do Observatório de Geopolítica
A cúpula China-Ásia Central como marco político na Eurásia
por Valdir da Silva Bezerra
Em paralelo à reunião do grupo dos países do G7 no Japão, claramente esvaziada de sua importância de outrora, ocorreu uma Cúpula deveras mais relevante e ao mesmo tempo pouco comentada pela mídia ocidental. Trata-se da Cúpula China-Ásia Central em Xi’an (na China), que se deu nos 18 e 19 de maio. Trata-se, em verdade, de um verdadeiro marco político na Eurásia, uma vez que reforça algumas das principais diretrizes a nortear o relacionamento da China com os países da região.
Em primeiro lugar, é preciso destacar a ênfase dada por Xi Jinping durante a Cúpula à Nova Rota da Seda, lançada ainda em 2013 pelo mandatário chines, e que consiste num grandioso projeto de integração econômica regional na qual os países da Ásia Central têm papel fundamental como parte do trajeto terrestre para o escoamento da produção chinesa aos mercados europeus. Diante desse contexto, os países situados na Ásia Central tornaram-se uma espécie de centro da massa continental eurasiática, promovendo o estabelecimento de laços comerciais entre Ásia e Europa e servindo de ponte de diálogo entre diferentes civilizações. A China, por sua vez, volta a retomar sua influência natural na região, influencia essa que exercia desde o estabelecimento da primeira – e histórica – Rota da Seda sem, com isto, prejudicar a participação da Rússia no contexto regional.
Isso porque a Rússia continua desempenhando um papel de grande influência na Ásia Central do ponto de vista cultural, político e militar. Ora, a língua russa continua sendo uma espécie de língua franca na região, assim como no próprio espaço pós-soviético, enquanto que politicamente Moscou é um dos principais garantes da estabilidade doméstica dos governos centro-asiáticos, ao lado de Pequim. No mais, dada sua clara predominância militar, a Rússia assumiu abertamente o papel de defender dos países da Ásia Central em função da Organização do Tratado de Segurança Coletiva, único órgão na Eurásia que conta com um mecanismo de defesa coletiva.
A China, por outro lado, além da Nova Rota da Seda, concentra-se no aspecto econômico de sua cooperação com a Ásia Central, voltada para o comércio de petróleo e gás com esses países. Como resultado, Pequim tornou-se o principal destino para as commodities exportadas pela Ásia Central internacionalmente. Não por caso, durante a Cúpula Xi Jinping prometeu desenvolver ainda mais os corredores terrestres que ligam a China a esses países, ampliando assim a capacidade de tráfego dos produtos comercializados. Para além disso, a China objetiva facilitar o comércio bilateral com a região, simplificando processos aduaneiros e diminuindo embaraços burocráticos.
Por último e não menos importante, a Cúpula China-Ásia Central fez menção à importância da manutenção da estabilidade política dos governos, opondo-se frontalmente às chamadas Revoluções Coloridas no âmbito de seu território. É notório que tais movimentos, que visavam unicamente derrubar governantes locais por meio de insurreições sociais orquestradas por potências externas, tinham como pano de fundo o apoio dos Estados Unidos e de seus satélites europeus. O intuito era causar instabilidade regional para depois vender “democracia e direitos humanos” como a solução premente para os complexos problemas domésticos vivenciados por estes países. Rússia e China já entenderam há muito tempo a lógica insidiosa desse movimento e agora tem atuando em conjunto como baluarte para a defesa da soberania e integridade territorial da Ásia Central frente aos desígnios do Ocidente.
No limite, a realização dessa importante Cúpula com os líderes centro-asiáticos confere à China um papel indispensável para a consolidação da Eurásia como um centro de poder independente nas relações internacionais. Podemos esperar, portanto, por uma bem-vinda intensificação dessa liderança chinesa na Ásia Central nos próximos anos, também angariada pelo peso militar e político da Rússia na região. Não obstante, o fortalecimento dos laços da China com os países centro-asiáticos também serve de elemento fundamental na construção de um mundo multipolar mais diverso e representativo. Dito isto, é muito mais interessante assistir à essa nova configuração de forças no centro do continente Eurasiático do que a reunião para ensaio fotográfico dos países do G7 no Japão.
Valdir da Silva Bezerra – Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Estatal de São Petersburgo. Membro do Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais sobre Ásia da Universidade de São Paulo (NUPRI-GEASIA). Pesquisador do Grupo de Estudos Sobre os BRICS da Universidade de São Paulo (GEBRICS-USP). Colaborador do Grupo de Estudos sobre a Rússia (PRORUS) da Universidade Federal de Santa Catarina.Vitor Fernandes – Cientista Social, Mestre em políticas públicas (UERJ)
Deixe um comentário