antes ou até mais. O celular que deveria nos libertar se tornou correia de transmissão de uma jornada sem fim. O home office dissolveu a fronteira entre expediente e vida privada. O trabalhador de plataforma não tem patrão, não tem escritório, não tem horário, mas também não tem descanso garantido, nem previdência, nem direito à desconexão.
A pergunta que esse paradoxo coloca é direta, se a tecnologia aumenta a produtividade, onde foi parar o tempo que ela deveria nos devolver? A resposta honesta ficou retida. Capturada por quem controla as plataformas, os algoritmos e o capital. O progresso técnico aconteceu. A redistribuição de seus frutos, não.
O quarto ciclo está em disputa
O Brasil de hoje reúne as condições para inaugurar um quarto ciclo histórico ou para desperdiçá-lo. A transição digital está em curso. A automação avança. A informalidade se expande pelas plataformas. O trabalho intermitente cresce. E a legislação trabalhista, concebida para o chão de fábrica, enfrenta dificuldades crescentes para proteger o motorista de aplicativo, o entregador de bicicleta, o freelancer digital que trabalha das 6h às 23h sem registro em carteira.
Reduzir a jornada legal atual, regulamentar o trabalho em plataformas, criar mecanismos para financiar a transição digital sem sacrificar emprego e renda não são propostas radicais. São a continuação lógica de uma trajetória civilizatória que o Brasil já percorreu três vezes.
O que muda é que o adversário não é mais o senhor de escravos, nem o industrial autoritário, nem o general. É a invisibilidade. É a exploração que não aparece no contracheque porque não há contracheque. É a jornada que não conta porque acontece no celular pessoal, fora do expediente oficial, sem registro e sem proteção.
Trabalhar menos nos dias de hoje, quando a tecnologia já permite, não é preguiça, mas uma escolha civilizatória para a nova sociedade hiperconectada da Era Digital que submetida a exploração invisível poderá ser sucedida pela democratização do tempo. A resposta deve vir da política, da negociação coletiva, da decisão consciente de que o progresso civilizatório não se mede apenas pelo PIB, mas pelas horas que podemos dedicar à educação, à convivência, à cultura, à família, à vida simplesmente.
O Brasil do século XXI precisa decidir se quer ser apenas mais produtivo ou se deseja ser verdadeiramente mais livre na ampliação do tempo disponível para uma vida melhor. Por isso, o debate sobre a jornada de trabalho não é corporativo, nem anacrônico. É uma escolha estratégica sobre como repartir os frutos da tecnologia, pois o progresso serve tanto para concentrar renda ou para devolver às pessoas aquilo que é mais valioso do que qualquer salário. O tempo e a qualidade de vida digna!
Marcio Pochmann é economista, pesquisador, professor e político brasileiro, atual presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
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Antonio Uchoa Neto
25 de fevereiro de 2026 9:02 amAs inovações tecnológicas e seus frutos (algoritmos, IA, redes sociais, etc.) não vieram – admitamo-lo de uma vez – para ajudar ou facilitar a vida das pessoas (salvo a de seus proprietários, donos de patentes, distribuidores, etc.), mas para substituí-las, especificamente aqueles que apenas podem sobreviver vendendo sua força de trabalho. É apenas mais uma etapa desse processo, como a máquina a vapor, o arado mecânico, a linha de montagem, a automação, que visa reduzir o tempo de produção e a quantidade de trabalho socialmente realizado – nós, e não apenas sem sacrificar a produtividade, mas aumentando-a exponencialmente. O ser humano está sendo limado desse processo em uma velocidade jamais imaginada. Do relógio à bússola, tudo que era necessário para nos informar, guiar, e entreter, cabe no seu iphone. Ideias, noções, e entidades, que dominaram, de forma subjacente, a vida e o sentimento dos trabalhadores, estão deixando de fazer sentido; o tempo que nos seria devolvido? Não importa. O que importa é a capacidade de consumo de cada um, tendo ou não mais tempo para isso. O capitalismo somente se preocupa com quem pode comprar seus produtos – o resto são como os escravos libertos, livres, mas sem meios e modos de sobreviver. Deram-nos salários, mas apenas para que pudéssemos nos manter vivos e produtivos. O mecanismo perverso que possibilitou essa transição – a mais-valia – também está entrando em processo de obsolescência. Adeus prateleiras e vitrines; tudo está na tela de seu celular, amigo. Adeus objetos que nos acompanham há séculos, seja para consumo, seja para uso, seja para entretenimento, seja para fins de utensilagem – tudo será virtual. Até a indumentária se tornará inútil – não será necessário sair de casa para viver. E, da mesma forma que se dá com a produtividade, sem prejuízo algum aos nossos níveis de exigência e expectativa de satisfação. Estou, é claro, exagerando as coisas até a caricatura. Mas…há alguns anos, histórias sobre ricaços em ilhas controlando o mundo e realizando toda sorte de depravações, incluindo canibalismo (alguém aí lembra do ‘pizzagate’?), pareciam teorias da conspiração tão delirantes que nos faziam rir. Atores de Hollywood, como Jim Carrey, e Mel Gibson, apareciam falando montes de bobagens igualmente delirantes, e também nos faziam rir (a propósito, alguém os tem visto recentemente, em grandes produções de Hollywood?). Os Epstein files, no entanto…Como diria o Michael Jackson (assassinado?), ‘they don’t really care about us’.
Rui Ribeiro
25 de fevereiro de 2026 10:51 amAntes de “menos horas de trabalho, mais civilização”, deve-se levar em conta que na medida que as forças produtivas avançam e a produtividade do trabalho aumenta, a intensidade do trabalho também se eleva. Assim, antes de mais civilização, a redução da jornada tem que acontecer para reduzir o estresse sobre o trabalhador.
Marx e Engels escreveram no Manifesto Comunista: “Na mesma medida em que aumentam a maquinaria e a divisão do trabalho, na mesma medida sobe também a massa do trabalho, seja pelo acréscimo das horas de trabalho seja pelo acréscimo do trabalho exigido num tempo dado, pelo funcionamento acelerado das máquinas, etc”.
Rui Ribeiro
25 de fevereiro de 2026 11:01 amMenos horas trabalhadas não é para se ter mais, mas para não se ter menos civilização. É que à medida que as forças produtivas avançam e a produtividade do trabalho aumenta, exige-se cada vez mais esforço do trabalhador na mesma unidade de tempo, tornando-o mais cansado e desgastando-o mais.
No Manifesto Comunista, Marx e Engels, escreveram: “Na mesma medida em que aumentam a maquinaria e a divisão do trabalho, na mesma medida sobe também a massa do trabalho, seja pelo acréscimo das horas de trabalho seja pelo acréscimo do trabalho exigido num tempo dado, pelo funcionamento acelerado das máquinas, etc”.
À tarde eu fumo recreativamente e vou prá esquina, onde a rua é larga e o fluxo de veículos é reduzido, para estudar, geralmente matemática, geometria analítica no asfalto. Fico até à noite. Por volta das 20 horas, um jovem passa a pés, com a mochila nas costas e fica olhando o que eu escrevo no asfalto. Há poucos dias fiz o quadrado mágico de Dührer. Ele se deteve por um minuto e ficou olhando o quadrado mágico. Eu perguntei se ele sabia fazer o tal quadrado. Ele disse que não. Eu disse a ele que, se ele quisesse, eu lhe orientaria. Ele aceitou. Eu comecei a dizer como fazer. Aí era só aritmética, mais especificamente, apenas somas. Ele disse que estava tão cansado que tinha dificuldade prá fazer, de cabeça, as somas mais simples.
Rui Ribeiro
25 de fevereiro de 2026 11:08 amMenos horas trabalhadas não é para se ter mais, mas para não se ter menos civilização. É que à medida que as forças produtivas avançam e a produtividade do trabalho aumenta, exige-se cada vez mais esforço do trabalhador na mesma unidade de tempo, tornando-o mais cansado e desgastando-o mais.
No Manifesto Comunista, Marx e Engels, escreveram: “Na mesma medida em que aumentam a maquinaria e a divisão do trabalho, na mesma medida sobe também a massa do trabalho, seja pelo acréscimo das horas de trabalho seja pelo acréscimo do trabalho exigido num tempo dado, pelo funcionamento acelerado das máquinas, etc”.
À tarde eu fumo recreativamente e vou prá esquina, onde a rua é larga e o fluxo de veículos é reduzido, para estudar, geralmente matemática, geometria analítica, no asfalto. Fico até à noite. Por volta das 20 horas, um jovem sempre passa a pés, com a mochila nas costas e fica olhando o que eu escrevo no asfalto. Há poucos dias fiz o quadrado mágico de Dührer. Ele se deteve por um minuto e ficou olhando o quadrado mágico. Eu perguntei se ele sabia fazer o tal quadrado. Ele disse que não. Eu disse a ele que, se ele quisesse, eu lhe orientaria. Ele aceitou. Eu comecei a dizer como fazer. Aí era só aritmética, mais especificamente, apenas somas. Ele disse que estava tão cansado que tinha dificuldade prá fazer, de cabeça, as somas mais básicas. De que adianta tantas forças produtivas para aquele jovem?
De acordo com Karl Marx:
“Há um grande facto, característico deste nosso século XIX, um facto que nenhum partido ousa negar. Por um lado, despontaram para a vida forças industriais e científicas, de que nenhuma época da história humana anterior alguma vez tinha suspeitado. Por outro lado, existem sintomas de decadência que ultrapassam de longe os horrores registrados nos últimos tempos do Império Romano.
Nos nossos dias, tudo parece prenhe do seu contrário. Observamos que maquinaria dotada do maravilhoso poder de encurtar e de fazer frutificar o trabalho humano o leva à fome e a um excesso de trabalho. As novas fontes de riqueza transformam-se, por estranho e misterioso encantamento, em fontes de carência. Os triunfos da arte parecem ser comprados à custa da perda do caráter. Ao mesmo ritmo que a humanidade domina a natureza, o homem parece tornar-se escravo de outros homens ou da sua própria infâmia. Mesmo a luz pura da ciência parece incapaz de brilhar a não ser sobre o fundo escuro da ignorância. Todo o nosso engenho e progresso parecem resultar na dotação das forças materiais com vida intelectual e na redução embrutecedora da vida humana a uma força material. Este antagonismo entre a indústria e a ciência modernas, por um lado, e a miséria e a dissolução modernas, por outro; este antagonismo entre os poderes produtivos [productive powers] e as relações sociais da nossa época é um facto palpável, esmagador, e que não é para ser controvertido. Alguns partidos podem lamentar-se disso; outros podem desejar ver-se livres das artes modernas, a fim de se verem livres dos conflitos modernos. Ou podem imaginar que tão assinalável progresso na indústria requer que seja completado por uma igualmente assinalável regressão na política. Pela nossa parte, não nos engana a forma do espírito astucioso que continua a marcar todas estas contradições. Sabemos que, para trabalharem bem, as novas forças da sociedade apenas precisam de ser dominadas por novos homens — e os operários são esses [novos homens]. Eles são tanto uma invenção dos tempos modernos como a própria maquinaria. Nos sinais que desorientam a classe média, a aristocracia e os pobres profetas da regressão, reconhecemos o nosso bom amigo, Robin Goodfellow, a velha toupeira que sabe trabalhar a terra tão rapidamente, esse digno sapador — a Revolução. Os operários ingleses são os primeiros filhos da indústria moderna. Certamente que não serão, então, os últimos a ajudar a revolução social produzida por essa indústria, uma revolução que significa a emancipação da sua própria classe em todo o mundo, [uma revolução] que é tão universal como a dominação do capital e a escravidão assalariada. Eu conheço as lutas heróicas por que a classe operária inglesa passou desde os meados do século passado — lutas menos celebradas, porque são amortalhadas em obscuridade e abafadas pelo historiador da classe média. Para vingar as malfeitorias da classe dominante havia na Idade Média, na Alemanha, um tribunal secreto, chamado”Vehmgericht”. Se se visse uma cruz encarnada a marcar uma casa, as pessoas sabiam que o seu proprietário estava condenado pelo “Vehm”. Todas as casas da Europa estão hoje marcadas com a misteriosa cruz encarnada. A História é o juiz — o seu executor, o proletário”.