21 de maio de 2026

Reconfiguração geopolítica e oportunidade do Brasil, por Marcio Pochmann

Pela segunda vez desde o Império Romano, o Ocidente deixa de ser o polo indiscutível da organização do mundo.
Reprodução

O declínio dos EUA e a ascensão da China marcam o fim da ocidentalização dominante no sistema global atual.
Os EUA adotam protecionismo e rompem com o multilateralismo, enquanto a China propõe um sistema multipolar.
Brasil deve aproveitar a reconfiguração para diversificar parcerias e investir em tecnologia e energia renovável.

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Reconfiguração geopolítica e oportunidade do Brasil no segundo quarto do século XXI

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por Marcio Pochmann

O processo de ocidentalização do mundo, isto é, a difusão das instituições políticas, valores culturais, modelos econômicos e alianças de segurança lideradas pela Europa e pelos Estados Unidos, passa por interrupção profunda neste início do século XXI. Duas forças que atuam simultaneamente em sentido contrário produzem esse movimento histórico: o declínio relativo dos Estados Unidos e a ascensão acelerada do Oriente, especialmente da China.

Esse cenário mundial marca um momento histórico raro. Pela segunda vez desde o Império Romano, o Ocidente deixa de ser o polo indiscutível da organização do mundo. O primeiro grande momento histórico começou em Roma (romanização), porém foi interrompido no século V, com a sua queda após 500 anos de duração.

Dez séculos depois, com o fim da Idade Média, a retomada pela expansão europeia proveniente das grandes navegações fundantes do sistema colonial. Concomitante com os avanços do Renascimento e do Iluminismo, a consolidação da liderança do capitalismo inglês nos séculos XVIII e XIX e, depois, na sequência, a hegemonia dos Estados Unidos no século XX.

Atualmente, o processo de ocidentalização sinaliza entrar novamente em pausa. Para países periféricos, o possível vácuo deixado pela ocidentalização não representa apenas riscos, mas uma grande oportunidade para o contexto brasileiro redefinir o seu papel no sistema internacional.

Uma nova pausa do projeto ocidental

A atual postura dos Estados Unidos parece indicar o rompimento com a segunda onda de globalização liberal perseguida nos últimos quarenta anos. Observa-se, por exemplo, o enfraquecimento do multilateralismo, a hostilidade à Organização Mundial do Comércio, a relativização de compromissos climáticos, as tensões com aliados históricos e o maior uso de imposições bilaterais.

Diferentemente do período posterior à Segunda Guerra Mundial, prevalecem ações em busca de vantagens imediatas que secundarizam atuações de garantia da ordem internacional. O protecionismo econômico, comercial e tecnológico surge como resposta defensiva ao enfraquecimento da liderança produtiva e científica diante da ascensão do Oriente.

Além disso, a retórica nacionalista rompe com a ideia de que os valores do Ocidente são universais e devem ser exportados. Isso indica não apenas o enfraquecimento da liderança global, mas o esgotamento mais amplo do próprio projeto de ocidentalização.
O Ocidente não está apenas economicamente enfraquecido, mas também politicamente dividido e menos disposto a sustentar a ordem global que criou. Essa nova pausa histórica abre espaço para modelos alternativos de organização do mundo.

A ascensão do Oriente

A China é a principal força por trás dessa grande transformação histórica do mundo. Diferentemente de potências emergentes anteriores, ela reúne simultaneamente uma grande população, base industrial completa, rápido avanço tecnológico, forte planejamento estatal e estratégia geopolítica de longo prazo.

Mais do que competir economicamente, a China propõe uma nova forma de cooperação internacional. Projetos como a Iniciativa do Cinturão e Rota, os BRICS ampliados e o Novo Banco de Desenvolvimento criam uma arquitetura paralela àquela construída pelo Ocidente.

Não se trata de trocar uma hegemonia por outra, mas de caminhar para um sistema multipolar, no qual vários centros de poder coexistem e disputam influência. Dessa forma, o Oriente deixa de ser apenas um espaço de produção barata e para assumir a condição de novo polo de inovação, com fontes de financiamento e formulação de normas internacionais.

Isso pode reduzir a dependência histórica que muitos países periféricos tinham em relação aos mercados e às tecnologias do Ocidente. Mas ainda é muito cedo para conclusões definitivas, dependendo do que ocorrerá neste segundo quarto do século XXI.

Riscos e novas oportunidades

Esse novo cenário é decisivo para o Brasil. A reconfiguração geopolítica cria uma oportunidade única para fortalecer a sua diplomacia pragmática e sua autonomia estratégica.

A China já é o principal parceiro comercial do país desde 2009. O desafio tem sido transformar essa relação em uma alavanca para o desenvolvimento, indo mais além da produção e exportação de commodities.

O objetivo central deveria ser o de agregar valor à produção, atrair investimentos em tecnologia, modernizar a indústria, fortalecer a infraestrutura logística e ampliar o setor de energias renováveis. O Brasil tem vantagens importantes na transição energética, como a bioenergia, energia solar, hidrogênio verde, minerais estratégicos, entre outros ativos naturais.

São áreas que despertam interesses tanto do Ocidente, em busca da descarbonização e dos novos componentes da Era Digital, quanto do Oriente, em plena expansão industrial. O Brasil pode, nesse sentido, assumir a condição de importante fornecedor global de soluções verdes.

Além disso, torna-se estratégico ampliar parcerias com outras potências do Sul Global, como a Índia, África do Sul e Indonésia, fortalecendo espaços como os BRICS, que ganham relevância em um mundo menos centrado no Ocidente. O principal risco seria trocar uma dependência por outra diante da armadilha da repetição do padrão histórico de subordinação externa e subdesenvolvimento.

Em vez de depender do Ocidente, o Brasil poderia se tornar excessivamente dependente da China, especialmente em tecnologia, financiamento e comércio exterior. Superar uma outra forma de subordinação assume grande relevância neste segundo quarto do século XXI.

Para alcançar um novo caminho, é fundamental priorizar investimentos produtivos frente aos fluxos financeiros, fortalecendo a capacidade tecnológica e industrial nacional. Nesse momento histórico marcado pela intensa instabilidade geopolítica e pela consolidação de um mundo multipolar, a pausa no projeto de ocidentalização coincide com a ascensão do Oriente que encerram a lógica de escolhas binárias.

O Brasil não precisa escolher entre Ocidente ou Oriente. Precisa redefinir os seus próprios interesses, uma vez que o momento exige o pragmatismo diplomático, a diversificação de parcerias, o fortalecimento do Estado como planejador estratégico e uma visão de longo prazo que ultrapasse governos.

A janela de oportunidade está aberta. O Brasil pode atravessá-la como espectador passivo ou como protagonista ativo da nova ordem mundial. O sucesso dependerá de sua capacidade de construir uma estratégia nacional soberana, flexível e orientada para o desenvolvimento sustentável e justo.

Marcio Pochmann é um economista, pesquisador, professor e político brasileiro, atual presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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