do Observatório de Geopolítica
Amazônia: constrangimentos externos & vida política doméstica
por Angelita Matos Souza
Todo mundo deveria ler Arrabalde. Em busca da Amazônia, de João Moreira Salles. A tese central é desoladora: a soberania sobre a Amazônia está perdida, não para potências imperialistas, e sim para o crime organizado. Porém, vale registrar que nem tudo é desolação no retrato de Salles, sendo bastante interessante o capítulo sobre Paragominas.
No início deste século, o município estava entre os maiores desmatadores do país, concentrando enorme quantidade de serrarias e carvoarias, com o desmatamento recorde acompanhado de todo tipo de atividade criminosa correlata, ao ponto de a cidade ficar conhecida como Paragobala.
Durante os governos Lula 1 e 2, nas gestões de Marina Silva e de Carlos Minc no Ministério do Meio Ambiente (MMA), o município voltaria a ser Paragominas. De fato, viria a ser outra cidade, um modelo de governança ambiental. Não contaremos essa reviravolta, vale ler o livro, também há bons estudos a respeito do caso Paragominas.
Importa apenas sublinhar que a mudança foi possível por meio de uma somatória de fatores: constrangimentos desde fora, impulsionados pela atuação de ONGs nacionais e internacionais; pacto social estabelecido localmente, conduzido pela Prefeitura e favorecido pelo medo das punições infundido nos agentes econômicos, as decorrentes da aplicação das leis e as do mercado. Tudo respaldado pelas ações firmes do governo federal, sob a liderança do Ministério do Meio Ambiente, contando com o comprometimento de servidores públicos de órgãos diversos (Ibama, Polícia Federal, Ministérios Públicos, Forças Armadas).
Certamente, é muito difícil reproduzir a experiência de Paragominas em toda a região, pois o poder do crime organizado avançou muitíssimo. De todo modo, não se pode desistir. E o governo Lula 3 já conseguiu debelar a tragédia no território Yanomami, algo admirável. Entretanto, há quem manifeste bem mais preocupação com “interesses imperialistas” na Amazônia do que com o crime organizado.
Sobretudo nas redes sociais, tenho acompanhado críticas ao suposto entreguismo da Amazônia pelo governo Lula 3 (juro!). Neste sentido, o chamado do presidente Lula à colaboração internacional pela defesa e exploração sustentável da Amazônia foi classificado por alguns de subordinação a interesses das potências imperialistas, que visariam unicamente a posse das riquezas naturais do país.
Segundo um sujeito, o objetivo é impedir que o Brasil se desenvolva e venha a ser uma potência (juro!). O desmatamento da Amazônia sequer seria um problema e os constrangimentos externos decorrentes não passariam de arma de guerra para tomar o que é nosso e impedir o Brasil de cumprir o seu destino desenvolvimentista grandioso.
Há também os que classificam o terceiro governo de Lula de “Open Society”, pois entendem que a política ambiental do governo foi entregue para uma esquerda liberal financiada pelos “globalistas”. Até o Fundo Amazônia já vi desqualificado como ingerência externa.
Ainda não li nenhuma consideração sobre a possibilidade de intervenção direta na Amazônia, comandada desde os EUA, hipótese que eu cogitaria se o governo Bolsonaro tivesse sido reeleito e mantido o incentivo a atividades criminosas destrutivas na região. A hipótese de intervenção light, passando pelas doações financeiras, vejo com alívio. E, obviamente, o Brasil precisa de ajuda internacional.
Isto implica no abandono da crítica? Não, contudo, essa aparece como tola se desiste de pensar a Amazônia como totalidade social complexa. Quer dizer, é inegável a existência de vínculos entre onguismo e imperialismo, há muitos estudos indicando os nexos, o próprio Álvaro García Linera tem um livro a respeito. Também não se pode ignorar o interesse econômico nas riquezas da Amazônia. O problema é negligenciar o contraditório, justamente no que tem apostado o governo Lula 3, que procura ampliar as margens do “possibilitismo” para extrair vantagens, política que foi a marca registrada dos governos Lula 1 e 2.
Em suma, não vejo entreguismo, e sim estratégia, inclusive ao povoar o MMA de “globalistas”, que terão pela frente, muito provavelmente, uma briga feia com a Petrobras, devido a projetos na Foz do Rio Amazonas. Atividade de exploração que deve interessar a grupos econômicos dos países dominantes, àqueles que alguns acusam de instrumentalizar os globalistas no governo.
Iniciamos pela experiência de Paragominas porque chama a atenção por trazer esperança e por dar ideia das múltiplas dimensões do problema-solução Amazônia, que só pode ser apreendido em sua totalidade complexa. Não é isto ou aquilo, é “Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo”, filme que, aliás, não consegui ver até o final, mas espero que tenha sido feliz.
Angelita Matos Souza. Cientista Social, Mestre em Ciência Política e Doutora em Economia pela Unicamp. Livre Docente em História Econômica do Brasil pelo IGCE-Unesp e docente no IGCE-unesp.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. A publicação do artigo dependerá de aprovação da redação GGN.
Deixe um comentário