5 de junho de 2026

O acesso à universidade e o papel na ciência da mulher no Brasil, ontem e hoje

FAPERJ

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Pesquisa analisa a trajetória de inserção das mulheres no ensino superior

 

Débora Motta

 

Reunião da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, nos anos 1920: à época, entidade deu suporte às reivindicações das mulheres

 

Uma recente mudança no perfil dos alunos dos cursos superiores no País aponta para uma conquista social: atualmente, a maioria do corpo discente das graduações brasileiras é do sexo feminino. Dados do último Censo da Educação Superior, de 2012, coletados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), confirmam que o universo acadêmico registra maior número de matrículas de mulheres, em cursos de graduação presenciais. Em todo o Brasil, são 3.286.415 matrículas femininas, contra 2.637.423 masculinas. Entretanto, o caminho trilhado pelas mulheres, rumo à universidade, foi longo. A professora Nailda Marinho, Jovem Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ, coordena, na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), um estudo sobre a inserção e permanência feminina nos cursos superiores do Rio de Janeiro ao longo dos séculos XIX e XX.

Com um olhar histórico, ela vem pesquisando casos de mulheres que foram pioneiras no acesso a cursos superiores no Brasil. “O objetivo da pesquisa, que está em andamento, é mapear acervos e fontes documentais, escritas e de imagens, sobre a educação feminina de ensino superior no Rio de Janeiro, para analisar trajetórias das mulheres que lutaram por isso e pelo posterior exercício da profissão”, disse Nailda. “Seja pela observação de trajetórias de mulheres anônimas ou de mulheres com trajetórias públicas, o projeto destaca a luta feminina organizada para se inserir e permanecer no espaço educativo de nível superior.”

A pesquisa tem como marco inicial a década de 1870 e segue até a década de 1960. A partir desse recorte histórico, ela vem pesquisando casos das pioneiras no acesso a cursos superiores no Brasil. Até o momento, ela já visitou os acervos da Biblioteca Nacional, especialmente a hemeroteca; da Fundação Getúlio Vargas; do Proedes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); da Fundação Casa do Estudante do Brasil; do Arquivo Nacional, especialmente a Coleção Correio da Manhã e a do Fundo da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino; entre diversos outros.

“Embora o ensino superior estivesse presente no Brasil desde 1808, com a vinda da família real, somente com a Reforma do Ensino Primário e Secundário do Município da Corte e o Superior em todo o Império – instituída pelo Decreto nº 7.247, de 19 de abril de 1879, e que ficou conhecida como Reforma Leôncio de Carvalho  – a mulher passou a ter esse direito citado”, contextualizou. E foi além: “A primeira mulher brasileira a possuir um diploma de ensino superior foi Maria Augusta Generoso Estrela, que se graduou em Medicina no ano de 1882, porém nos Estados Unidos, não no Brasil. Desta forma, em 1887, Rita Lobato Velho Lopes (1867-1954) se torna a primeira mulher a se graduar no País na Faculdade de Medicina da Bahia, embora tenha iniciado seus estudos na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e depois, por motivos familiares, se transferido para a faculdade em que se formou.”

Um aspecto interessante do tema foi o papel da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino para a inserção acadêmica, em um período em que a mulher ainda era vista pela sociedade brasileira como “a rainha do lar”. A entidade foi precursora de diversas iniciativas pela emancipação, especialmente nos anos 1920 e 1930. “Merece destaque a atuação da Federação Brasileira Pelo Progresso Feminino, fundada em 1922 e tendo como principal bandeira de luta a busca pelo sufrágio universal. Com sede no Rio de Janeiro, então capital do País, a Federação, que tinha como presidente Bertha Lutz, possuía uma rede de relações significativas e discutiu em seus congressos diversos temas, como a nacionalização do ensino público, a educação doméstica, o ensino primário, a formação para o magistério, o ensino secundário e o superior para as mulheres”, disse.

 

Bertha Lutz foi uma das sufragistas e líderes do movimento pela inclusão acadêmica feminina

 

Uma das figuras mais significativas do feminismo e da educação no Brasil do século XX, Bertha Maria Julia Lutz (1894-1976) era filha da enfermeira inglesa Amy Fowler e do cientista e pioneiro da medicina tropical Adolfo Lutz. Tornou-se bióloga, formada pela Sorbonne em 1918, com especialização em anfíbios. É considerada a segunda mulher a ingressar no serviço público federal do País, como pesquisadora do Museu Nacional, no Rio. A primeira teria sido a diplomata Maria José Rabelo Castro Mendes, admitida em 1918 no Itamaraty.
A federação foi peça-chave para a organização de três congressos feministas nos anos de 1920 e 1930, no Rio, então Distrito Federal: a 1a Conferência pelo Progresso Feminino, no mesmo ano de sua fundação; o 2º Congresso Internacional Feminista, em 1931; e o 3º Congresso Internacional Feminista, em 1936. “Vale citar que, entre os temas reivindicados pelas feministas no 2º congresso, estava a criação de um pavilhão feminino no projeto da Casa do Estudante do Brasil na cidade universitária, atual UFRJ. Argumentava-se que moradia estudantil não era apenas uma necessidade para os rapazes como estava previsto no projeto inicial”, destacou.

Já em 1929, as mulheres da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino fundaram a União Universitária Feminina, que em 1961 passou a se chamar Associação Brasileira de Mulheres Universitárias. A partir da década de 1930, a União Universitária Feminina, presidida pela engenheira Carmem Velasco Portinho, teve papel importante para a inserção e permanência das mulheres nas faculdades. Por sinal, Carmen foi fundadora da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, com apenas 18 anos. Ela foi uma das “sufragistas”, isto é, mulheres que lutaram pelo direito ao voto feminino, mais próximas de Bertha Lutz.

Além de Carmen Portinho, a União Universitária Feminina teve como integrantes de sua diretoria mulheres como Heloisa Marinho (formada em filosofia pela Universidade de Chicago), Orminda Bastos (advogada); Natércia da Silveira (advogada); e Amélia Sapienza (engenheira). Integravam a Comissão do Conselho: Bertha Lutz, Joana Lopez (médica cirurgiã), Mirtes de Campos (advogada), Erbina de Assis (médica) e Emília Snethlage (doutora em ciências).

Existia um movimento promovido pela União Universitária Feminina para incentivar o estudo superior entre as mulheres. “Quando elas conseguiam ingressar no curso superior, era oferecido às estudantes, pela União, o ‘chá das calouras’. E, quando elas conseguiam concluir os respectivos cursos, a união promovia nova comemoração, com o ‘chá da vitória’”, relatou Nailda, que observou em jornais da época que a União Universitária Feminina foi convocada formalmente para a criação da União Nacional dos Estudantes (UNE), em 1937.

O estudo do movimento feminista do passado apresenta reflexões que ainda se revelam atuais, devido às lentas transformações da sociedade brasileira rumo à democratização social e cultural. A educadora cita, por exemplo, que a discussão pela necessidade de as mulheres terem um vagão feminino exclusivo no metrô é mais antiga do que o senso comum pode afirmar. “Há hoje opiniões diferentes quanto ao vagão feminino exclusivo nos metrôs. Se no Rio de Janeiro isso é lei, em São Paulo isso foi vetado. Na década de 1920, as mulheres solicitavam na 1ª Conferência pelo Progresso Feminino, organizada pela Federação, um vagão de trem exclusivo para as mulheres devido ao assédio sexual por elas sofrido da parte dos homens. Estamos em 2014, século XXI, e isso ainda é motivo de discussão”, destacou Nailda.

 

Nailda Marinho observou questões de gênero do início do século XX que permanecem atuais

Os movimentos femininos iniciados ainda no século XIX visavam ao resgate social e à afirmação política das mulheres. “Hoje, temos três mulheres concorrendo à presidência da República, fato impensável há tempos atrás. Entretanto, ainda hoje precisamos de cotas para ganhar espaço na política. A nossa sociedade só acabou com o pátrio poder com a Constituição de 1988, o que é ainda muito recente. Mas isso só ocorre na letra da lei, pois ainda há mulheres ganhando menos do que homens e exercendo a mesma profissão; além de mulheres condenadas por usarem roupas entendidas como provocantes. Se pensarmos que foi notícia de jornal, em 1917, uma mulher ter que se esconder em uma loja para fugir da população por ousar andar no Centro do Rio de calça comprida, ainda temos muito o que caminhar”, concluiu Nailda.

Ela conta com a participação de três bolsistas de iniciação científica da UniRio no projeto, todas alunas do curso de Licenciatura em Pedagogia: Beatriz Olivencia Piolla, Mariana Rodrigues de Jesus e Mônica da Costa Monteiro.

 

http://www.faperj.br/boletim_interna.phtml?obj_id=10348

 

 

UFRJ

 

Mulheres cientistas, por que ainda são poucas?

ASSESSORIA DE IMPRENSA – GABINETE DO REITOR
[email protected]

Por Giovanna Lisbôa

 

O Efeito Matilda pode explicar muito do desconhecimento em torno das contribuições femininas para a ciência. O conceito elaborado pela pesquisadora da Historia da Ciência Margaret W. Rossiter, em 1993, explica que as descobertas e contribuições científicas feitas por mulheres durante muito tempo foram atribuídas aos homens, sendo a verdadeira autora colocada em segundo plano ou até mesmo apagada por completo. Com as conquistas femininas, essa prática deixou de ser socialmente aceita, porém, mesmo nas ciências, os cargos de chefia ainda são espaços nebulosos onde a presença feminina ainda é rara.

O conceito descrito por Rossiter recebeu esse nome em homenagem à ativista Matilda Joslyn Gage que lutava pelo direito das mulheres no século XIX. Em busca de analisar o campo das ciências e garantir maior espaço para as mulheres, pesquisadoras do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF) organizaram o Simpósio Mulher e Ciência que aconteceu no dia 15 de setembro. Segundo a diretora da IBCCF, Sandra Maria Feliciano de Oliveira e Azevedo, “essa discussão é importante, porque extrapola a área da ciência”. 

Contra qualquer reinvindicação os números não mentem. Segundo o Censo do Ensino Superior de 2012, as mulheres já são a maioria a ingressar na graduação (54,6%), bem como a conclui-la (59,6%). Na produção científica, de acordo com dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a participação dos dois gêneros em números absolutos ocorrem de forma igualitária. A presença feminina é a maioria na iniciação científica, cerca de seis a cada dez bolsistas são mulheres, mas se reduz ao longo da carreira acadêmica. Apenas um quarto dos chefes de laboratórios é do sexo feminino.

No Simpósio foram discutidos diferentes aspectos dessa temática. A pesquisadora convidada  Sophia Huyer, diretora do Gender in Science, Innovation, Tecnology and Enginneering do Canadá, fez uma análise comparativa da participação feminina em diferentes países. Enquanto a professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), Hildete Araújo, que também já integrou a Secretaria de Políticas das Mulheres da Presidência da República, trouxe dados do CNPq para debater o cenário brasileiro científico atual.

Para a professora da UFF, “a ciência é branca e masculina”. As mulheres apesar dos avanços enfrentam ainda hoje, segundo ela, muitas dificuldades, pois estão muito ligadas às atividades associadas à maternidade, cuidado dos filhos e da casa, o que ocupa muito tempo diário. Na última Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio (Pnad), a média de horas de trabalhos domésticos semanais femininos é de 26 horas, enquanto a dos homens é de apenas 10.

Outra pesquisadora, inclusive responsável pela organização do evento, era a neurocientista do IBCCF Eliane Volchan. A cientista debateu através de diversos experimentos como a forma da construção e apreensão do mundo pelas pessoas influenciam suas decisões. Em uns dos estudos mostrados, o mesmo currículo foi disponibilizado a examinadores somente com o nome trocado, um nome no gênero feminino e outro no masculino. Os currículos com nome de homem tiveram uma aceitação muito maior.

Por fim, a coordenadora do espaço memorial Carlos Chaga Filho, Daniele Botaro, apresentou os dados históricos das mulheres no instituto. O trabalho feito pela aluna Gabriela Lúcio demostrou que 65% de toda a ciência produzida no IBCCF são feitas por mulheres, ainda assim elas são a minoria nos postos de chefia.

 

http://www.ufrj.br/mostraNoticia.php?noticia=15121_Mulheres-cientistas-por-que-ainda-sao-poucas.html

 

Ver também na página do CNPq: Pioneiras da Ciência no Brasil

 

 

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