19 de junho de 2026

Natural born killers: o Romantismo absurdo da guerra no cinema norte-americano

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Os filmes de guerra se tornaram uma realidade após a I Guerra Mundial, que foi a primeira a ser largamente registrada pelas câmeras. Durante a II Guerra Mundial dezenas de filmes foram feitos para ajudar no esforço de guerra. Mas foi somente a destruição da Alemanha nazista e do Japão imperialista que a indústria do cinema dos EUA passou a produzir filmes de guerra numa verdadeira linha de montagem. Desde então os conflitos armados foram transformados no mais importante e rentável filão da indústria cultural norte-americana. 

Há décadas os EUA fazem guerras, a indústria do cinema norte-americano as utiliza como fonte de inspiração e o produto cultural é distribuído com lucro para ajudar a legitimar e a justificar novos conflitos. O espaço de tempo entre os conflitos e os filmes feitos sobre os mesmos tem sido reduzido. Bin Laden foi morto numa operação militar em maio de 2011. Em dezembro de 2012, pouco mais de um ano depois, foi lançado o filme A Hora Mais Escura, cujo tema é a caçada ao ex-terrorista financiado pela CIA.

Heroísmo, benevolência, abnegação diante do imponderável são os temas recorrentes nos filmes de guerra produzidos nos EUA. O soldado norte-americano cinematográfico geralmente não refuga o combate, raramente comete crimes de guerra e na maioria das vezes é retratado como um homem comum em situação excepcional. Há vezes em que ele é retratado como um viciado em violência, mas isto não é a regra. Em geral, as habilidades dos soldados dos EUA são esteticamente valorizadas como se matar fosse uma arte tão refinada quanto salvar vidas.

O tema “soldado que age para salvar vidas”, aliás, está presente em muitos filmes de guerra “made in USA”. Em alguns filmes os soldados não vão a guerra, mas sim a uma grande festa. Quando a diversão acaba e os tiros começam, eles passam a agir de maneira séria e profissional. Em outros eles são submetidos a um sargento durão e malvado, que dá a vida para salvar seus subordinados quando eles ficam em perigo. 

O conflito armado, tema central dos filmes norte-americanos de guerra, geralmente é retratado como uma necessidade axiológica ou como um fenômeno ontológico que independe da vontade humana. Em vários filmes de guerra “made in USA” o teórico Karl von Clausewitz  é citado (“A guerra é a continuação da política por outros meios”). Mas as verdadeiras motivações das ações militares dos EUA (conquista de territórios, garantia de acesso à matérias primas consideradas valiosas pela Casa Branca ou pelo Pentágono, punição de ex-parceiros dos EUA e preservação da saúde da economia de guerra norte-americana) quase sempre não estão presentes nos filmes.

A guerra também já foi objeto de paródias e programas humorísticos (O Grande Ditador e Mash). É grande a quantidade de séries de TV produzidas nos EUA que tratam da guerra entre seres humanos, entre seres humanos e alienígenas e até entre alienígenas. Numa destas séries recentes, em que um grupo de milicianos humanos combate alienígenas que invadiram o planeta (Falling Skies), uma criança pode ser vista utilizando um fuzil automáticohttps://www.facebook.com/photo.php?fbid=854639444559885&set=a.345737828783385.85599.100000415136357&type=1&theater. A popularização do uso de armas de fogo entre crianças nos EUA não é só um fenômeno estético, tanto que esta semana resultou numa tragédia (uma menina de 9 anos de idade matou seu instrutor de tiros com uma Uzi). Os pais dela eram fãs de Falling Skies?

Quando os soldados cinematográficos não começam o filme sob uma intensa chuva de balas, eles estão em treinamento ou sendo enviados para o local em que a guerra será travada. As péssimas motivações dos inimigos dos EUA são, porém, sempre relevadas. Os norte-americanos só combatem em guerras justas. Raros são os filmes feitos nos EUA em que a motivação norte-americana é injusta ou criminosa.

A tortura é largamente utilizada como tema dos filmes de guerra. Em várias produções soldados cinematográficos norte-americanos são submetidos às mais abjetas sevícias. Quando são eles que torturam soldados inimigos o contexto criado leva o telespectador a acreditar que a conduta desonrosa e criminosa é justificável. Cenas de civis sendo torturados ou mortos por soldados norte-americanos também podem ser vistas em filmes “made in USA”. Mas quando isto ocorre os civis não são tão inocentes assim, se forem inocentes os personagens que praticaram tortura e cometeram assassinato morrem antes do fim do filme.

Em alguns filmes de guerra os soldados norte-americanos são retratados como “natural born killers” (este tema foi satiricamente utilizado num filme homônimo de 1994). Em outros, os guerreiros de mentira são intensamente treinados e adquirem a habilidade de matar quando confrontados com a realidade da guerra. Há filmes em que os soldados relutam em agir e só começam a matar inimigos depois que seus camaradas são mortos. O heroísmo relutante do norte-americano é, aliás, tema em vários tipos de filmes norte-americanos. O egoísmo e a pilhagem também são temas centrais nos filmes de guerra “made in USA”, mas em razão das escolhas estéticas os egoístas quase sempre se arrependem ou acabam mal.  A influência do Romantismo na produção dos filmes norte-americanos de guerra é evidente. 

A melhor cena de um filme guerra que conheço está em  “The Longest Day”. Três soldados de países diferentes ficam lado a lado num celeiro. A guerra troa distante. Um deles é inglês e está ferido, o outro é alemão e jaz morto, o terceiro é um norte-americano saudável quase louco de medo. Eles simbolizam o que a guerra faz aos indivíduos e o que a II Guerra Mundial fez aos seus respectivos Estados. O que uma guerra pode produzir além de morte, mutilação e loucura? A pergunta não é feita no filme. Mas precisa ser respondida. As guerras reais modernas travadas pelos EUA http://jus.com.br/artigos/25856/a-guerra-do-futuro-resenha-da-obra-de-be… sempre produzem lucros para os industriais, boa vida para os generais e a ilusão de segurança para os civis que vão ao cinema ver filmes de guerra. 

 

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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5 Comentários
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  1. altamiro souza

    1 de setembro de 2014 4:05 pm

    reli duas vezes o final do

    reli duas vezes o final do post,

    síntese da ligação da cinematografia hollydiana com os interesses militares norte-americanos e por tabela com o tal do destino manifesto criado por volta de 1850, que permeiam até hoje atuação externa daquele país – invadir para defender interesses democráticos.

    às vezes resultam em ditaduras

    mas  o poder midático deles é tão grande e poderoso que tudo passa a ser minimizado., vide iraque e assemelhdos.,

     

  2. rosenvald flavio barbosa

    1 de setembro de 2014 6:42 pm

    guerras………..

    Fabio, eu era apaixonado por filmes de guerra.

    quando me dei conta de que os americanos fazem seus filmes, como fazem suas guerras……….deixei de gostar.

  3. agincourt

    1 de setembro de 2014 11:19 pm

    filmografia bélica

    Excelente artigo sobre a filmografia bélica estadunidense.

    Os filmes estadunidenses desse gênero têm certamente grande valor como propaganda motivadora de alistamentos. Para um país que, há praticamente um século, está sempre envolvido em alguma guerra em algum recanto do planeta, isso é de grande utilidade.

    Creio que boa parte dos jovens que cresceram assistindo, de acordo com a época, as façanhas de Audie Murphy, John Wayne, Chuck “Braddock” Norris, Stalone, Clint Eastwood, Mel Gibson etc, se alista na esperança de viver as mesmas aventuras.

    Bem ilustrativo é a fala em que o personagem central de NASCIDO A QUATRO DE JULHO, vivido por Tom Cruise, acaba culpando os filmes de John Wayne pelo tiro que o deixou paraplégico. Não deixa de ter razão.

    (Em rigor, a figura recorrente e já folclórica do sargento durão aparece pela primeira vez em NADA DE NOVO NO FRONT – novela do escritor alemão Erich Maria Remarque, posteriormente transformada em um clássico cinematográfico-: o cabo  Himmelstoss.)

    Mesmo OS NUS E OS MORTOS, de Norman Mailer , uma obra literária bastante crítica sobre a guerra, foi desfigurada por Hollywood de seu sentido original e transformada numa bobagem insossa que padece de alguns dos males apontados Fábio de Oliveira.

  4. Lucinei

    2 de setembro de 2014 1:24 pm

    Muito bom texto.
    Para além

    Muito bom texto.

    Para além dos filmes de guerra, essa “guerreirice” já se estende para todos oos outros gêneros. Não somente os de polícia e bandido; até mesmo em comédias e romances os personagens são ordinariamente “valentes” e precisam demonstrar “atitude” para que a histórii possa desenrolar. Essa cultura da violência já virou código básico de sociabilidade pra mmuita gente.

  5. Mensageiro Teodoro

    6 de novembro de 2014 3:54 am

    OFF USA
    Parabéns Fábio pela análise subliminar dos filmes “made in USA”, que corrompe os neurônios dos telespectadores com a farsa teatral de um enredo lúdico repleto de nitroglicerina cancerígena, no mesmo sentido real da morte de milhares de semelhantes “civis” pelos americanos sem qualquer sentido, ou por apenas um escoamento produtivo das suas bombas produzidas como um bem de consumo lucrativo. OFF USA

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