Contar os invisíveis, a superação de uma dívida de 155 anos
por Marcio Pochmann*
Durante mais de um século e meio, o Brasil produziu estatísticas oficiais ignorando um fato elementar, os que não têm endereço fixo. Desde o primeiro Censo Demográfico de 1872 até o de 2022, a lógica censitária esteve ancorada na ideia de população residente, ou seja, aquela que pode ser localizada a partir do domicílio fixo. Trata-se de uma escolha metodológica coerente com a formação histórica do Estado, mas profundamente limitada diante das contradições do capitalismo contemporâneo.
O modelo censitário brasileiro se fundamentou na referência internacional, porém neste início do século XXI, essa “habitualidade” se fragmentou. A rua tornou-se moradia e exercício de atividades permanentes para centenas de milhares de brasileiros.
Ainda assim, por décadas, essa população permaneceu estatisticamente marginal, somente conhecida parcialmente por iniciativa de algumas prefeituras e em poucos estados, enquanto problema de dimensão localizada.
A partir deste contexto que a direção do IBGE tomou a inédita iniciativa de realizar o primeiro Censo da População em Situação de Rua que representa mais do que uma inovação técnica, pois trata-se de uma ruptura histórica, sem paralelo em outros países.
Isso porque, pela primeira vez, o país se organiza para uma importante operação estatística específica para dimensionar, caracterizar e localizar aqueles que foram sistematicamente excluídos da própria ideia de população oficial. Não se trata apenas de medir, mas de conhecer enquanto subsídio essencial para contemplar a agenda nacional de políticas públicas.
Essa mudança institucional não surge no vazio. Ela responde a transformações profundas na sociedade brasileira. A expansão da população em situação de rua não é um fenômeno episódico ou localizado, mas expressão estrutural das transformações que o Brasil vem passando, exigindo que a nova questão social seja considerada e tratada como um problema nacional, urbano e sistêmico a ser melhor enfrentado.
Nesse sentido, o novo censo rompe com uma dupla invisibilidade. Primeiro, a invisibilidade social que diz respeito a todos que vivem nas ruas e frequentemente reduzidos à condição de problema meramente urbano. Segundo, a invisibilidade estatística que se reproduzia sem dados sistemáticos, cuja consequência era a manifestação de políticas públicas com menor consistência, quando na o improviso.
Ao construir uma metodologia própria, em parceria com ministérios do governo do presidente Lula, secretarias de prefeituras e de governos estaduais, estudiosos, pesquisadores e representantes do movimento social e popular, o IBGE reconhece que a realidade social já não cabe nos instrumentos herdados do passado.
Mas há algo ainda mais profundo em jogo. O que está sendo superado não é apenas uma lacuna técnica de 155 anos, mas um limite político da própria ideia de cidadania estatística. Contar quem não tem endereço é, em última instância, admitir que o direito à existência precede o direito à propriedade. É afirmar que o Estado deve enxergar antes de governar e que, neste sentido, pode comprometer uma governança legítima baseada na invisibilidade.
O paradoxo é evidente. Enquanto o Brasil se sofisticava em suas métricas macroeconômicas, permitiu que crescesse uma população que escapava a qualquer métrica oficial robusta. O resultado foi uma dissociação entre o país que se mede e o país que existe. O novo censo da população em situação de rua recoloca essas duas dimensões em contato, ainda que de forma tardia.
Ao decidir contá-los, o IBGE desloca o problema de lugar. A rua deixa de ser margem e entra no centro da contabilidade nacional. Isso tem implicações profundas. Primeiro, porque redefine o próprio conceito de população, não mais restrito ao domicílio, mas ampliado à existência concreta. Segundo, porque tensiona a ideia de cidadania, reconsiderando que se o Estado reconhece, ele se compromete, mesmo que minimamente a agir.
Mais do que um avanço institucional, trata-se de um gesto civilizatório. Porque, ao final, a questão é simples e radical. No país que não conta seus invisíveis aceita, silenciosamente, que eles não contêm.
*Marcio Pochmann é economista, pesquisador, professor e político brasileiro, atual presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
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