A cultura nem sempre tem razão
por Ulysses Ferraz
O relativismo cultural é uma constatação antropológica com base na realidade empírica: culturas distintas muitas vezes possuem hábitos, costumes e valores distintos. Mas do relativismo cultural demonstrado pela antropologia não se segue que o relativismo moral seja uma posição defensável. Este último, embora pareça ser uma posição progressista e sofisticada, pode ser altamente problemático e até mesmo conservador. Dito de outro modo, muitas vezes é preciso desafiar a cultura. Vejamos.
Quando se adota um posicionamento culturalmente relativista nas questões morais, tudo que é derivado de uma dada cultura deve ser aceito como legítimo, para além do bem e do mal. Mas se isso é verdade, como criticar uma sociedade cuja cultura é racista, machista, homofóbica etc.? Como repudiar a Alemanha nazista se o o nazismo era uma expressão de sua cultura? Como argumentar contra a extirpação de clitóris, por exemplo, uma prática comum em certas culturas ainda hoje? Como se horrorizar em face do sacrifício das viúvas na Índia, quando elas eram queimadas vivas para permanecerem eternamente fieis ao marido falecido, em razão de um cultura patriarcal e machista? E o que dizer do Brasil, com seu racismo (estrutural ou não) persistente, fruto de uma cultura escravagista que ainda permanece entre nós?
Se a cultura é a palavra final em termos de moralidade, só nos resta a resignação. Quando abraçamos o relativismo cultural para fins de moralidade, tudo que é fruto da cultura deve ser aceito como correto. Quando o fundamento moral é a cultura, seja a nossa ou a do outro, tudo o que ela estabelece em razão das práticas culturais reiteradas se torna moralmente válido. Em resumo, invocar a cultura como fundamento não parece ser um bom critério para se lidar com problemas morais, lembrando sempre que moralidade não é sinônimo de moralismo, mas um domínio da razão humana em que devemos refletir, individual e coletivamente, sobre a coisa certa a fazer de um ponto de vista objetivo, razoável e, portanto, universalizável.
Ulysses Ferraz, mestre em Lógica e Metafísica pela UFRJ e doutorando em Ciência Política pelo IESP-UERJ
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Eduardo Klock Frank
12 de abril de 2023 4:50 amSe você opera como juiz, você quer julgar as culturas do mundo. A diversidade cultural é um fato, como o é a humanidade existir. Moralistas operam no campo da ilusão, querendo julgar uma coisa como certa pra dizer da outra ser errada. Toda cultura pode ser vista por uma lógica do que é certo e do que é errado, exceto as extintas. Por isso, todas são válidas e inválidas ao mesmo tempo, dependendo de sua coerência com determinado aspecto. Odeio moralistas que, na sua sede de poder como fracassados que são, buscam invalidar fatos, verdades. O relativismo cultural é um fato, como o é o absoluto ético em nossas vidas
maria de lourdes
3 de setembro de 2023 7:59 pmEntão o senhor acha que é uma “questão de moralismo” a violação de direitos humanos, em especial os das mulheres, como foi citado no texto? Você acha que alguma de nós gosta/gostaria de ter o clitóris extirpado, ser casada aos 10 anos com um cara de 50,ser apedrejada até a morte por suspeita de adultério, só para citar alguns exemplos de coisas “aceitáveis” em certas culturas? segundo seus critérios, nós adoramos não é? e nem existe resistência feminina para mudar estas práticas.
quem está no campo da ilusão (e eu diria até da crueldade e falta de empatia) é o senhor. Muito fácil vir com este papo arrogante quando não é alvo de certas práticas culturais.
Aristóteles Lima Santana
13 de abril de 2023 4:46 pmO único defeito do texto é que ele é curto. Mas eu sei que essa massa de hoje tem dificuldade de ler uma simples lista de compras. Corretíssima a posição. Nossa esquerda hoje em dia (que estuda pouco em comparação às esquerdas de outras épocas, é bom lembrar) costuma pegar as “ideias lindinhas e fofinhas” e adota-las sem aprofundamento do que significam. Não vão faltar jargões contra esse texto aqui nos comentários, pois o jargão virou a forma de pensar de uma parte de nossa esquerda. O mais interessante é que entre nós tem pessoas que condenam o machismo, o racismo e a homofobia (e o fazem de forma correta, claro), mas defendem o relativismo cultural, ou seja, defendem o direito de culturas diversas serem machistas, racistas ou homofóbicas.