O Caetano Veloso de cada um
por Homero Fonseca
Pra começo de conversa: considero Caetano Veloso o artista mais criativo, instigante e reflexivo de uma geração brilhante. Me identifico mais com Chico Buarque das letras narrativas de claro lirismo e compreensão mais cartesiana do mundo. Mas isso é uma questão subjetiva. Caetano está um degrau acima de todo mundo por sua postura de sempre experimentar com base em sólidos conhecimentos etc. etc.
Isso é só o nariz de cera para falar o seguinte. Um amigo, belo escritor, escreveu um texto longo e denso sobre uma experiência de grande repercussão coletiva, dentro da qual ele se colocava pessoalmente, como permite e até incentiva o código literário dos grandes ensaios.
Ocorre que, tendo-se em alta conta – o que não é nenhum despropósito, em face de suas altas qualidades – parece haver ultrapassado as fronteiras do solipsismo. Isso é o que se depreende da resposta de um editor sincero, ao rejeitar sua publicação: “Está ótimo, mas você não é Caetano Veloso”.
Traduzindo: sendo um quase ilustre desconhecido, meu amigo escritor valorizara demais sua própria vivência, coisa que somente as celebridades podem fazer – no caso do baiano com conhecimento de causa.
Adotei a expressão. Sempre que, em meu trabalho de consultor literário, pinta um texto onde se detecta a mão pesada do autor, advirto: “Tem Caetano Veloso demais aí!” Quando conto a historinha, os clientes entendem e acham graça.
Homero Fonseca é pernambucano, escritor e jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco. Foi editor da revista Continente Multicultural, diretor de redação da Folha de Pernambuco, editor chefe do Diario de Pernambuco e repórter do Jornal do Commercio. Foi também professor de Teoria da Comunicação e recebeu menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Atualmente, dedica-se à literatura e mantém um blog em que aborda assuntos culturais.
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