4 de junho de 2026

Governar antes que aconteça: a estatística na era da predição, por Marcio Pochmann

Com sistemas estatísticos modernos, ciência de dados, IA e integração de bases públicas, o Estado pode antecipar riscos sociais e agir.
iStock - Reprodução

A era digital exige modernização dos sistemas estatísticos para prever riscos sociais antes que se tornem crises.
Grandes corporações usam dados para antecipar comportamentos; o setor público precisa adotar políticas preditivas.
No Brasil, o Sistema Nacional de Geociências, Estatísticas e Dados (SINGED) é vital para governar o futuro digital.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Governar antes que aconteça: a estatística na era da predição

por Marcio Pochmann

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A história da estatística é também a história das difrentes formas de governar. Cada época criou seus próprios instrumentos para medir, controlar e administrar populações, territórios e riquezas. Por isso, nos dias de hoje, a emergência de uma nova sociedade de serviços hiperconectada na era digital requer modernizar profundamente os sistemas nacionais estatísticos e de geociências, seguindo as recomendações provenientes das melhores práticas presentes na Divisão de Estatística das Nações Unidas.

Nas sociedades agrárias, os primeiros censos serviam para contar terras, tributos, produção agrícola e pessoas submetidas ao poder do Estado. A estatística era uma ferramenta de contagem, fiscalização e controle territorial em um mundo de tempo lento.

Com a urbanização e a industrialização, essa lógica mudou. Os censos tradicionais já não bastavam para acompanhar o ritmo acelerado das cidades, do trabalho assalariado, dos mercados de massa, do consumo urbano, da saúde pública e dos deslocamentos populacionais. Surgiram, então, as pesquisas amostrais, pois mais rápidas, mais baratas e mais adequadas para medir sociedades em transformação.

Agora, na era digital, ocorre uma nova ruptura. A sociedade de serviços hiperconectada produz dados continuamente. Cada compra, busca, deslocamento, clique, curtida, pagamento ou interação digital deixa rastros. A realidade passou a ser registrada em tempo quase real.

Com isso, a estatística deixa de apenas descrever o passado. Ela passa a disputar o futuro.

As grandes corporações digitais já entenderam essa mudança. Google, Amazon, Meta, Netflix, bancos, seguradoras e plataformas de mobilidade não querem apenas saber o que as pessoas fizeram. Querem prever o que elas farão.

A Netflix antecipa quais conteúdos prendem a atenção. A Amazon identifica padrões de consumo antes da compra. Os aplicativos de mobilidade calculam a demanda antes que ela apareça. Bancos projetam risco de crédito, inadimplência e capacidade de consumo antes da decisão do cliente.

Essa é a nova fronteira do poder. Governar comportamentos antes que eles se realizem.

O setor público não pode permanecer preso a instrumentos criados para medir apenas o passado. Censos e pesquisas tradicionais continuam indispensáveis, mas revelam, muitas vezes, problemas já consolidados, como o desemprego instalado, a pobreza existente, a evasão escolar registrada, as epidemias disseminadas ou violência já ocorrida.

Nesse modelo, o Estado chega tarde. Age depois da crise. Corrige, compensa e repara danos já produzidos.

A era digital exige outro padrão de política pública. Com sistemas estatísticos modernos, ciência de dados, inteligência artificial e integração de bases públicas, o Estado pode antecipar riscos sociais antes que eles se convertam em tragédia coletiva.

Pode identificar risco de evasão escolar antes do abandono. Pode prever insegurança alimentar antes da fome. Pode detectar tendências de desemprego antes da demissão em massa. Pode mapear surtos epidemiológicos antes da explosão da doença. Pode reconhecer padrões de violência urbana antes da sua intensificação.

A política pública preditiva, nesse novo cenário, deixa de ser apenas reação. Passa a ser prevenção.

O que está em curso é a passagem da estatística descritiva para a governança preditiva. O dado deixa de ser apenas retrato da realidade. Passa a ser instrumento de antecipação, intervenção e disputa sobre o futuro.

Mas essa transformação também traz riscos profundos. Os algoritmos podem reproduzir preconceitos, ampliar discriminações invisíveis, justificar vigilância permanente e concentrar ainda mais poder nas mãos de grandes corporações digitais e estruturas estatais opacas.

Por isso, a disputa neste início do século XXI não se encontra apenas em estatísticas melhores. Será pelo controle dos dados, dos algoritmos e dos modelos que decidem o que será visto, previsto e governado.

O sistema nacional de estatísticas e geociências precisa, portanto, deixar de ser apenas um instrumento técnico de conhecimento da realidade. Deve tornar-se uma infraestrutura estratégica de soberania digital.

Nesse sentido, a implantação do Sistema Nacional de Geociências, Estatísticas e Dados (SINGED) no Brasil é decisiva. Integrar, interoperar e proteger as múltiplas fontes de informação sob responsabilidade do Estado brasileiro não é apenas uma tarefa administrativa. É uma condição para que o país seja capaz de governar o seu próprio futuro.

Porque, na era digital, quem controla os dados não apenas interpreta o mundo. Controla as possibilidades do que o mundo pode vir a ser.

Referências:

CASTELLS, M. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

DESROSIÈRES, A. A política dos grandes números: história da razão estatística. São Paulo: Editora Unesp, 2008.

FOUCAULT, M. Segurança, território, população. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

FREYRE, G. Social life in Brazil in the middle of nineteenth centuryThe Hispanic American Historical ReviewBaltimore, 5 (4): 597-630, 1922.

MAYER-SCHÖNBERGER, V. ; CUKIER, K. Big Data: A Revolution That Will Transform How We Live, Work, and Think. Boston: Houghton Mifflin Harcourt, 2013.

O’NEIL, C. Weapons of Math Destruction. New York: Crown Publishing Group, 2016.

ZUBOFF, S. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.

Marcio Pochmann é economista, pesquisador, professor e político brasileiro, atual presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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